Celebration: Prêmio Braskem de Teatro 2014
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Celebration: Prêmio Braskem de Teatro 2014

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Luiza Prosérpio e Amaurih Oliveira

Um dos muitos jovens talentos, Luiza Prosérpio e Amaurih Oliveira, indicados a um dos poucos prêmios de incentivo à cultura na Bahia.

Por Elenilson Nascimento

Quando se fala em prêmios culturais, a exemplo do jornalista e escritor americano H. L. Mencken, aquele da frase: “Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos”, de quem sou admirador confesso, não costumo pegar leve com quase ninguém. Mesmo porque ninguém pega leve comigo. E as minhas exceções contam-se nos dedos das mãos. Na Bahia, por exemplo, premiações e editais sempre são cheios de gente “bonita, chique, fina, criativa, bem-sucedida e integrantes das panelinhas”.

O resto da humanidade, principalmente artistas independentes, medíocres, alpinistas sociais e celebridades momentâneas, aqueles que não conseguem ser indicados nem para apresentação de bingo em quermesse são classificados como “jecas, feios e fracassados” – e nesses grupos eu também me incluo –, e a eles destinam-se cobras e lagartos de todos os gêneros.

Para sobreviver na vida cultural da província chamada Bahia, cheia de deslumbrados e bajuladores de jornalistas classe Z da Rede Bahia, quanto mais peçonhentas as nossas tiradas irônicas, melhores são os guardas-chuva à prova de cuspe, como na minha frase predileta: “Cecília Meireles é uma poetisa à prova de Fagner”. Para quem não entendeu a piada do caso do famoso cantor cearense que em “Canteiros” (1973) musicara o poema “Marcha” sem o devido crédito da parceria à poetisa carioca, depois retificado na Justiça; posteriormente, reincidiu no erro de musicar outros poemas dela, como “Epigrama nº 9” e “Motivo”, agora com os devidos créditos, mas de resultado final no mínimo duvidoso e, no máximo, desastroso. Mas “Fanatismo”, da portuguesa Florbela Espanca, ficou demais!

É fato entender-se que todos, um dia, iniciamos uma carreira, sem muita informação, qualidade e conhecimento profundo do ofício. Mesmo que alguns acreditem que já nasceram talentosos e sabendo de tudo. O diferencial é a constância na escolha, a perseverança, o estudo, o cuidado e a ética. E, por causa disso, talvez prêmios sejam mesmo incentivos nas carreiras de artistas. Ou não. Pois, o absurdo é colocar-se como “superior” depois da conquista de um prêmio, mesmo que este não pague contas.

Marca da edição de 2013 do Prêmio Braskem de Teatro

Prêmio Braskem de Teatro, por exemplo, é um projeto cultural patrocinado pela Braskem S.A. e que, na teoria, consiste na premiação anual das “melhores” produções do teatro baiano. Mas quais são os critérios para as escolhas dos indicados? O público é consultado? Não! Os próprios profissionais do meio artístico são consultados? Duvido muito! Mesmo assim, o prêmio foi criado com o objetivo de valorizar, reconhecer e premiar artistas baianos, abrindo espaço para o surgimento de novos talentos. Ou não!

Para o elengantérrimo autor baiano e dono de um Prêmio Jabuti 2013 com “Namíbia, Não!” – seu livro de estreia que conquistou espaço e foi eleito livro do ano – Aldri Anunciação a premiação do Braskem é válida:

“O Prêmio Braskem é um dos estímulos (dentre outros) mais significativos para quem faz teatro em Salvador. Interessante como ele quase sempre premia artistas veteranos e novatos, colocando-os no mesmo palco na noite da premiação. Gosto dessa aproximação (entre os artistas) que o Prêmio Braskem proporciona”, disse.

Mas depois de eu ter acompanhado, no ano passado, a falta de visão e critérios dessa comissão julgadora que se diz especializada na área cultural (*compostas por membros que dizem assistir a todos os espetáculos apresentados em Salvador), com a injustiça que foi feita com a excelente peça “Amor Barato”, com direção Fábio Espírito Santo, que levou apenas um prêmio de consolação para calar a boca dos hereges, como eu, não acredito mais nessas festas de purpurinas para troca de elogios entre os amiguinhos das panelinhas.

E, recentemente foi divulgada a lista dos indicados ao Prêmio Braskem de Teatro 2013. Para essa premiação, que chega a sua 21ª edição, foram avaliados espetáculos baianos considerados “profissionais” e “inéditos”, que estiveram em cartaz no período de 1º de maio a 31 de dezembro de 2013 em Salvador. Os vencedores, entretanto, só serão conhecidos durante cerimônia de premiação na sala principal do TCA (Teatro Castro Alves) no dia 23 de abril. Além do troféu, os vencedores das categorias Espetáculo Adulto e Espetáculo Infanto-Juvenil receberão um prêmio no valor bruto de R$ 30 mil, enquanto os demais serão contemplados com um prêmio no valor bruto de R$ 5 mil cada.

Amaurih na peça Éramos gays

E para a minha grata e incrédula surpresa, dois dos meus amigos e também excelentes atores foram indicados nesse ano. O primeiro é o já famosão-global, aquele que “pegou” a Patrícia Pillar em cena quentíssima na minissérie “Amores Roubados” e ainda a deixou louca – lembram?

Não estou falando de Cauã Reymond, mas de Amaurih Oliveira, talento da cidade de Ilhéus, terra de Gabriela, revelado pelo Teatro Popular de Ilhéus, e que há alguns anos atua nos palcos de Salvador, fazendo aparições em produções globais, publicidade para o assistencialista governo petista e atuando em filmes nacionais. Amaurih foi indicado por sua atuação na excelente peça “Éramos Gays”, com texto de Aninha Franco (*que não mandou nenhum depoimento para essa matéria) e direção de Adrian Steinway.

