Super Size Me – uma dieta à base de McLanches

Super Size me – Divulgação

Apesar do desnecessário subtítulo nacional – A Dieta do Palhaço – Super Size Me é um documentário que deve ser visto, mesmo que, ao término da sua projeção, não sejam apresentadas respostas definitivas para o problema da obesidade mórbida, um dos grandes e atuais males que assola os Estados Unidos.

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Não que seja uma obrigação do documentarista apresentar soluções definitivas para situações narradas em um filme documentário. Cabe, ao diretor, expor seu tema e discuti-lo, utilizando-se das ferramentas cinematográficas, para tal.

Para Morgan Spurlock, diretor de Super Size Me, não interessa solucionar problemas ou, ainda, doutrinar o púbico espectador do seu filme. O que ele quer, e faz, é exibir, durante pouco mais de uma hora e trinta minutos, o processo e o resultado de um experimento seu, no qual, a cobaia desse experimento, foi ele próprio. Mesmo que o tom de denúncia esteja presente durante todo o filme.

O experimento consiste no seguinte: partindo do fato de que duas adolescentes americanas obesas estão processando a rede de lanchonetes fast fodd McDonald’s – as jovens alegam que estão gordas e mal de saúde por causa dos constantes lanches que ambas fazem, cotidianamente, no McDonald’s –, Morgan – um jovem de 33 anos, relativamente atlético, que possui uma boa saúde (até mesmo, acima da média) e namora uma vegetariana – decide passar trinta dias seguindo uma dieta estranha e bastante perigosa – só se alimentar dos alimentos vendidos no McDonald’s, no café, no almoço e na janta e se, em algum momento das suas compras, algum vendedor oferecer o tamanho super size (aquele de maior tamanho), ele deve aceitar, sem hesitar. E comer.

Antes de iniciar sua experiência, Morgan procura três médicos, com os quais faz uma série de exames que constatam a ótima saúde dele. Os médicos, inclusive, alertam Morgan do risco no qual ele está se metendo: uma dieta à base dos produtos vendidos no McDonald’s pode danificar, e muito, o seu organismo.

Morgan Spurlock eats McDonald’s french fries in this undated publicity photo.

Bastante decidido e, aparentemente, consciente dos riscos, Morgan não só começa a dieta como a segue à risca. E os primeiros dias soam como uma grande – e irresponsável – brincadeira, tantos aos olhos dos próximos a Morgan, quanto aos nossos olhos: o seu público. Entretanto, há uma sequência que pode ser considerada como o divisor de águas neste processo experimental, exatamente quando nós percebemos – e o próprio Morgan – que as consequências podem sim, ser trágicas: ele está no carro, para comprar mais uma refeição no McDonald’s, e lhe é oferecido o super size com mais um litro de refrigerante e, ainda, 500g de batatinhas fritas, sendo que o sanduiche é o quarteirão duplo, com queijo. É visível o quanto Morgan está empanturrado e, quinze minutos após o início da refeição, ele ainda tem mais da metade das batatas fritas para comer.

Regras da dieta: ele não pode recusar nada do que for oferecido pelos vendedores e tem que comer absolutamente tudo que foi comprado. Resultado: Morgan segue as regras e, após vários minutos para conseguir terminar de comer tudo aquilo em tamanho super size, ele vomita pela janela do carro, e a câmera, de maneira maravilhosamente eficaz, capta tudo, nos proporcionando um ótimo plano do vômito, causando-nos a sensação de que aquele cara pode até morrer, se continuar com aquele experimento.

E ele não só continua como o óbvio acontece: Morgan passa a ser hipertenso, seu colesterol vai às alturas, constantes e dolorosas dores de cabeça passam a atormentá-lo, ele se cansa rápido, mal consegue subir as escadas para o seu apartamento, não consegue ter uma vida sexual normal e, evidentemente, seu peso aumenta, dos inicias oitenta e poucos quilos, a quase noventa e cinco quilos.

Claro que a essa altura da leitura o leitor, que não tenha assistido esse documentário, esteja pensando no quão exagerado foi esse experimento de Morgan, afinal, ninguém, em sã consciência, toma café, almoça e janta, em absolutamente todos os dias, na mesma rede de lanchonetes de fast food da sua cidade.

Super Size me – Divulgação

O fato é que Morgan Spurlock é um cineasta: ele faz filmes. E todo aquele que faz cinema o faz porque tem algum objetivo (ou vários objetivos) a alcançar. Morgan quer mostrar que colesterol vicia, quer denunciar o constante processo de engorda que assola os Estados Unidos e quer produzir um documento audiovisual no qual sejam denunciadas as péssimas consequências do sedentarismo e da má alimentação. Ele fez Super Size Me e conseguiu chegar a todos esses objetivos.

Como já era esperado, a rede McDonald’s posicionou-se contrária ao que fora narrado no documentário. Porém, logo após o lançamento mundial do filme, foi retirado de circulação os tamanhos super size, sem contar que o McDonald’s passou a reformular a sua imagem, passando a investir em alimentos, considerados por eles, como mais saudáveis.

Após seu experimento, Morgan levou mais de um ano para recuperar a saúde pois, além dos problemas que surgiram no decorrer da dieta, o seu fígado ficou bastante debilitado.

Outros experimentos – que tiveram as redes de fast food como alvo de denúncias – foram feitos, a exemplo da fotógrafa americana Sally Davies, que comprou um McLanche Feliz, mas não o comeu, levando para a sua casa, passando a fotografá-lo durante dois anos, initerruptamente, sem colocá-lo na geladeira ou em algo do gênero, deixando-o num ambiente natural da casa. Resultado dessa experiência: o McLanche Feliz continuou intacto, na aparência, sem mostrar nenhum sinal de alteração, apenas o pão que partiu-se em alguns pedaços, devido ao ressecamento.

Super Size me – Divulgação

Quanto a Super Size Me, teve reconhecimento de público e de crítica. Inclusive, concorrendo ao Oscar de Melhor Documentário e vencedor do prêmio de Documentário no Festival de Sundance. Indicação e prêmio por mérito pois, enquanto obra cinematográfica, esse documentário é, de fato, muito bom: Morgan sabe, perfeitamente, utilizar todos os recursos da linguagem cinematográfica, da perfeita e inspirada trilha sonora aos efeitos visuais, o que soma ponto positivo para o filme.

Morgan Spurlock continua ativo na carreira cinematográfica e televisiva, inclusive, um outro documentário seu – Onde Está no Mundo Osama Bin Laden – teve uma boa aceitação no Festival de Sundance de 2008.

Super Size Me é um ótimo e necessário filme, e deve ser visto por todos, principalmente pelos fãs (ou, segundo a tese do filme: viciados) dos mais variados (e gordurosos) lanches vendidos no McDonald’s.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colunista do Cabine Cultural.

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