Crítica: Até o fim desafia espectador com história arrastada | Cabine Cultural
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Crítica: Até o fim desafia espectador com história arrastada

Até o fim - Divulgação

Até o fim – Divulgação

Robert Redford e sua atuação corajosa acabam salvando o filme, ao menos para os que são apaixonados por grandes atuações

Não faz nem tanto tempo que Náufrago, filme protagonizado por Tom Hanks, ganhou o público e a crítica com uma bela história envolvendo força de vontade, perseverança e instinto de sobrevivência. O espectador se emocionou e torceu até o final para que seu personagem conseguisse rever o grande amor de sua vida, vivido no filme por Helen Hunt. É justamente essa parte final que diferencia enormemente o grandioso Náufrago do mais novo filme do cineasta J. C. Chandor, Até o fim (All Is Lost), protagonizado por Robert Redford.

Na história, acompanhamos um experiente velejador que, sozinho e jogado ao mar, precisa encarar o maior desafio de sua vida, pois seu barco é atingido por um container gigante. Com o barco em processo de destruição, ele precisa lutar dia e noite para sobreviver.

Até o fim, observando mais atentamente, possui elementos que poderiam fazê-lo ser mais bem sucedido em termos de dramatização. Não precisava necessariamente ser um drama que forçasse o público a chorar, mas também não precisava ser, de forma alguma, um filme muito racional, que se prende exclusivamente pela técnica e pela boa atuação do experiente ator.

É isso que acontece. Com quase fala alguma, vemos o personagem de Redford – que sequer sabemos o nome – ligar o botão cerebral da razão, e a partir de então todas as suas ações são antecipadamente planejadas com vistas à sobrevivência. Não que isso seja um grande problema; de fato nos diz ao menos uma característica do personagem: ele é racional. O problema é que esta característica contribui para que a história fique ainda mais arrastada e sem elementos que nos leve a ter algum sentimento sobre o que ocorre ali.

Até o fim - Divulgação

Até o fim – Divulgação

E isso é percebido, quando, em algum momento da segunda parte do filme, ele dá alguns poucos sinais de desespero, e é neste instante que o espectador, pela primeira vez, é levado a realmente torcer por ele. Mas sem saber exatamente pelo que torce.

Quem é o personagem? Ele pode ser um traficante, um estuprador, um bom pai de família, um ladrão, político… Enfim, o grande risco que o roteiro correu ao não direcionar o espectador para algum lado é que o mesmo espectador acaba por não se importar tanto com o que vai acontecer a seguir.

Robert Redford e sua atuação corajosa acabam salvando o filme, ao menos para os que são apaixonados por grandes atuações. É interessante vê-lo na tentativa, parcialmente bem sucedida, de prender o público por quase duas horas de filme. E ele faz de um tudo, num trabalho que certamente exigiu bastante de sua forma física. Merece elogios e até não seria injusto com ele – e somente com ele – uma indicação ao Oscar.

Voltando a Náufrago, e trazendo outro projeto, esse mais recente, As aventuras de Pi, vemos que o que faltou na experiência vivida pelo personagem de Redford foi uma válvula de escape que o humanizasse mais. Em Náufrago, Tom Hanks se apropriou de uma bola de futebol, e a sua relação com ela se transformou numa das mais belas do cinema, emocionando todos. Em Pi, o garoto foi jogado ao barco com um tigre de bengala, o que num primeiro momento tinha tudo para terminar em tragédia, mas que acabou sendo a razão de sua salvação, e da salvação da história como projeto fílmico.

Em Até o fim, numa atitude ousada e arriscada, J. C. Chandor deixou Robert Redford literalmente à deriva.


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