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Crítica de Uma Aventura Lego 3D: o Cidadão Kane das animações

Uma Aventura Lego

Uma Aventura Lego

Por Luis Hashimoto

Em um início de ano com tantas produções estreando pelo Brasil, ficou difícil encontrar um espaço na agenda para Uma Aventura Lego. Os indicados ao Oscar lotaram as salas de cinema desde os primeiros dias de Janeiro: Blue Jasmine, O Lobo de Wall Street, Trapaça, Philomena, Ela, Alabama Monroe, Nebraska… Um deleite para os cinéfilos. Além dos candidatos aos prêmios da academia, alguns filmes prestigiados em diversos festivais espalhados pelo mundo tiveram sua data de estreia em terras tupiniquins marcadas para os primeiros meses do ano que virou: Ninfomaníaca, Azul é a Cor Mais Quente e Lunchbox agradaram os frequentadores do circuito alternativo. Mas dentre todas essas aclamadas produções de 2013, é uma de 2014 que se destaca.

Estamos chegando em Março, apenas o terceiro mês do calendário, mas já posso afirmar (sem hesitar) que será muito difícil tirar de Uma Aventura Lego o posto de melhor animação do ano; e não é nenhum exagero dizer que serão poucos os filmes, mesmo em live-action, que serão tão competentes e surpreendentes quanto o novo trabalho de Phil Lorde e Christopher Miller.

Mayakovsky constatou que “sem forma revolucionária não há arte revolucionária” e parece que os diretores de Tá Chovendo Hambúrguer e Anjos da Lei resolveram aplicar as lições do poeta russo na produção de seu novo filme. Uma Aventura Lego em uma palavra é isso: Revolucionário. Revolução no formato caótico e anárquico, revolução no roteiro agressivo e ao mesmo tempo sutil, revolução na estética perfeita, no excelente uso do 3D, na incrível composição das cenas: Uma Aventura Lego é o Cidadão Kane das animações.

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Para os leitores raivosos que ao lerem minha afirmação proferiram os mais ofensivos vocábulos da língua portuguesa peço que fiquem mais um pouco e deixe-me explicar: O divertidíssimo filme dos bonequinhos de plástico é uma das melhores animações já feitas e ouso compará-la com a obra prima de Orson Welles, porque assim como o grande clássico Uma Aventura Lego é jovem, inovador e é composto por uma infinidade de ideias que brotam de todos os lado. Com sua própria jovialidade o filme (que em nenhum momento é ingênuo) desafia todas as convenções do gênero e do cinema como um todo. Aliás, uma das mensagens do filme é essa: é uma encantadora homenagem à infância e à criatividade.

Uma Aventura Lego

Uma Aventura Lego

Durante a projeção lembrei-me de James Miller, personagem de Cópia Fiel do diretor iraniano Abbas Kiarostami, que em uma de suas falas afirma que quando uma criança diz algo, nós [adultos] imediatamente a cesuramos; quando um filósofo diz a mesma coisa nós o congratulamos. Partindo desse princípio Miller e Lorde constroem um dos debates políticos mais inteligentes e sensatos que pude conferir nos últimos anos. Sempre muito bem humorado os diálogos entre as pequenas peças plásticas questionam o anarquismo, ironizam o totalitarismo, refletem sobre o consumismo e a economia de mercado, tudo isso usando um grande símbolo do capitalismo moderno: o Lego.

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Mesmo com o contexto político denso e incrivelmente complexo, Uma Aventura Lego, nem por um minuto, deixa de entreter. São piadas atrás de piadas e referencias à diversos símbolos da cultura pop. Fãs da DC, de Senhor dos Anéis, Harry Potter e do universo cultural popular em geral irão se deliciar com as surpresas do filme.

Infelizmente não assisti à copia legendada (quem não gostaria de ver Will Arnett dublando Batman e Morgan Freeman um velho mago), mas a dublagem brasileira não perde em nada para a original. Inclusive a tradução da música Everything is Awesome! (No Brasil: Tudo é Incrível!) ficou impecável.

Um belíssimo filme, uma contundente critica e também uma grande diversão Uma Aventura Lego carrega consigo uma tocante mensagem da forma mais inusitada possível. Assim como Mayakovsky, Phil Lorde e Christopher Miller deixam para trás um imenso legado e uma importante reflexão sobre a produção artística e seu papel social.

Luis Hashimoto é paulista, estudante de Rádio e Tv, apaixonado pelo velho, entusiasta do novo e gosta de falar de si mesmo na terceira pessoa




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