Literatura: o deslumbrante Fotocontínuo
Literatura

O deslumbrante Fotocontínuo

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Fotocontínuo

“Espreitar pelo furo. Passos que circundam. Velório perpétuo.” (B.G.B.N.)

Por Elenilson Nascimento

Pensar na poesia brasileira, hoje, mais do que nunca, é ver a desvalorização do poeta, das letras, dos versos, da introspecção, da inteligência, que virou uma farinha, desvalorizado até no contexto acadêmico, ou seja, ninguém conhece um autor brasileiro vivo, nos meios culturais, nos saraus e até nas próprias editoras. E na internet todo o poeta é igual areia, num universo que precisa de encantamento, de elegância, de revoltas, de amores loucos, de gozo e beijos. Não há programa multimídia pra isto. Há público em desorientação, necessitando da boa poesia.

“Era um cheiro e pronto. Um olhar e pronto. Um arfar e pronto. Um deitar-se e pronto”, escreveu o poeta-doutor-professor Bernardo G. B. Nogueira no seu recém-lançado “FOTOcontínuo”, em parceria com o artista visual Rafael Carrieri, como se estivesse sangrando demais, tendo chorado como um cachorro, pois, hoje, poetas são cachorros sim! E Bernardo, elegantemente, surra “Enquanto procura não acha. Espreita, e nada”.

Mineiro de Conselheiro Lafaiete, Bernardo também é autor de “Ecos do Trágico – Sobre a Tragédia Grega e Origem dos Direitos Humanos” e”Dois Olhares Sobre Florbela Espanca”, além de ter publicado crônicas e poemas em várias antologias, como a “Antologia de Poetas Brasileiros Contemporâneos”, organizada por Elenilson Nascimento, e também colunista do Jornal Correio da Cidade e editor do Jornal Cultural Plural.

Em “FOTOcontínuo” o poeta se expõe mais, parece querer gritar que está solto no mundo, nômade, um móvel que não pára de se deslocar. “Antes que perguntem/pergunto…”, informou logo no início do livro. Mas os sentimentos nem um pouco mudos, tão bem descritos em seus versos, com o sol na cabeça, e muita crítica também (“Do quer rir? Comédia é chato”), transborda por todo livro mandando saudações. “O ‘FOTOcontinuo’ é um livro muito especial. Além de dialogar as artes poéticas e fotográficas, ele é a moldura da minha amizade com o Rafael Carrieri, além de dizer muito das misturas que cercam hoje”, descreveu o autor.

Fotocontínuo

Assim como no poema “Eu, etiqueta” de Drummond, Bernardo também aborda as necessidades que as pessoas têm da própria imagem, consequentes certamente da busca pela satisfação pessoal obtida perante e pelo olhar dos outros. “De cada lado tinha uma cor. Com um sentimento cada. Despida de todas as outras. Cada uma dividida da outra face que de costas era outra. Cada uma, duas quando se virava. Ninguém se mexia” – e nesses versos, especificamente, fazem com que transpareçam ao leitor essa “moda” não somente como um produto apenas, mas como a promessa da satisfação de uma necessidade que para algumas pessoas é praticamente vital.

E como nessa atual sociedade do consumo, o ser industrial, globalizado, acomodado, pessimista e rancoroso se tornou o homem anuncio itinerante, movido pelos apelos emocionais da propaganda modelizante que modela o comportamento das pessoas e que aos poucos acabam perdendo a própria identidade, Bernardo é de uma suavidade dilacerante. “Locais estreitos. Fobia. Passagens de um só. Solidão Morada para dois. A saída. No corredor se esbarram. Atrito. Gritos. Mania de gente. Sozinha ou não.”

Bernardo deixa claro que o ter substituiu o ser em várias áreas do pensamento moderno, nessa pós-modernidade de ribanceira, onde este que aos poucos se tornou extremamente industrial, “que se oferece como signo de outros”, nada mais é do que o doce azedo estar na moda, ainda que a moda seja negar a nossa própria identidade. E as imagens de Rafael Carrieri traduzem bem o sentimento do poeta, como se estivessem de mãos dadas, atadas, entrando em concordância potencial ao afirmarem que a vivencia do cidadão atual está repleta de vontades e anseios industriais, entretanto permanece carente de desejos sobretudo pessoais, como se mantinha outrora. Enfim uma lástima.

Bernardo Nogueira com Rafael Carrieri, no Café com Letras, Belo Horizonte, na noite de autógrafos.

“Estamos imersos em tudo, e junto disso levemente desprendidos de quaisquer amarras. Esses extremos que compõe a vida hoje estão ali. Escrevi os poemas todos em uma única noite e quando acabei, imaginei estar pronto um epitáfio padrão. Esse livro é exatamente sobre a certeza que dura um segundo e a tragédia que é o existir, seja em foto ou poesia. Restou depois do ‘FOTOcontínuo’ cheiro de flores e de cidade dento dos meus olhos. É um livro que tem cheiros…”, disse o corajoso e insolente poeta.  (“FOTOCONTÍNUO”, de Bernardo G. B. Nogueira e Rafael Carrieri, poesia, 1ª edição, 112  págs – 2013)

Fotos: Rafael Carrieri/divulgação

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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