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O Óleo de Lorenzo – Uma História de Obstinação

O Óleo de Lorenzo

Lorenzo é uma criança linda e carismática, que leva uma vida relativamente normal, convivendo com seus pais, Michaela e Augusto Ordone. Até que alguns incidentes, que indicam um comportamento agressivo, por parte de Lorenzo, começam a acontecer na escola, estendendo-se para o ambiente familiar. Uma série de exames passa a ser feita no garoto, e absolutamente nada é descoberto. Nada que justifique o estranho e inesperado comportamento.

Esse é o início do maravilhoso filme do nem sempre maravilho diretor George Miller (diretor de As Bruxas de Eastwick e Happy Feet 1 e 2, entre outras obras ora boas ora irregulares).

Algum tempo depois, descobre-se que Lorenzo tem uma doença chamada ADL, ou seja, adrenoleucodistrofia, que causa uma implacável degeneração do cérebro, levando o paciente à morte em poucos anos. Entre o diagnóstico e a morte, terríveis sintomas acometem a vítima de ADL: perda da memória, cegueira, surdez, paralisia.

Essa história verídica foi levada às telas no início da década de 90, mais precisamente no ano de 1992, e teve Nick Nolte e Susan Sarandon como os pais de Lorenzo, ambos perfeitos nos seus personagens.

Além da perfeita atuação dos protagonistas, e da criança que faz Lorenzo, perfeitas também são as outras características técnicas e artísticas desse filme. Um roteiro original muito bem escrito que, de fato, nos coloca, aflitos, dentro daquela família que luta para encontrar uma maneira de salvar o filho (ou amenizar os males causados pela doença). Uma direção segura de Miller, com destaque para três momentos muito bem dirigidos, fotografados e filmados: um, quando há um contra-plongee, com o casal rezando numa igreja; outro, quando o casal recebe convidados em casa, as crianças brincando, correndo, do lado de fora da casa, a câmera passando por Michaela – a mãe – indo até a janela e pegando a brincadeira das crianças, quando as mesmas correm até Lorenzo para, segundos depois, uma garota entrar na sala, desesperada, dizendo que Lorenzo havia caído da bicicleta e, por fim, evidentemente, a sequência de cenas em que Augusto – o pai – faz uma pesquisa, na biblioteca, sobre a ADL e, incrédulo, lê todas as terríveis consequências da doença, as quais culminam, sempre, com a morte e, desesperado, na escadaria da biblioteca, ele dá um grito de dor e desespero e despenca-se escada abaixo. São três momentos inesquecíveis – entre muitos outros – desse filme.

O Óleo de Lorenzo

Só pelo que já foi discorrido acima, O Óleo de Lorenzo já valeria ser visto: é um dos melhores filmes feitos no início da década de 90. Entretanto, não há como negar que a luta obstinada daqueles pais, que entram em contato, constantemente, com médicos e especialistas em ADL, com químicos e laboratórios e com os pais de outros meninos portadores desse mal, e a pesquisa que ambos decidem começar, a fim de encontrar ou uma cura ou uma forma de estagnar a doença, são os aspectos mais sedutores e impressionantes do filme.

É preciso ser dito que nem Augusto nem Michaela eram pessoas ligadas à área de saúde. Eram leigos. E, para completar, a medicina não possuía nenhum tipo de tratamento para a doença, já que, segundo os médicos, a ADL era uma doença nova e desconhecida: não havia tratamento eficaz. Mesmo assim, eles decidem inscrever Lorenzo num programa de dieta rigorosa no controle dos ácidos graxos, dieta esta indicada pelos médicos.

Paralelo a isso, Michaela e Augusto envolvem-se com uma ONG que parece estar bem mais preocupada – e interessada – com o bem estar dos pais de garotos com ADL (detalhe: essa doença só acontece com meninos, a partir dos seis, sete anos) do que, propriamente, com a cura ou a amenização do sofrimento das crianças.

Tempos depois, quando fica evidente que a dieta não resolverá o problema, muito menos amenizará a péssima situação de Lorenzo, os pais decidem não só tomar as rédeas da situação, como também empenham todo o tempo numa detalhada pesquisa sobre a ADL, com o claro objetivo de melhorar a vida de Lorenzo, enquanto o menino passa a ser cuidado pela irmã de Michaela e por uma enfermeira.

Computadores e Internet não existiam ainda: era a década de 80. Sendo assim, eram dias e noites mergulhados em livros, tentando entender como as células do nosso organismo funcionavam e, a cada descoberta, o casal recorria aos médicos e ao casal presidente da ONG, no intuito de compartilhar tal descobrimento, mas, constantemente, Augusto e Michaela eram vistos com desconfianças sendo, inclusive, algumas vezes, tachados de arrogantes.

O Óleo de Lorenzo

Totalmente inseridos nos estudos, os Ordones se deparam com um óleo, baseado no óleo de oliva, que não curaria a ADL, mas “enganaria” o organismo do doente para que não fosse mais produzido o maléfico ácido graxo, já que o excesso desse ácido destruía o cérebro. Como já era esperado, tanto os médicos quanto o casal presidente da ONG mostram-se relutantes em aceitar a descoberto dos Ordones. Porém, cientes da descoberta e obstinados em melhorar a situação do filho, Augusto e Michaela passam a acrescentar doses do óleo à refeição de Lorenzo.

Lorenzo não é curado. Porém, à proporção que o óleo faz parte da sua dieta, os terríveis sintomas vão, gradativamente, melhorando. Melhoram tanto ao passo de Lorenzo ter vivido até os 30 anos de idade, morrendo de pneumonia. Sua mãe morreu antes dele, de câncer e Augusto, o pai, há poucos anos atrás.

Enfatizo o que disse alguns parágrafos acima: O Óleo de Lorenzo é maravilho, enquanto obra audiovisual. Entretanto, a transformação dos pais de Lorenzo, de pessoas comuns, bons pais, bons trabalhadores, bons cidadãos americanos, em exímios pesquisadores, é o melhor não só do filme como da vida verídica dessas personagens mostradas no filme. O que motivou os Ordones, evidentemente, foi a dor em ver o filho morrendo, morrendo da pior forma possível, através de uma doença cruelmente degenerativa e, obstinados, foram estudar, observar, pesquisar, formular hipóteses, testar hipóteses, e conseguiram chegar a um resultado de pesquisa. No caso da história real contada, um excelente resultado, não só para Lorenzo, como também para todos os meninos portadores desse mal.

O filme é triste, não há como negar. Existe uma passagem devastadora, exatamente aquela em que, já exaustos, depois de meses de pesquisa, e crendo que Lorenzo talvez não se cure, Augusto pergunta a Michaela se ela já tinha parado para pensar que tudo aquilo que eles vinham fazendo, todo aquele esforço em conseguir uma cura para seu filho, talvez não fosse destinado a Lorenzo e, sim, aos filhos dos outros. Nesse momento, não há como segurar as lágrimas.

O final é otimista, bonito do ponto de vista cinematográfico, nos provando que sempre conseguimos algo quando almejamos, de verdade, esse algo, quando o desejamos com sinceridade, honestidade e amor.

Mauricio Amorim é professor de Linguistica e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Cineasta e Colunista do Cabine Cultural.







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