Amor à Vida e o beijo gay: novela medíocre com final medonho | Cabine Cultural
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Amor à Vida: novela medíocre com final medonho

Amor à Vida – Foto – Divulgação

“Walcyr Carrasco deve ter salgado a santa ceia para decepcionar numa novela tão clichê.”

Por Elenilson Nascimento

Vou ser breve: não tenho mais paciência e nem energia para acompanhar novelas, mas ainda adoro as mais antigas. E, agora, estou redescobrindo pérolas dos anos 70/80. Mas, me faça uma garapa para essa gororoba que foi “Amor à Morte”. O último capítulo foi a mais pura falta de criatividade de um diretor medíocre e clichê, mesmo registrando altos índices e tendo  garantido ótima audiência para a Globo, por causa da expectativa do tal beijo gay – que mais pareceu um tapinha nas costas comparado às cenas de sangue, traições e mortes no decorrer dessa novelinha mexicana.

Quem realmente achou que uma emissora tão preconceituosa, demagoga e medíocre como a Globo está preocupada com causas sociais, sexuais ou qualquer outra coisa, deve realmente continuar assistindo à sua programação para deficientes mentais. Essa novela brega e desconexa parecia mais trabalho de fim de semestre de alunos de faculdades de esquinas. Enredo péssimo, personagens péssimos e, por fim, argumentos péssimos.

Quanto ao beijo gay que tanto foi questionado e cobrado, mas pareceu um “cala boca” para  acalmar as massas do que uma troca simples de carinho.  Prefiro concordar com um comentário de Luciano Rundrox sobre esse assunto que já encheu meu saco: “Acho que um beijo gay se faz totalmente desnecessário enquanto houver essa necessidade de imposição. O que vai adiantar ter um beijo gay numa novela?

Por mais que eu tente, não consigo ver um pingo de ganho com isso quando o beijo é colocado como um acontecimento de parar o país. Se tiver de ser, deveria ser por naturalidade. O beijo é naturalidade, seja gay ou hétero. Usar o beijo como arma (e isso vale também para os beijaços de protestos) não acho de serventia nenhuma. Eu tenho a sensação que parecem que estão pedindo permissão pra expressar seu carinho.

Beijo Gay na Novela Amor à vida

O beijo realmente tem tanta importância depois de ter sido discutido coisas tão mais significativas? Maria Adelaide Amaral já botou dois caras, olho no olho, em plena novela das 7, dizendo que se amavam e que se queriam. Já foi discutida homofobia, igualdade e tantas outras coisas. Não sou contra o beijo gay, seria hipocrisia demais se eu fosse. Sou contra ao beijo imposto, forçado, resguardado de causar que muitas vezes se perdem em seus protestos.”

Em suma, “Amor à Morte” elevou em apenas um ponto a baixa audiência deixada pela igualmente medíocre “Salve Jorge” – vale salientar a duração distinta das duas –, mas ao comparar conteúdo e qualidade, as duas tramas se equivaleram.  Mas o que esperar de uma novela que tem personagens desinteressantes num enredo medonho? Alguém pode até me criticar por causa das minhas colocações, pois é apenas uma obra de ficção. Tudo bem. Mas, quando se propõe a ser “realista”, mostrando a realidade do seu povo, espera-se um pouco de verossimilhança dela. E não é o que aconteceu em “Amor à Morte” – ao menos, do ponto de vista do Direito. Posso escrever isso aqui, pois ando lendo um pouco sobre o assunto por causa da minha pendenga judicial com o deus Google.

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Acho que a novela do Carrasco teve uma série de erros jurídicos levados ao ar ao longo dos capítulos do folhetim. Entre uma das inúmeras falhas, destaco a sequência em que o advogado vai preso por beijar a namorada autista. Mesmo com o consentimento da garota, o rapaz foi detido por sedução de incapaz. Será que isso mesmo é valido? Outro caso que achei estranho foi a condenação do chato Atílio por bigamia, por se casar com a ex-chacrete maluca (Elizabeth Savalla) mesmo já sendo marido de uma outra, apesar de ter perdido a memória em um acidente de carro.

No entanto, o que mais foge da realidade é o fato de Félix (excelente interpretação do Mateus Solano) ser tratado como alguém que abandonou um incapaz, por ter deixado a então recém-nascida sobrinha em uma caçamba de lixo em plena madrugada. Eu acho que qualquer juiz do mundo, em sua santa consciência, vai ter a plena noção de que, quando um cara pega um bebê recém-nascido e o abandona no meio da madrugada, no frio, dentro de uma caçamba de lixo, não é abandono de incapaz, e sim tentativa de homicídio qualificada.  Mas o que aconteceu com a bicha malvada que virou santa? Nada! Por tanto, depois dessa experiência tenebrosa de mais uma novela para boiada sem cérebros, prefiro continuar na leitura dos meus livros ou caçando novelas antigas com atores de verdade!