“Eu acredito na importância do Prêmio Braskem. Em São Paulo e no Rio de Janeiro, por exemplo, existem três ou quatros prêmios para reconhecerem alguns dos melhores espetáculos, atores e atrizes do ano. Aqui na Bahia, nós deveríamos ter uns três prêmios no mínimo. Existe uma comissão que julga e que faz esse levantamento dos espetáculos existentes na nossa cidade. O Braskem é um prêmio que, a meu ver, se faz necessário”, disse Amaurih, sem nenhuma modéstia.

 “Éramos Gays” fala sobre um jovem gay que promete a São Sebastião tornar-se heterossexual para se salvar de um desastre aéreo. Então, um grupo animado de amigos cuja missão divina é tirá-lo do armário tentar persuadi-lo justamente do contrário. O espetáculo que já faturou o Prêmio Cidadania em Respeito à Diversidade, conferido pela Secretaria do Estado de Cultura de São Paulo e pela APOGLBT (Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo), agora, enfim, também vai concorrer no Prêmio Braskem como Melhor Espetáculo Adulto; Gerônimo Santana, pela direção musical, e Amaurih Oliveira como Ator Revelação.

Luisa Proserpio em Coleção Invisível

A outra também indicada foi a linda atriz Luisa Prosérpio. Soteropolitana, iniciou sua carreira como atriz no ano de 2002, quando integrou o elenco da peça “O Beijo no Asfalto”, um dos espetáculos premiados no Prêmio Braskem de Teatro 2004, resultado do XVIII Curso Livre de Teatro da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Já atuou também nos seguintes espetáculos teatrais: o musical “Papagaio”, direção de Felipe de Assis e com músicas de Chico César; “Olho D’Água”, direção de Andrea Elia (2010); entre outros.

Fiquei muito encantado com a sua atuação na já citada “Amor Barato”, mas o público gostou mesmo foi de “Stopem, Stopem”, com direção de Lázaro Ramos (2009). No cinema, Luisa já trabalhou nos “Quincas Berro D’Água”, de Sérgio Machado; “Coleção Invisível”, de Bernard Attal; “Trampolim do Forte”, de João Rodrigo; “Estranhos”, de Paulo Alcântara; “Revoada”, de Zé Umberto, e nos curtas “Isto é Bom”, de Joel de Almeida; “Doido Lelé”, de Ceci Alves (*essa figura foi minha colega no ginásio) e “Premonição”, de Pedro Abib.

Me encantei mesmo com a Luisa na sua performance na excelente Banda Limusine, onde ela canta músicas bregas dos anos 70/80 desde 2010, liderada pelos atores Diogo Lopes Filho e Evelin Buchegger.  Em 2008, Luisa foi indicada, pela primeira vez, ao Prêmio Braskem de Teatro na categoria de Melhor Atriz, ao protagonizar o espetáculo “Salomé”, recebendo a mesma indicação no Festival Ipitanga de Teatro em 2009. Em 2010, foi premiada na categoria de Melhor Atriz no Festival de Jericoacoara Cinema Digital ao atuar no curta “300 Dias”, dirigido por Felipe Wenceslau.

Sobre a sua indicação ao Prêmio Braskem desse ano, a atriz disse:

“Acredito que o Prêmio Braskem de Teatro seja uma importante tentativa de legitimar como valorosas as produções teatrais de Salvador. Mesmo com a polêmica em definir o que tem e o que não tem mérito artístico. A premiação do Braskem continua sendo fonte de reconhecimentos e estímulos aos profissionais indicados. Isso já senti por duas vezes em que fui indicada na categoria de Melhor Atriz, em 2013, por “Três Versões da Vida”, com direção de Ewald Hackler, e em 2008, ao protagonizar a peça “Salomé”, com direção Amanda Maia”, disse Luisa.

Amaurih em minisseéie com Patricia Pillar

E mesmo que hoje se queria ser tudo e ser nada, onde muitos artistas buscam desesperadamente a glorificação pessoal, que chega até ao constrangimento de se deixar fotografar na Ilhas de Caras e/ou bajular jornalistas medíocres nos igualmente medíocres jornais vendedores de ócio por 0,75, muitos jovens atores, ao contrario dessa imensa massa de manobra, têm justamente a mentalidade oposta a essa celebração do lugar comum. O exercício dos direitos culturais é lei, e valoriza o Brasil, mas o improvisado travestido de arte desabona.

Para Luisa Prosérpio, por exemplo, um prêmio como esse gera curiosidade no seu trabalho:

 “Diferente da maioria das profissões nas quais investimentos e esforços resultam em uma natural progressão de carreira, o trabalho do ator parece estar sempre ‘começando do zero’. Por um lado é bom, pois somos obrigados a não nos acomodar, mas por outro lado gera desânimo. Creio que o prêmio nos proporciona uma oportunidade de retomarmos o fôlego e continuar humildemente a labuta.

A presença do público é talvez o maior dos estímulos, legitimação direta do nosso trabalho, apesar, que, em muitos casos, bons espetáculos não conseguem ter salas lotadas. No entanto, vejo também como necessária a legitimação formal do Prêmio, como uma ferramenta de estímulo/reconhecimento aos artistas, de vitrine para novos talentos, de publicidade para novas temporadas e como uma espécie de ‘selo de reconhecimento’ para comissões de editais e festivais de teatro dentro e fora da Bahia”, concluiu a orgulhosa, no bom sentido, Luisa, toda sorridente.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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