Crítica Senna: documentário obrigatório para se entender o mito | Cabine Cultural
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Crítica Senna: documentário obrigatório para se entender o mito

Senna no GP do Brasil em 1991 - Evento é retratado no filme

Senna no GP do Brasil em 1991 – Evento é retratado no filme

20 anos. Daqui a pouco menos de 2 meses a morte do piloto brasileiro Ayrton Senna completará duas décadas, e ainda hoje é bem difícil mensurar a falta que o esportista e o ser humano faz para nosso país. Senna conseguiu ser a representação máxima do que é ser brasileiro: um lutador, que dá sua vida para conseguir vencer; um vencedor que de tanto trabalhar consegue se sobressair frente aos demais. Ayrton era absurdamente talentoso, como poucos eram, mas não se engane, pois quase que a totalidade de seu sucesso foi resultado de trabalho duro, de muita transpiração e esforço – físico e mental.

Essa conclusão sobre que foi este grandioso piloto pode ser tirada de duas formas: a primeira por ter vivenciado sua vida como esportista, ao longo dos anos da carreira profissional. A segunda, menos restritiva, é assistindo o relevante documentário Senna, do cineasta Asif Kapadia. O documentário, lançado em 2010, conta exclusivamente a trajetória de Senna na Fórmula 1 (1984-1994). É uma co-produção de França, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos, e foi produzido pela Working Title em parceria com a ESPN Films.

O grande trunfo do documentário reside no trabalho que os roteiristas tiveram para transformar somente imagens de arquivo, sem grande tratamento cinematográfico, em uma história uniforme, densa e interessante do ponto de vista narrativo. O resultado é admirável, uma verdadeira aula de como o cinema pode fazer tanto com tão pouco. Há na história contada todo um ciclo que se fecha harmoniosamente.

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O filme, por exemplo, começa com imagens de arquivo de um Ayrton ainda muito jovem, bem garoto mesmo, correndo de kart e em off temos um Senna já célebre afirmando que nos tempos de kart as corridas eram mais reais, por não haver política nem dinheiro nelas. O documentário segue a sua vida na Fórmula 1, contando seus altos e baixos, mostrando o desfecho trágico ocorrido em Ímola, até que, nos minutos finais, voltamos ao Senna, nesta mesma entrevista que abriu o filme, só que agora exibindo as imagens desta. Nela, Senna retorna sua afirmação inicial ao responder que foi com um dos pilotos desta época de kart que ele mais sentiu prazer em correr. Esse trabalho – de fazer o iniciar da narrativa casar com o final – conseguiu jogar para outro nível a qualidade do filme.

Senna - Documentário

Senna – Documentário

Mas, além disto, há outros trunfos que o filme explora com atenção, como a mitológica rivalidade de Senna com Prost e a relação conturbada com o presidente da FIA, o francês Jean-Marie Balestre. Sobre a rivalidade com Prost, há questionamentos para se fazer, sobretudo pelo fato do piloto ter saído em ataque ao projeto, por ter deturpado a realidade. De fato, a relação de Senna e Prost é apresentada com uma visão um tanto maniqueísta, do bem contra o mal, e claro que Senna aqui representaria o bem. Ainda assim, no fim das contas, o mais atencioso espectador observará que a importância que um teve na carreira do outro não foi deixada de lado, sendo Prost não o principal arquiinimigo de Senna, mas sim o importante elemento que faltava para fazer de Senna um dos melhores pilotos da história.

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De temperamento genioso, Senna teve discussões com dirigentes da FIA e com Nelson Piquet e fica a sensação que essas discussões aconteciam com muito mais freqüência que o mostrado. Era notório, principalmente pelos arquivos inéditos mostrando os bastidores da Fórmula 1, que Ayrton não era um consenso. Ele incomodava, não somente dirigentes, mas alguns pilotos também.

Se a carreira como piloto oi retratada através de arquivos oficiais, a sua vida pessoal foi mostrada pelas lentes das filmadoras da família Senna. São muitas imagens e filmagens que traçam um Senna alegre, mas com preocupações sociais, dando inclusive o pontapé para o que viria ser tempos depois o Instituto Ayrton Senna. Sua relação com mulheres – Xuxa e Adriane Galisteu – não foi esquecida e chegam a servir de alívio cômico para a história, de tão embaraçosas que são.

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Vale destacar ainda as participações do jornalista Reginaldo Leme, conhecido por cobrir a fórmula 1 desde a década de 1970 e de Galvão Bueno, narrando algumas corridas, bem como da dupla da BBC, o então ex-piloto James Hunt (comentários) e Murray Walker (narração).

Senna e Prost

Senna e Prost

Há muito ainda para se dizer de Senna. Do documentário e de sua vida. As históricas corridas vencidas por ele são registradas e apresentadas de forma quase sublime. A épica corrida no GP do Brasil, que Senna venceu mesmo estando com problemas no câmbio é um dos pontos altos em termos de emoção e vê-lo sair do carro todo dolorido é de uma sensação de orgulho indescritível.

O trágico GP de Ímola também é destaque, e revendo tudo pelo documentário, fica hoje aquele estranho sentimento de que estava tudo planejado para acontecer, pois na sexta-feira Rubens Barrichello havia sofrido grave acidente e no sábado o piloto Roland Ratzemberger havia morrido depois de uma forte batida nos muros da pista. Ainda assim, o circo continuou, precisando que um tricampeão morresse para que enfim, se repensasse toda a estrutura das corridas.

Um grandioso documentário. Podemos classificar assim Senna. Um mitológico piloto. Podemos classificar assim Senna. Ficou na história de nossas vidas, de nossas manhãs gloriosas de domingo.




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