O tão quente e melancólico Azul do amor é quase um blues... | Cabine Cultural
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O tão quente e melancólico Azul do amor é quase um blues…

Azul é a cor mais quente

Como uma música que nos vem à cabeça, de repente, ela (Adèle) tropeça em um azul intenso, no meio da rua, e toda a cidade se expande, pintada unicamente por esse tom que vinha dos cabelos daquele que seria o seu primeiro amor, outra mulher (Emma).

É quando o azul se torna mais quente que o asfalto à luz do sol, e os olhos se tocam e ficam impregnados do instante. Cada uma segue seu destino, levando no corpo aquele calor que aqueceria os dias até um próximo encontro…

E assim se desenrola a mais nova trama do diretor tunisiano Abdellatif Kechiche, “ La Vie d’Adèle” ou “ Azul é a cor mais quente”, baseada na HQ de Julie Maroh. O filme já estreou, no Brasil, premiado pela Palma de Ouro do Festival de Cannes, nada mais merecido, pois o drama erótico é mesmo de tirar o fôlego, levando-nos do êxtase ao caos, eis os dois lados de uma mesma moeda: o amor.

Azul é a cor mais quente

Trata-se de um romance entre uma estudante (Adèle), que está na fase da descoberta do sexo e da relação amorosa, e uma pintora (Emma), um pouco mais velha e de uma classe social superior.

Apesar das longas cenas tórridas de sexo entre as duas protagonistas, representadas pelas atrizes Léa Seydoux e Adèle Exarchopoulos (esplendorosa!), o filme ultrapassa os limites do corpo e traz à tona outros aspectos que envolvem um relacionamento, tais como as diferenças culturais decorrentes da desigualdade de classes sociais. Em um dos diálogos, enquanto Emma fala de Sarte e o Existencialismo, Adèle cita Bob Marley, tentando estabelecer uma relação entre ambos. Adèle já demonstra, com isso, sua aptidão para ser professora, traduzindo o conhecimento através de sua vivência, transformando a filosofia em uma experiência musical… Como diria Caetano, e por que não?

Azul é a cor mais quente

Além dos conflitos no interior da relação, Kechiche mostra como o preconceito ainda é imenso, quando se trata de relacionamento homoafetivo. Adèle enfrenta momentos difíceis no colégio, pelo simples fato dos colegas desconfiarem de sua homossexualidade. É muito humilhada, mas, ao longo da trama, aquele espírito de grupo, pertencente aos adolescentes, vai voltando para o lugar e, de alguma forma, as relações prosseguem.

Em uma das cenas, um jantar com os pais de Emma, fica notório, novamente, as diferentes percepções de mundo entre as protagonistas, quando o pai de Emma questiona à Adèle sobre o seu futuro e ela diz que será professora, argumentando que pensa, à priori, na questão de sobrevivência, e, portanto, teria que ser prática. Além disso, queria lecionar porque sentia uma necessidade de ajudar as pessoas, de compartilhar aquilo que aprendeu, uma visão totalmente antiburguesa.

Kechiche faz essa intersecção entre os dois mundos como quem sonha com essa igualdade social, contudo sabe muito bem das pedras no meio do caminho.

Azul é a cor mais quente

Ao longo do tempo, essas diferenças foram afastando Emma e Adèle, que não resistiram à crescente cratera que se instaurava no interior do relacionamento, levando-as a traições e a inevitável separação.

Controvérsias à parte, em relação ao voyeurismo de Kechiche e seu desentendimento com a atriz Léa Seydoux (Emma), devido às excessivas repetições das cenas de sexo, não podemos deixar de ressaltar a beleza estética de tais cenas, quando o diretor nos leva a uma viagem intimista profunda. Os detalhes capturados pela câmera não têm como não mexer com todos os nossos sentidos, é como se estivéssemos ali, dentro do quarto com elas, como voyeurs também. Já era de se esperar a polêmica em torno das cenas de sexo, afinal, toda nudez será sempre castigada, já dizia o grande Nelson Rodrigues…Mas quem, secretamente, não gostaria de viver tal experiência?

O mais novo filme de Kechiche é uma viagem imperdível no azul inconfundível de um amor que explode e se perde em meio às circunstâncias, às diferenças sociais que, ao longo do tempo, terminam por configurar os pares amorosos e separar o que parecia infinito. O amor, definitivamente, é uma construção social. E, aqui, o diretor tunisiano nos mostra, de forma crua, os alicerces do amor pós-moderno, nada romântico. É a vida como ela é (novamente me remete a Nelson Rodrigues).

Azul é a cor mais quente

Bem, mas Kechiche, no lugar de um ponto final, nos deixa reticências, que nos lança ao próprio movimento da vida, à constante dinâmica das sociedades e transformações das experiências coletivas e individuais. A vida prossegue, e sempre será gerada uma dúvida como motivação para a busca: Adèle viveria, outra vez, uma relação hétero, como em sua primeira tentativa de namoro? Eis as questões para os próximos capítulos…Assim nós esperamos…ansiosos!

“Azul é a cor mais quente” é um drama erótico “daqueles”! De um tango a um Blues, o amor não obedece a nenhuma escala musical, ele constrói a sua própria partitura, conforme o espírito do tempo.

Preparem-se para altas temperaturas provocadas por esse azul tão meu… mas que, agora, eu divido com vocês!

(RaiBlue)

Raivane Sales é graduada em Letras Vernáculas, Professora de Língua Portuguesa, graduanda em Psicologia, poetisa cheia de prosa e vice -versa. Seu pseudônimo é RaiBlue e vocês podem encontrá-la em um de seus blogs pessoais.




2 respostas para “O tão quente e melancólico Azul do amor é quase um blues…”

  1. Bela descrição em tom de poesia! Lendo a resenha e os textos no blog, a vontade que dá é ler no crédito sobre a autora não “e vocês podem encontrá-la em um de seus blogs pessoais”, mas ” e vocês podem encontrá-la pessoalmente”!

    • Olá, Giordano Bruno!!!

      Fiquei imensamente feliz por ter sentido a poesia que percorre as entrelinhas do meu texto… Por mais que eu tente ser neutra, a poesia está em minha veia, não tem jeito, tanto em prosa, como em versos, ela me toma inteira!

      Estou no facebook, como RAI BLUE. Já fico mais próxima , não, rs…

      obrigadaçooo, pelo carinhoso comentário!!!

      Um abraçaçooo!!
      Rai, a Blue…hehe.

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