Antígona: leitura dramática
Literatura

Antígona: leitura dramática

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Antígona – Foto de Aninha Franco – Divulgação

A hipocrisia, solidão, medo, as falsas amizades virtuais, o nazismo, fascismo, ditadura no Brasil e Argentina e desmandos palacianos não escapam à recriação de ‘Antígona’ por Aninha Franco.”

Por Elenilson Nascimento

Na mesma semana do “III Fórum do Pensamento Crítico” sobre Autoritarismo e Democracia no Brasil e na Bahia, na sala principal do TCA, onde por total falta de critérios os organizadores devem ter escolhido os debatedores através de sorteio na Loteria, onde estes mais pareciam um bando de marionetes drogadas falando sobre assuntos decorados de livros. Contudo, queria aproveitar o espaço para exaltar as ilustres presença de Paulo Miguez, Bob Fernandes, Paulo Costa Lima, Pery Falcón, Antônio Câmara e Olival Freire nas mesas debatedoras que participei – apesar de eu ter sido vaiado no teatro por questionar o valor atual da Universidade Federal da Bahia que está bem longe da outrora aglutinadora de ideias dos anos 60/70, mas que, ainda hoje, os seus professores deslumbrados adoram exaltar. Outrossim, pelo amordedeus, o que o demente do Ruy Costa (político medíocre) e o Marcelo Rezende, curador-chefe da 3ª Bienal da Bahia e diretor do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA), falando sobre a bienal num debate sobre ditadura, estavam fazendo ali?

E indo na contramão de tudo o que acontece nessa província, depois de uma temporada de sucesso em 2013, no Anexo do Theatro XVIII, a leitura dramática de “Antígona”, recriação do clássico de Sófocles da sempre inquieta escritora Aninha Franco, foi apresentada no deslumbrante Museu Rodin, em pleno “Festival da Cidade”, durante as comemorações do aniversário da Cidade do Salvador. Com a participação das atrizes Beth Coelho (Antígona), Rita Assemany (Coro) e do ator Ricardo Bittencourt (Creonte), a leitura foi muito além das expectivas, onde o texto mostrou a visão grega através de questionamentos contemporâneos das transgressões que ainda infringem leis naturalmente impostas pela divindade no coração humano. Daí, talvez, tais ações ainda são consideradas verdadeiras aberrações já que, uma vez Édipo desposando a própria mãe,tornar-se-ia irmão e pai de seus filhos, como veio a acontecer, fusão de posições inconcebíveis para a natureza.

Édipo foi realmente um típico herói trágico. Demasiadamente contemporâneo com todas as suas imperfeições. Sendo ingênuo acerca de sua realidade e indefeso diante de seu destino, no texto instigante de Aninha ganha um tom de rebeldia nada planfletária, além de sobre ele pairar o justificável e legítimo argumento de ignorar a verdade sobre suas origens e nada poder fazer para fugir de seu inescapável destino, premissa cultural da obra, que foi profetizado pelo oráculo de Apolo em Delfos, qual seja, o de matar seu pai e desposar sua mãe, incorrendo numa irreversível transgressão à ordem natural e trazendo sobre si um pecado familiar e sua consequente maldição.

Antígona – Foto de Aninha Franco – Divulgação

E o público reduzido para cinco dezenas de sortudos – devido ao espaço pequeno da sala do espetáculo, onde uma imensa mesa decoradas com uvas, torradas e vinho foi disposta para a interação com a plateia, onde Antígona, com seu comovente amor fraternal, decidiu prestar a seu irmão o piedoso serviço de enterrá-lo, uma vez que, de acordo com os preceitos olímpicos, muito mais importantes que a morte em si, era a honra da sepultura, o justo merecimento de, tendo sido benquisto neste mundo, obter a glória de ser bem recebido no outro. Acabei me reconhecendo em outras implicações, como na teimosia e no desapego de Antígona às leis que também foram trágicas. E mesmo cedendo ao fim, foi tarde demais, a heroína se enforcou. Seu filho Hêmon, apaixonado por ela, também se suicidou, e até Eurídice, mãe de Hêmon e sua esposa, inconformada com a morte do filho, igualmente deu cabo de sua vida (SÓFOCLES, 2008, p. 120).

Porém, tão contundente e efetivo quanto um tapa na cara, a Antígona de Aninha Franco não tinha dúvidas sobre qual lei seguir. Como qualquer herói do teatro grego, ela dominou o phobos, o medo. E nada sútil, destemida, ousada e indomável, atreveu-se a desafiar a tirania de seu tio Creonte e, mesmo ciente da pena de morte que seu ato implicaria, recusou-se em obedecer a leis civis, por achá-las inferiores aos desígnios divinos. Impossível não lembrar de outras Antígonas pósmodernas como Frieda Kahlo, Marlene Dietrich, Pagu, Florbela Espanca e/ou Madonna. Nota-se que Aninha descreveu as primeiras partes do texto com o intuito de explorar ao máximo a ideia de desafiar o abismo entre a lógica e a normalidade, jogando de uma só vez na cara dos que ainda estão dormindo no túmulo da sala de estar os questinamentos do imponderável. Os interesses pessoais e sentimentos egoístas de Creonte (*Ricardo Bittencourt me deixou com vontade de rir de mim mesmo) que pensaram limitar o que era superior e mais amplo, não a afetaram. Ou se o afetaram, ele escondeu muito bem. A trama demonstraria quão acertada foi a convicção que tomou, pois o convencimento de Creonte foi arrogante como arrogante são todos aqueles que se deixam dominar pelo poder.

