Clarice Lispector revisitada: De Corpo Inteiro | Cabine Cultural
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Clarice Lispector revisitada: De Corpo Inteiro

Clarice Lispector

Clarice Lispector

“Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.”

Por Elenilson Nascimento

Neste ano de 2013, a escritora Clarice Lispector – que nasceu na Ucrânia e mudou-se ainda criança para o Brasil, tornando-se uma das principais autoras da língua portuguesa e que escreveu muitas obras importantes, entre elas “A Paixão Segundo G.H” e a “A Hora da Estrela” – completaria 93 anos. Ela, que também foi jornalista e tradutora, ficou famosa pelo seu jeito direto de escrever e, nos seus livros, tenta desvendar os mistérios femininos do ser humano, explorando atitudes e gestos comuns do dia a dia, onde recentemente pudemos acompanhar, aos domingos, no péssimo programa para a família brasileira, o “Fantástico”, o quadro “Correio Feminino”, baseado nas colunas de aconselhamento para mulheres publicadas pela escritora em alguns jornais sob o pseudônimo de Helen Palmer, entre as décadas de 50 e 60.

Trinta e seis anos após a morte de Clarice voltei a me apaixonar e revisitar a sua obra. Nascida em 10 de dezembro de 1920 e falecida em 1977 de um câncer de ovário, um dia antes de completar 57 anos, Clarice ainda bate na cara dos puritanos e metidos a porretas. Mesmo tendo nascido na Ucrânia, sempre se considerou brasileira, pois lá nem sequer chegou a por os pés no chão, vindo com a  família – emigrantes judeus –  para o Brasil ainda no colo da mãe. História parecida com a de outra estrela, a portuguesa/brasuca Carmen Miranda.

Não creio que escrever algo a mais sobre Clarice vale mais do que relembrar algumas das suas frases de efeito:

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. “Que ninguém se engane, só se consegue a simplicidade através de muito trabalho“. “Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil”.  Ou então: E o que o ser humano mais aspira é tornar-se ser humano“. Como também: “Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito”.

E numa das idas e vindas na biblioteca, encontrei o livro “De Corpo Inteiro”, um livro de entrevistas feitas pela escritora, exercitando o seu lado jornalístico, publicado em 1975. No livro foram reunidas entrevistas que Clarice fez com as mais significativas personalidades dos mais variados universos culturais. Ando até pensando em juntar todas as entrevistas que eu também já fiz e publicar algo semelhante, mas isso é assunto para outra conversa.

“De Corpo Inteiro” é um livro despretensioso, mas interessantíssimas como peças jornalísticas de um quilate que vai interessar não apenas aos admiradores da escritora, mas também aos estudantes de jornalismo, pois Clarice, como o seu jeito despretensioso e profundo, mostra que a arte de entrevistar é também a arte de ouvir.

Se quase toda a ficção clariceana se concentra nas regiões mais profundas do inconsciente feminino, ficando em segundo plano o meio externo e os problemas mundanos, em “De Corpo Inteiro”, a escritora tem como principal objetivo mostrar ainda mais o seu lado intimista em entrevistas que desnudam os entrevistados. O ser, o estar no mundo, o intimismo formam o eixo principal de questionamentos tecidos em suas perguntas introspectivas, como na entrevista com o baiano Jorge Amado em que a escritora pergunta se é verdade que ninguém passa por Salvador sem querer conversar com o pai de Gabriela, ou quando o coloca contra a parede e pergunta qual é o escritor que ele mais admira…

Clarice Lispector

Clarice Lispector

Na entrevista com o Vinícius de Morais, usando um artifício largamente utilizado por James Joyce, Proust e, sobretudo, Virgínia Woolf [*indico também a leitura de todos os livros da escritora inglesa], o fluxo da consciência marca indelevelmente os questionamentos de Clarice sobre amor, sexo, literatura, sedução, música e até sobre negatividade. Numa das perguntas ela enfatiza: “O que é poesia pra você?” E Vinicius responde que não sabe e vai além: “Eu só sei criar na dor e na tristeza, mesmo que as coisas que resultem sejam alegres. Não me considero uma pessoa negativa, quer dizer, eu não deprimo o ser humano”.

Com Érico Veríssimo, ela explora uma temática mais psicológica de modo tão profundo que o assunto nunca é completamente explorado, ou seja, as diversas possibilidades de análise psicológicas e a complexividade das personagens do escritor vem à tona em perguntas do tipo:

“Por que você acha que não agrada aos críticos e intelectuais?”, “Se sente realizado como escritor?”. E mais impertinente: “E como homem?”. Enquanto Veríssimo, delicadíssimo, tenta responder tudo constrangidíssimo!

E a temática inquieta de “De Corpo Inteiro” contribuem para a inesgotabilidade de perguntas feitas a Pablo Neruda; ao ainda jovem Fernando Sabino; ao Hélio Pelegrino (que demonstrou ser um admirador da obra de Kafka); a um Chico Buarque meio anestesiado; um fluxo da consciência indefinida nas fronteiras entre a voz da entrevistadora e a das personagens da atriz Tônia Carrero; as reminiscências de Oscar Niemeyer; os desejos, falas e ações se misturando na entrevista com Bibi Ferreira: “Se me pedissem um quadro da solidão, eu escolheria a fotografia de um teatro vazio”; além de um jorro desarticulado articuladamente com Tarcísio Meira; a descontinuidade do que tem essa desordem representada por uma estrutura sintática caótica da MPB nos questionamentos a Tom Jobim; além da emocionante entrevista com os atores Jardel Filho, Paulo Autran, o bailarino Isaac  Karabshewshy, o médico Ivo Pitanguy, o carnavalesco Clóvis Bornay, e outros.

Assim, o pensamento simplesmente fluiu livremente, pois as perguntas no meio da espontaneidade da representação do pensamento de Clarice caracterizaram o caos organizado dentro das entrevistas. Gostei muito também da entrevista com a Nélida Piñon, onde Clarice manifesta a sua admiração pela colega e diz se considerar amadora. “Nos atuais quadros brasileiros, vanguarda para mim é a permanente crítica ao sistema social e lingüístico, que aprisiona o homem a um código bem pensante, e o levou à inconsciência e á automatização”, disse Piñon.

Muitos críticos, até hoje, afirmam que Clarice é a pioneira no emprego da epifania na prosa brasileira, mas o que dizer então dessas entrevistas? Assim, pode-se dizer que nas suas perguntas, o objetivo maior também foi o momento da epifania: por meio de uma espécie de revelação, causando um desequilíbrio interior que, por sua vez, provocou as respostas mais sinceras dos seus entrevistados. Enfim, podando os excessos e desconsiderando os modismos, Clarice ainda figura entre os melhores escritores da Literatura Brasileira. (“DE CORPO INTEIRO”, de Clarice Lispector, entrevistas, 4ª edição, 232 págs, Editora Siciliano – 1975)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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