Azul é a Cor Mais Quente | Cabine Cultural
Críticas

Azul é a Cor Mais Quente

Azul é a cor mais quente

Azul é a cor mais quente

Azul é um filme especial, grandioso. Um filme que se preocupou tanto com os detalhes que fez de suas três horas de duração três horas de contemplação

Quando um filme se torna famoso e assunto no mundo inteiro por causa de uma cena polêmica, na maioria das vezes é certo que se trata de cena/assunto irrelevante diante de todo o universo que o filme apresenta. Foi exatamente o que aconteceu com “Azul é a Cor Mais Quente”, tradução cretina para “La Vie d’Adéle”. Dirigido por Abdellatif Kechiche, o longa levou o prêmio máximo no Festival de Cannes deste ano e chegou aos cinemas em meio a uma publicidade banal, pautada no relacionamento homossexual oferecido pela narrativa. O que parece ter ficado de fora tanto das discussões sobre o filme como das críticas (negativas e positivas) a ele é que se trata de um filme essencialmente sobre a solidão e o desajuste de uma garota como qualquer outra.

Em poucas palavras, Azul… conta a história da paixão de Adele por Emma. Ao sentir-se cada vez menos atraída pelos mocinhos da escola, Adele conhece Emma, uma artista plástica mais velha que ela, e se derrete. As duas desenvolvem um relacionamento que se demora até o primeiro beijo, e se estende por tantos enlaces e desenlaces, pautado pelo desejo e pela urgência de ser feliz. Tudo o que é importante neste filme é contado em detalhes e sutilezas, como quando Adele e Emma falam sobre filosofia na maior inocência, ou quando Adele dá aulas e se sente tão perdida quando como, anos antes, assistia aulas. Azul se concentra em um ciclo de dez anos na vida de Adele, para falar, do seu modo triste e bonito, sobre como morremos de medo da solidão.

O diretor apresenta e constrói os personagens de forma quase didática, se não fosse pela mão certeira ao executar esta escolha. Azul é um filme 80% feito de closes, câmeras na mão e sempre fechadas nos rostos dos personagens, economizando nos cortes e privilegiando o movimento, deixando-nos sem escolha a não ser conhecer bem de perto a sua protagonista. Adele comendo, Adele dormindo, Adele se masturbando, Adele chorando – tudo nos é mostrado com detalhes, quase como se pudéssemos tocar nela. Agressiva e ao mesmo tempo sutil, a estratégia de aproximação é a grande sacada deste filme, porque nos deixa sem escolha, não podemos ignorar. Tanto é assim que, ao abrir os planos, tudo o que vemos é Adele largada, sozinha, perdida.

+  Crítica Sing - Quem Canta Seus Males Espanta: nunca desista dos sonhos

O sentimento de desajuste de Adele é mostrado desde o princípio. Ainda que tenha amigas na escola e que o carinha mais gatinho esteja aos seus pés, a sensação é, como ela mesmo diz, de estar fingindo o tempo todo, como se alguma coisa faltasse. Vejo neste momento uma síntese da personagem, que se mostra vulnerável e carente no seu desajuste, e que vê na figura de Emma a sua redenção. Quando o amor se apresenta ali (e o início do relacionamento das duas é contado com calma, sem pressa, com uma porção de sutilezas), finalmente Adele acredita que é o fim da solidão.

O que é mais real e humano neste filme é a honestidade com que se constrói esse universo de Adele. Enquanto se insiste por aí em focar na história de amor entre duas mulheres, o que se sobressai nesta narrativa é a natureza do amor e da solidão. É fato que uma das vertentes mais expressivas deste amor é o sexo, não porque Adele está na fase de descobrir o sexo, mas porque o sexo só pode existir, pra ela, quando for arrebatador. Por isso a cena super longa entre as duas, por isso a infinidade de closes na boca sempre entreaberta de Adele, por isso a quantidade enorme de sequências nas quais Adele se lambuza toda ao comer (e o diretor não nos poupa de ruídos e sujeiras provocadas pelo ato de comer). Não seria exagerado inferir a clara relação que a comida e o sexo têm neste filme.

Azul é a cor mais quente

Azul é a cor mais quente

Mas como qualquer relação, a de Emma e Adele cai nas velhas armadilhas de sempre. E mais uma vez o grande tema vem à tona, a solidão, o desajuste. O que era perfeito e suficiente para Adele já não supre as suas necessidades, então ela volta ao início – está fingindo, algo está faltando. Na cena em que Adele pede o perdão de Emma de forma tão desesperada, bem como quando tenta seduzir a namorada somente através do apelo sexual, toda a sua vulnerabilidade é exposta ao espectador sem concessões, e de fato são as cenas mais tristes e impactantes. O que Azul parece mostrar é que, para uma alma solitária, não existe casamento, rotina, sexo e felicidade que a preencha, tudo sempre vai voltar pro início. O desajuste está sempre lá, e o filme pauta isso de maneira formidável – Adele está sempre fora do lugar: nos jantares com a família e os amigos de Emma, com os amigos de escola e os colegas de trabalho, menos no sexo, até que o sexo deixe de existir.

