Salve João! Uma homenagem ao crítico de cinema João Carlos Sampaio
Cinema Notícias

Salve João!

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João Carlos Sampaio

Morre um dos poucos jornalistas de qualidade dessa geração.”

Por Elenilson Nascimento

Depois de ter me dado férias na última semana, peguei meu helicóptero particular – ou quase isso – e voei para Morro de São Paulo. Me isolei do mundo, sem telefone, sem internet, sem porra de televisão e sem Facebook. Assim que voltei para a província, com muita tristeza, como um tapa na cara, acabei recebendo uma enxurrada de mensagens sobre a morte do meu amigo jornalista e crítico de cinema João Carlos Sampaio.

O Bola, com eu o chamava, era um dos poucos jornalistas dessa cidade medíocre e metida a importante que eu admirava. Dono de um comportamento primoroso, todo trabalhado em viagens, super amigável, atencioso e amigo dos poucos amigos, foi uma das minhas descobertas mais bacanas e uma das entrevistas mais agradáveis publicadas no meu falecido blog Literatura Clandestina – que o Google, com a sua canalhice, achou de excluir – e, posteriormente, também públicada na revista de cinema Cinemax (RJ).

Conheci o João num programa de rádio da Érika Saraiva, onde quebramos o maior pau por causa da crítica que ele fez ao filme “Amores Brutos” – que eu adorei e ele não – mas, tempos depois, nos tornamos amigos, ganhei dezenas de convites de cinema, além de camisetas horrorosas com propaganda de lojas e tardes com vinho e sessão de cinema em sua casa.

João foi um dos primeiros a escrever uma crítica com envergadura sobre o meu livro “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas”, isso em 2006, como também sobre os livros “Contos Perversos”, “Olhos Vermelhos”, “Palavras Faladas Fadadas Palavras”, “Memórias de um Herege Compulsivo”, e preparava uma matéria sobre “Clandestinos” para ser publicada num jornal local, mas não deu tempo.

E numa terra onde os formadores de opinião não têm mais opinião, onde os jornalistas se empenham para a vergonhosa missão de bajular estrelinhas decadentes do axé, onde vivemos de migalhas, acabamos de perder mais um cara do bem. O que fica: os momentos de cumplicidade. Fico me perguntando como um cara como o João não estava apresentando um programa sobre cinema na TVE, talvez porque a TVE agora não passa de uma redezinha de merda que tem a única função de mostrar uma Bahia que não existe mais, além de uma programação arcaíca e repetitiva (*mas, o pior de tudo, e ceder espaço para o marido da Ivete Sangalo fingir que é interessante ando dicas sobre comidas que não engordam numa cidade em que todo mundo está morrendo de fome) – quanto as outras emissoras é melhor nem fazer comentário.

O sepultamento do João, morto na madrugada da última sexta-feira, 02/05, em Recife (PE), aconteceu no último domingo, no município de Aratuípe, distante 222 quilômetros de Salvador. João tinha apenas 44 anos e era considerado um dos melhores jornalistas de sua geração, colaborador do A Tarde, e participava do Cine PE 2014 – Festival do Audiovisual, no Recife, quando passou mal durante a madrugada. A suspeita, ainda não confirmada, é de que teria sofrido um infarto. De acordo com a direção do evento, João queixou-se de um desconforto e pediu ajuda a um amigo que o levou para um hospital, mas não resistiu e morreu no caminho.

João residia na capital baiana desde os anos de 1980. E ao longo de anos de dedicação ao trabalho, se aperfeiçoou e atingiu elevado nível de maturidade e perfeccionismo, situando-se entre os melhores do país. Salve João Sampaio, o cara dos filmes, igual a São Sebastião – aquele nu e todo flechado que morreu suspirando de amor, pervertendo a dor, pois, mesmo que os medíocres e deslumbrados não queiram, ainda é preferível continuar criando Vida nessas inóspitas margens de fezes de uma cidade atrasada como Salvador, do que cruzar os braços. Foi o que muita gente extraordinária fez. Foi o que Safo fez. Sócrates fez. Michelângelo, Tchaikouvski, Virginia Woolf, Pasolini, Marguerite Yourcemar, Fernando Pessoa, Brando – que o João gostava – e muitos outros fizeram. É a lista é longa e boa, pois é delicioso saber que, mesmo depois da morte, eu nunca estive sozinho neste mundo onde nos querem enfiar. Mesmo me sentindo sozinho agora. Salve João!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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