Especial Chaplin: Monsieur Verdoux
Cinema

Especial Chaplin: Monsieur Verdoux

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Annex – Chaplin, Charlie (Monsieur Verdoux)

Capitalismo e militarismo são temas recorrentes das críticas de Chaplin e neste filme estão mais uma vez citados com virulência, acidez e impiedade na trajetória do ex-bancário que se torna psicopata assassino

Por Josival Nunes

Comédia de humor negro com crítica contundente ao militarismo e ao capitalismo, Monsieur Verdoux de 1947 é mais um filme em que a genialidade de Charles Chaplin se expressa de forma irônica, ferina e com apurada habilidade cinematográfica. O filme conta a história de um bancário chamado Henri Verdoux (Charles Chaplin) que é demitido após dedicar-se ao trabalho por trinta e cinco anos em seguida vindo a desenvolver um aspecto violento de sua personalidade ao tornar-se um psicopata que seduz senhoras de meia-idade para depois assassiná-las e ficar com as suas rendas.

Apesar das ações criminosas Verdoux ainda guarda uma alma sensível que mantém uma família com mulher paralítica e um filho pequeno. Boa parte do que consegue investe em ações sempre considerando que é o melhor momento para aplicações.

Afinal é preso e condenado a morte sendo que neste momento faz um emocionante discurso em que fala que a guerra é muito mais cruel e desumana do que os seus delitos cometidos contra as senhoras. Em síntese faz uma crítica ao belicismo e suas consequências e ao aspecto utilitarista e selvagem do capitalismo. Nestas reflexões temos o discurso de Charles Chaplin através da voz do personagem Henri Verdoux, onde ele expressa as contradições e paradoxos do sistema econômico vigente a partir das mazelas sociais que acarreta. O personagem Carlitos também está presente não apenas com os trejeitos característicos transpostos para algumas reações de Verdoux, mas sobretudo na atitude transgressora e até certo ponto anárquica do protagonista.

Se por uma lado temos o lirismo e até mesmo a leveza de Carlitos que se contrapõem e diluem até certo ponto nas dores de sua existência, em Verdoux há uma amarga e cínica postura de vida que realça o drama, dando conotações mais trágicas ao filme. O vagabundo, Verdoux e Chaplin se confundem em vários momentos do filme principalmente na emblemática cena do discurso na condenação e no desfecho da película onde até mesmo o andar do personagem remete à figura de Carlitos.

O filme se tornaria mais um clássico na galeria do cineasta britânico dessa vez sem o personagem Carlitos mas ao mesmo tempo com o vagabundo presente de forma indireta no discurso e ações do protagonista. Charles Chaplin nesta época continuava perseguido por sua postura progressista e mesmo assim continuava com a mesma forma de ver o mundo, sem se importar em agradar gratuitamente, mas buscando fundamentalmente passar uma mensagem de atenção ao ser humano e suas contradições. Desta vez ele se utiliza de uma figura polêmica, por se tratar de uma assassino em série, para denunciar as engrenagens do sistema capitalista que parece não ter nenhum pudor em destruir em nome do lucro máximo e coloca em xeque também a lógica de guerra que mata em grande quantidade e no entanto muitas vezes é socialmente justificada pela necessidade de se dominar para ter-se mais poder e influência ainda que com isto carregue a vida de muitas pessoas para o abismo da morte, dor e sofrimento.

Capitalismo e militarismo são temas recorrentes das críticas de Chaplin e neste filme estão mais uma vez citados com virulência, acidez e impiedade na trajetória do ex-bancário que se torna psicopata assassino. Verdoux parece ser um espelho de uma sociedade corrompida e amoral, desumana e implacável, enquanto Chaplin atravessa o personagem com a sua fala que aponta a necessidade de refletirmos seriamente sobre estes pontos antes que tudo vire um caos disforme em meio a um modo de ser indiferente e niilista. O mundo contemporâneo parece sofre de mal parecido ao que foi criticado no filme mantendo com isto a atualidade da obra que assim permanece pulsando em sua mensagem, mesmo distante em termos cronológicos. O vagabundo, Verdoux e Chaplin permanecem inquietando quem os assiste graças a força desta mensagem que segue atual e precisa.

Monsieur Verdoux (1947)
Elenco

Charles Chaplin … Henri Verdoux
Mady Correll … Mona Verdoux
Martha Raye … Annabella Bonheur

Josival Nunes é escritor, cineasta e colunista do Cabine Cultural.


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