Cinema: Estamos Juntos – Na solidão nossa de cada dia
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Cinema: Estamos Juntos – Na solidão nossa de cada dia

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Estamos juntos – Divulgação

Uma película nacional primorosa para qual faço questão de convidá-los a assistir e mergulhar na profunda angústia e inquietante experiência da existência humana.

A história se passa em Penedo, uma cidade situada entre o Rio de Janeiro e a tão cantada e poetizada cidade de São Paulo. Como a “Sampa”, Penedo se encontra mergulhada na peculiar poluição ambiental, sonora e visual. É deslumbrante a cena de abertura do filme, com a captura da cidade vista do alto, entre as densas nuvens cosmopolitas, enquanto a voz da protagonista, Carmem (Leandra Leal), é lançada sobre a imagem do caos urbano, através de um diálogo, onde a personagem lança a seguinte pergunta: “–Você acredita que o medo deixa as pessoas mais egoístas?”, anunciando, assim, uma viagem existencial poética e essencialmente dramática, como não poderia deixar de ser.

De um lado, cresce a cidade, a população; do outro, o individualismo, o medo e a solidão.

Carmem é uma médica que tenta esconder suas fragilidades humanas através de uma exagerada autossuficiência, vivendo quase que integralmente para sua profissão, abrindo pequenas frestas para seu único amigo, Murilo (Cauã Raymond), para seu amante casual, Juan (Nazareno Casero) e seu misterioso companheiro, cujo nome não é revelado (Lee Taylor).

Estamos juntos – Divulgação

A médica se mostra claramente antissocial, sendo sempre uma tarefa árdua, para seu amigo Murilo, conseguir fazê-la ter tempo para divertir-se um pouco. Em uma dessas tentativas, ele obtém êxito, e vão a um bar-restaurante, onde ela conhece Juan, por quem Murilo (homossexual) nutre um desejo.  Juan se interessa por Carmem e, de tanto insistir, consegue estabelecer uma relação com ela, que deixa claro se tratar de um envolvimento puramente sexual, visto que a mesma foge de qualquer descontrole de sua vida tão bem organizada. E eis o conflito emocional travado entre as três personagens, a “quadrilha” poetizada pelo grande Drummond: “João que amava Teresa que amava Raimundo…”.

Porém, por mais que se fuja de qualquer envolvimento emocional com alguém, a atmosfera natural humana conspira na contramão dessa nossa autossuficiência, e o amor e o desejo nos invadem, levando nosso remoto controle por água abaixo, na correnteza sinuosa da vida.

Parodiando o grande filósofo, Nietsche: É preciso ter um caos (individual ou coletivo) para que possamos dar à luz uma estrela cintilante!

E é frente a esse caos individual (o risco de vida da médica, diante do surgimento de um tumor no cérebro) e coletivo (a necessidade de articulação em comunidades, onde a atriz Dira Paes representa, brilhantemente, uma líder dos Sem- Terra), que começam a surgir os reflexos de fraternidade, em meio à escuridão do individualismo exacerbado instaurado pela pós-modernidade e sua falta de políticas públicas que (re)pensem, de fato, no coletivo, como prioridade.

Estamos juntos – Divulgação

O companheiro misterioso de Carmem segue até o final do filme, desaparecendo, apenas, quando ela, através da experiência vivida da quase-morte, abre-se para o outro. Seria ele uma dessas nossas criações de “amigos invisíveis” para tornar a solidão suportável? Tal como as crianças fazem, pela necessidade, inerente aos seres humanos, de se relacionar…? Não sei se Freud explica, porém, decerto, a sociedade líquida de Bauman (tão nossa) reconhece tais estratégias pós-modernas.

De repente, algo nos força a frear nossos passos, desacelerar nossa inconsciente fuga de nós mesmos e dos outros. Como já dizia Sartre: ”O inferno são os outros”. Contudo, não adianta tentar fugir, nós próprios, sozinhos, alimentamos nossas doses infernais de sentimentos como: medo, ira, revolta. E somente atravessando esses rios internos de águas tão revoltas, alcançamos o reconhecimento, doloroso e liberta(dor), de que precisamos uns dos outros.

O paradoxo de se estar diante da morte como passagem para a vida, não espiritual, mas real, com todas as suas fragilidades, fez com que Carmem pudesse, finalmente, respirar um pouco de paz, deixando-se ser apenas humana, demasiadamente humana (Nietsche).

Carmem descobre que a vida pode ser mais leve, quando dividimos com o outro, a tão complexa e fascinante experiência de se ser humano.

Estamos juntos – Divulgação

Melhor que voar sozinho, é ser um bando, uma tribo, porque sociedade é isso. Permanecer antissocial é um suicídio lento, um tremendo egoísmo.

 Afinal, estamos juntos, e assim,

“… é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar…” (Gonzaguinha)

Por RaiBlue.

Raivane Sales é graduada em Letras Vernáculas, Professora de Língua Portuguesa, graduanda em Psicologia, poetisa cheia de prosa e vice -versa. Seu pseudônimo é RaiBlue e vocês podem encontrá-la em um de seus blogs pessoais.


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