Félix em Amor à Vida

E só para colocar um ponto final nessa história do tal beijo gay “fraco” na Globo:  acho que o que deveria causar reboliço é a falta de vergonha na cara desses políticos safados… É o PT abrir sites para arrecadar dinheiro para tirar os seus “companheiros” da cadeia e, por mais que seja uma coisa surreal, o povo otário ainda depositar.  Acho que os brasileiros deveriam se mobilizar com a roubalheira com esses projetos para a Copa; com o Pelé falando merdas; com a Dilma pagando conta de hotel e restaurante caro com o nosso dinheiro, além de financiar certas obras em nações estrangeiras e ouvir o discurso que com isso está gerando emprego e renda no Brasil.

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Acabei de ser criticado numa rádio local, num desses programas espirra sangue, nessa terra do acarajé com cocô, porque disse na entrevista que as pessoas deveriam deixar de se preocupar tanto com o cu dos outros. O amor é lindo em todas as formas… O que é feio, vergonhoso é a fome, a falta de educação, falta de saúde, a censura na internet nesse país de merda!

Tanta coisa acontecendo neste Brasil: crime organizado na política, caos familiar, inversão total de valores, presidANTA gastando 26 mil para dormir num hotel com nosso dinheiro, a vida cada vez tendo menos valor, tragédias celebradas e ensinadas em horário nobre e inclusive na própria novela… e um beijo entre dois caras, um selinho sem língua, que eu poderia dar em meu irmão, num amigo, naquele advogado, naquele dentista, sei lá mais quem, causa todo este rebuliço! Aquilo ali foi apenas uma mínima contribuição ao que se vive hoje no real – não o Brasil criado nesses folhetins cheios de gente desonesta.

Amor à Vida Globo

Não parabenizo o autor, que achei um trabalho medíocre, mas que fez apenas aquilo que ele achou que deveria ter sido ser feito numa novela questionável, apelativamente e perigosa na cabeça de tanta gente ignorante. O beijo é um marco sim, é gostoso sim, é um símbolo de equalização de tanto preconceito com o que existe debaixo de nossos olfatos – além de ser um símbolo de resistência. Palmas para a cena, apesar de que eu não vi língua nenhuma, mas abacaxi para a trama controversa.

E em época de beijo gay na TV, o beijo entre Burt Lancaster e Deborah Kerr em ”A um passo da eternidade” (”From here to eternity”, 1953), causou tanto furor que a cena foi cortada em alguns estados mais conservadores dos Estados Unidos. Quando lançado em Salvador, segundo meu amigo crítico de cinema André Setaro, algumas madames saíram convulsionadas e pedindo perdão a Deus pelos seus pecados.

Agora que fique claro – sou responsável pelo que escrevo e não pelo que alguns interpretam erroneamente. Acho que fui bem claro e imparcial. Vamos seguindo nesta hipocrisia midiática que no último instante dá a balinha de consolo. E para todas as classes movidas pelo amor: lutem, lutem e jamais se contentem com migalhas. E se isso não bastar? Procurem apoio jurídico! Sem mais.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.




3 respostas para “Amor à Vida: novela medíocre com final medonho”

  1. Novela no Brasil, sinonimo de retrocesso, essa então, foi demais!! já faz tempo que desisti de perder meu tempo com esta distração, que só nos embrutece e enche nosso lar de situações ridiculas e sem senso de moral.Adorei o texto, bem escrito.

  2. concordo plenamente contigo, isso, nos aspecto legal da caracterização à prática de FELIZ (PERSONAGEM DE MATEUS SOLANO), MAS, COMO FICÇÃO, HOUVE CARACTERÍSTICAS INTERESSANTES A QUE FORAM, SIM, ENALTECIDAS, COMO POR EXEMPLO, A AUSÊNCIA DE GESTOS EMOTIVOS POR PARTE DE FELIZ, COMO ABRAÇO, TOQUES E OUTROS ENTRE SEUS FAMILIARES, UMA PROVA CLARA DOS FERIMENTOS DA RELAÇÃO DELE COM O PAI; A QUE , TAMBÉM, AGRAVOU SUA RELAÇÃO COM A IRMÃ, O APELO MIDIATICO, EM ESPECIAL, PELA ACEITAÇÃO DA PERSONAGEM COMO UM ICONE DO HUMOR COM REQUINTES DE DEBOCHE, MAS, COMO VOCÊ, TAMBÉM ACHO GRAVISSIMO A APRESENTAÇÃO DO BEIJO GAY.. QUASE QUE FINDALIZANDO A NOVELA, OU SEJA, NÃO APENAS UM APELO, MAS, O BARGANHA ENTRE ACEITAÇÃO DA PERSONAGEM À TENTATIVA DE ESCAMOTEAR VALORES A QUE ESTÃO TOTALMENTE DISTORCIDOS.
    NÃO CONCORDO COM ISSO, APESAR DE AMAR A PERSONAGEM, O ATOR BRILHANTE QUE O FEZ…
    CREIO QUE ELE NÃO DEVERIA TER DADO TANTA CONCRETUDE A RELAÇÃO HOMOSSEXUAL, JÁ HAVIAMOS, DIGO-LHES, O PUBLICO JÁ HAVIA ACEITO FELIZ, SUA NOVA VERSÃO À BONDADE , ENFIM, MAS, NÃO SE PODE ESTIMULAR …
    ODIEI…
    NAO CONSIGO NEM ME EXPRESSAR QUANTO AO QUE PENSEI.

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