A Difícil Arte de Ser Michael Jackson | Cabine Cultural
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A Difícil Arte de Ser Michael Jackson

Michael Jackson

Dia desses me surpreendi por não mais encontrá-lo. Na verdade no lugar na calçada onde fazia suas apresentações havia um carro estacionado

Um dia da semana comum, quase duas horas da tarde. O sol escaldante faz com que muitos transeuntes esgueirem-se em resquícios de sombra das marquises e compõe com o ir e vir intenso das pessoas com pressa uma cena comum de qualquer metrópole moderna. De tão vista torna-se invisível. No entanto uma figura me chama a atenção em meio ao ir e vir na calçada. Ele está todo vestido de preto, exceto as luvas e alguns detalhes da roupa, usa um indefectível óculos escuro e um chapéu que segura na cabeça ao mesmo tempo em que dança. Sim é ele. As batidas da música, os trejeitos robóticos, o deslizar na calçada.

E Michael Jackson revive na performance de um anônimo cover. Pouca gente presta atenção ao seu show. Mas ele parece não se importar muito com isso pois com a disciplina de um boneco de fantoche regido por linhas imaginárias se move sem aparentemente considerar a aridez e a hostilidade da temperatura. Quase como um brinquedo que se desloca automaticamente após ser dada corda, lá está Michael Jackson, concentrado em seus movimentos, incansável, e apesar do sol, com seu brilho próprio.

Nos dias seguintes continuei a vê-lo em frente à mesma loja. Fazer aqueles passos da lua, o moonwalk, em uma calçada esburacada, não é para qualquer Michael Jackson. E, além disso, após escapar dos buracos tinha que driblar o lixo espalhado pela educação dos passantes. Sem dúvida admirável a destreza e a habilidade daquele grande músico e dançarino. Mesmo com a fria indiferença da maioria comprovei o seu sucesso por causa de dois momentos especiais que testemunhei.

Um dia, enquanto dançava, uma criança que passava por perto, forçou a mãe a parar de puxá-lo, soltou-se e começou a imitar Michael Jackson como uma sombra mirim. Outra tarde um bêbado, após abraçar o artista, pôs-se também a tentar imitá-lo, mas a embriaguês fez com que seus passos ao invés de serem da lua, tivessem quase atravessado a galáxia. Em ambas as situações ele reagiu com sorriso e simpatia e deixou claro para mim que tocar no coração da criança e do bêbado é um mérito para quem tem mesmo talento.

Dia desses me surpreendi por não mais encontrá-lo. Na verdade no lugar na calçada onde fazia suas apresentações havia um carro estacionado. Desse jeito fica difícil ser Michael Jackson.

Josival Nunes é escritor, cineasta e colaborador do Cabine Cultural.


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