E a hipocrisia, a solidão, o medo, a farsa, as falsas amizades virtuais, o nazismo, fascismo, ditadura no Brasil e Argentina e desmandos palacianos não escapam à recriação de “Antígona” por Aninha Franco, que manifesta sua intenção de, em adição a isso tudo, ao sentimento de injustiça social soteropolitana sobre o atual decreto de que “somos felizes” na cidade do acarajé, sua versão manifesta uma tentativa de convencer um rei arrogante, levando os ouvintes a refletirem sobre o poder, a solidão e o amor. Aliás, a reflexão sobre a política, de uma maneira geral, é um dos traços marcantes nos textos da premiada dramaturga, nacionalmente reconhecida pelo trabalho realizado há quase duas décadas no Theatro XVIII.

Antígona – Foto de Aninha Franco – Divulgação

Mas no conhecido desfecho de tal tragédia, onde Édipo não suportando a revelação de tamanha desgraça e diante da imensidão de seu infortúnio, estando Jocasta também morta, furou os próprios olhos e retirou-se da cidade, Antígona, enfim, amparou suas convicções em todo o seu exílio de Tebas até a sua própria morte, como filha passional, solidária e companheira que sempre foi. Achei triste relembrar essa tragédia, mas contestadora em suas metáforas. Pena que hoje em dia as pessoas sejam mais Crentoes que Antígonas.

E como tão bem pontuou essa semana a pensadora contemporânea Fanta Maria, digo, o Lelo Filho: “Que a Educação seja o foco fundamental de quem deverá ocupar os cargos mais importantes do país ou perderemos o jogo mais uma vez para esperteza de quem manipula a ignorância da população”. Assim, a partir de Sófocles, o mito de Antígona ganhou em várias expressões culturais, o simbolismo de uma heroína contestadora, uma mulher capaz de assumir os valores éticos mais elevados, mesmo com o risco de sua própria vida. A “Antígona” de Sófocles, escrita no século V antes de Cristo, apogeu da Grécia clássica, é uma das obras mais significativas sobre o poder e o amor. Por isso mesmo, segundo Aninha Franco, “vários dramaturgos releram o texto em períodos confusos da história”, observou, citando Jean Cocteau. Mas, logo nos primeiros minutos da leitura, ao som dos tambores ao fundo; dos auxiliares de camisetas pretas jogando luz nas nossas caras; das madames burguesas botando escondido uvas e torradas em suas bolsas falsas de marcas famosas; de um mal educado que só foi lá pra beber vinho de graça e depois liberar um sonoro arroto; coube a mim, ou aquele prestou atenção na mensagem da leitura o direito positivado de absorver os conceitos subjetivos para dirimir qualquer conflito intelectual emanado dessa sociedade demasiadamente enfadonha e estabelecer a base justa de sua legitimidade, pois as particularidades que porventura existam entre os diversos direitos não devem ser concebidas como antagônicas e excludentes, mas complementares à efetivação da dignidade humana. A Antígona não é base para um sistema jurídico paralelo (*advogados e estudantes de Direitos deveriam conferir essa história), embora estes existam, mas exemplo de que, dilemas milenarmente resistidos podem se incorporar no universo do direito positivo.

De acordo com Aninha Franco, que registrou o episódio no livro de sua autoria, “O Teatro na Bahia através da Imprensa”, no período da ditadura militar no Brasil, essa peça foi vetada e uma absurda ordem de prisão contra Sófocles – um grego morto há 2.500 anos – foi expedida. Antígona também recebeu leituras e releituras na Revolução Francesa, no século XVIII (1789) e nos movimentos feministas europeus. Porém, como nenhum poder é absoluto permanentemente e o indivíduo condicionou-se a uma medida de submissão ao Estado, tanto um como o outro, para a plena eficácia da coexistência de ambos, tiveram que tomar como imperativo um alto grau de ponderação e tolerância, a fim de que não se cresse cegamente que qualquer conceito de fundamento ético, seja envolvendo direitos subjetivos, direitos humanos ou a dignidade da pessoa humana e que estivessem fora do direito positivo, por um lado, fossem considerados ilusórios e disfuncionais. Por outro lado, apesar daquilo que se percebe atualmente dessa nova leitura da Antígona e seus resultados, não se deveria lastrear qualquer intolerância no também ambíguo conceito de que o direito natural é o direito do “bem”, pois insurgido contra o direito positivo, enquanto este é o direito submisso ao “mal”, aos poderosos de plantão. Espero que tenhamos outras leituras desse nível. O povo precisa ter acesso à cultura para não se deixar iludir por governantes de um país que tem os índices de criminalidade, analfabetismo e corrupção vergonhosos, em vez de se meter a dar palpites em problemas alheios via Facebook.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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