Crítica de Philomena: humor britânico numa história relevante
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Crítica de Philomena: humor britânico numa história relevante

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Bernardo Bertolucci

Bernardo Bertolucci

O cinema britânico, um pouco diferente do cinema hollywoodiano, possui um estilo bastante sutil e ao mesmo tempo sarcástico de se contar uma história, independente de qual gênero ela venha pertencer. Ao assistir Philomena, novo projeto do cineasta Stephen Freas, o espectador certamente notará esta distinção. O filme, um drama baseado numa premissa triste (e verdadeira), volta e meia tira uma genuína risada de nossas faces, fazendo-nos a todo o momento equilibrar as emoções; tristeza e alegria se revezam ao longo da trama.

Logo no início da história, vemos Philomena Lee (Judi Dench, indicada ao Oscar de melhor atriz), no ano de 1952, ainda uma adolescente, que havia engravidado após uma pequena e ingênua aventura amorosa. A gravidez, tomando o contexto da garota (família católica e irlandesa) a tornou uma mulher, aos olhos da família, indigna. Por isso Philomena foi enviada para o convento de Roscrea, onde deu à luz ao seu bebê, um menino chamado Anthony.

Com quatro anos de idade, no entanto, Anthony foi separado de sua mãe e vendido para um casal norte-americano. Por 50 anos Philomena ficou em silêncio, até que em uma noite sua filha conheceu o jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan, um dos produtores e corroteirista do filme) e a partir daí é construída uma relação bem peculiar de parceria, onde Philomena dará a Martin uma grandiosa história jornalística e Martin proporcionará a Philomena saber o que aconteceu com seu filho perdido.

O filme tem ares de Road movie; vemos a relação de Martin com Philomena ser toda desenvolvida à medida que os dois viajam juntos, seja através do carro, seja por avião. E se encontra justamente neste processo de construção da relação entre eles o grande trunfo da narrativa. Judi Dench e Steve Coogan acabam formando uma das duplas mais interessantes desta nova safra de filmes e se houvesse a categoria melhor dupla no Oscar, certamente eles sairiam favoritos.

Philomena - Divulgação

Philomena – Divulgação

E a grande sacada no roteiro, que provavelmente seja consequência da verdadeira história, é grande diferença de personalidade que os dois carregam: Martin é um cético, sarcástico, irônico, o típico britânico com seu humor sempre ácido e provocador. Philomena é o oposto, uma figura religiosa, que mesmo tendo motivos para questionar a igreja, não larga em momento algum sua crença; é ingênua, no sentido mais belo da palavra, pois ao mesmo tempo em que aparenta inocência, ela possui uma capacidade enorme de compreensão de mundo, e sua reação ao saber que o procurado filho era homossexual é um grande exemplo desta característica de personalidade que só engrandece a personagem.

Stephen Freas consegue realizar um típico filme britânico, com ares universais, evidente. A fotografia, sempre indo de encontro com a atmosfera daquela região, os diálogos, não somente o sotaque, mas as frases propriamente são sempre do senso comum britânico e os personagens (sobretudo Martin), são a mais pura representação do que seria um típico inglês. Em tudo isso Stephen consegue construir uma identidade para o filme e isso acaba sendo um dos pontos positivos da narrativa.

Mas o grande elemento do projeto realmente é sua premissa, sua história, que de tão real, foi, e continua sendo, assunto para reuniões políticas e religiosas mundo afora. A verdadeira Philomena, inclusive, pouco antes de o filme estrear, conseguiu agendar uma visita ao Papa Francisco e provavelmente o tema da conversa tenha sido a venda de crianças por parte de instituições católicas ao longo das últimas décadas.

Philomena aqui é uma guerreira, um pouco distinta das demais, sua força reside numa fé que não se abala mesmo possuindo motivos para questionar sua base. A personagem é genuinamente doce, tem uma compaixão pelo próximo que é digna de um Prêmio Nobel, mas ainda assim possui força interior suficiente para largar as coisas e fazer de um tudo para saber o que realmente aconteceu com seu filho entregue 50 anos atrás. A resposta encontrada é um misto de tristeza e felicidade e essa junção de sentimentos elevam ainda mais o trabalho feito por Judi Dench.

Philomena se mostra assim um relevante documento histórico, daqueles que tem uma função social que se assemelha ao seu trabalho narrativo, de somente contar uma boa história cinematográfica. Judi Dench, ainda que já uma senhora, uma linda senhora, por sinal, está no seu auge técnico e criativo, sua atuação no filme é uma prova cabal disto. E Stephen Freas mais uma vez consegue contar uma história até certo ponto simples, mas com nuances que a elevam para um nível acima da média.


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