+  Crítica A Luz Entre Oceanos: Derek Cianfrance fecha uma espécie de trilogia acerca do definhar

A maior jogada do diretor é filmar a intimidade de todos esses momentos, não exatamente com as cenas de sexo, mas com os detalhes, as texturas, os beijos, os olhares. A cena em que Adele e Emma se beijam pela primeira vez é primorosa neste sentido, demorando-se em cada detalhe, pegando o espectador por sua memória afetiva e sua possibilidade de se identificar com um momento tão doce e tão bonito. Ao mesmo tempo, a solidão, o medo do abandono, o desespero por se sentir parte de alguma coisa, tudo isso é pautado no filme pelo desenvolvimento do prazer sexual, e por isso a longa cena de sexo entre as duas é tão importante, e diria até essencial. Como qualquer outra pessoa, Adele cai nas armadilhas do amor, simplesmente tentando escapar da solidão.

Apesar de o título em português ser bem ruinzinho, a cor azul é importante na narrativa, não só por representar os cabelos e olhos de Emma, mas por indicar uma espécie de click para a mudança na vida de Adele. O final do filme, ela com o vestido azul, ilustra isso muito bem, especialmente porque não é uma associação que fazemos assim de imediato – afinal, muitos anos se passaram desde que o azul tomou conta da vida de Adele, e no final Emma já não tinha mais essa cor nos cabelos.

+  Rogue One: Uma História Star Wars - A maior saga de todos os tempos

Está claro que o diretor optou por oferecer ao público uma identificação profunda com os personagens. Adele é a rainha deste filme, com seus cabelos presos no alto da cabeça, bem despojada, sempre desajustada, mas sempre querendo ser feliz. Engraçado que me lembrou a música de Tim Maia, Azul da cor do mar, um genuíno retrato da solidão.

Há muito tempo um filme não abria mão de puxar para si o tema da homossexualidade como foco. Azul não é um “filme gay”, não é um filme sobre uma história “lésbica”, simplesmente nada disso importa. A capacidade incrível que o diretor teve de construir a protagonista dentro do seu universo de solidão abriu um outro universo de possibilidades para que qualquer um se compadeça da sua eterna sensação de desajuste. Em dez anos na vida de Adele, notamos uma espécie de lei das recorrências, onde tudo faz um ciclo e volta pro mesmo lugar outra vez.

Azul é a cor mais quente

Azul é a cor mais quente

A cena final é emblemática neste sentido: vestida de azul, Adele, mais velha e mais “mulher”, porém ainda não recuperada de tanto sofrimento, vira a esquina algo soberana no seu caminhar, com seus passos rápidos e seguros, indo pra sabe deus onde. Não nos é oferecido um desfecho pra vida e pras questões levantadas pela personagem, a vida de Adele segue pra qualquer lugar que ninguém sabe, mas segue. Depois de tanto nos aproximar do personagem, de quase esfregar sua cara na nossa, a câmera para e deixa que ela vá caminhando firme. Ainda que sozinha, firme.

Azul é um filme especial, grandioso. Um filme que se preocupou tanto com os detalhes que fez de suas três horas de duração três horas de contemplação. Certamente mérito de uma direção bem pensada e bem executada, que trabalhou o tempo da narrativa de forma admirável, tanto como explorou o tema da solidão e do desajuste de forma tão honesta e sensível. Um filme incrível que te pega pelo pé e que não se deixa esquecer.

Ana Camila é jornalista cultural, assessora de comunicação, produtora cultural e mestre em Cinema pela Universidade Federal da Bahia.







6 respostas para “Azul é a Cor Mais Quente”

  1. Olá, adorei os comentários, mas queria fazer uma observação. O título do filme para a versão brasileira não foi tirado do nada, e por isso não acho que seja tão cretino ou ruinzinho assim. Ele retirado da graphic novel, Le Bleu Est une Couleur Chaude, da autora francesa Julie Maroh, que é de onde o filme foi inspirado.

    • Oi Carolina,

      Que bom que gostou do texto, méritos para Ana Camila, a autora da crítica.

      ;)

      Abraços

Deixe uma resposta