Literatura: Clandestinos
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Literatura: Clandestinos

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Clandestinos

“Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos…” (Nelson Rodrigues)

Por Anna Carvalho*

Numa manhã modorrenta de reunião de escola de ensino médio, encontro Elenilson Nascimento, e ali cheiramos a possibilidade dissonante de atestarmos o outro lado das celas das escolas, sermos anarquistas, revolucionários, discutirmos o país, a distopia em bancos de escola. Logo em seguida, veio o convite de nos lançarmos na escrita de um romance de ficção chamado “Clandestinos”, à guisa de um romance feito em fluxo narrativo com cinco personagens desamparadas pela ficção: um homem, uma mulher, um jovem escritor, uma jovem escritora e a metalinguagem do livro como o seu lúpus ou sua excelência.

Por ser mulher, embrenho-me na literatura divagada, como uma espécie de alter ego sumário, catártico, que não abre mão da função hedonista da literatura em se projetar numa espécie de personagem alinear chamada Fernanda Feeling (uma espécie de login ou senha para a liberdade pretensiosa). Não antes de muitas vezes avisar ao leitor de que a sua literatura não pode caber em trejeitos porque ela é intolerante a eles. Tanto que uma das críticas da sua literatura é que ela seja incapaz de contemporizar datas porque ela opta pelos desenredos e lacunas.

Elenilson Nascimento, um sagaz escritor que se deforma e que deforma a sociedade quando se descongela numa espécie de rito suicida por linhas quando se confessa tacitamente um anarquista que se revela com alma de Gramsci, ele se lança, altera, vocifera, se locupleta para depois decretar as falências das estruturas morais/sociais outrora instituídas. Ele é o tratamento que mata ao salvar, a morfina, o Tártaro que fica numa espécie de limbo mais sonegado pelas pessoas normais, uma revolta adjacente e que é protagonista da sua própria resiliência literária, pegou Frederico e o jogou com a sua sanha por um mundo que, ao se recusar em ser libertário, decretou o seu óbito. Tenho a impressão que ele se lança por trás das coisas que deveriam ser banidas por serem apenas metalinguagens de si mesmas, ele é a simples escolha pela INTOLERÂNCIA.

Frederico um poeta punk, laureado com um casaco de couro que seria parido como nas páginas de Rilke para ser cuspido no seu jato melodramático diante da vida crepuscular de uma Brasília de Baco. Ele é um espírito dionisíaco exuberante e que desfalecia aos olhos de Fernanda, ambos em Brasília sucumbindo nos seus universos paralelos; ela rica, ele pobre, até se encontrarem numa paixão passional, embora platônica por ele está envolto numa doença misteriosa a AIDS. O impasse se daria no plano absolutamente ou irremediavelmente conjugal, não haveria uma relação de incesto entre dois irmãos ou almas gêmeas.

Diante de duas personagens que eram clandestinas, porque negavam uma existência real, havia o mundo numa espécie de limbo do submundo de uma Brasília podre, plácida em sua política e corrupções tão flagrantes quando desonestas, cidade fétida e arrogante, cenário ideal em que plantou-se Fernanda e Frederico no submundo do poder, nos silêncios de salas de prataria e em formol, nos adros do poder.

As personagens seriam uma espécie de sonâmbulo social onde, logo nas suas primeiras cenas, desposam as suas caras nos espelhos do mundo. Ela, depois de uma transa com um caminhoneiro, uma mulher que se desmantela de si mesma se confessando uma clandestina em etapas; ele a odiar grupos seletos, sendo seletivo. E vemos ali em Fernanda , uma espécie de comiseração espiritual, escritos de Laudicéia (*uma homenagem ao literata, Rogério Elegibô Borges), a existência conturbada e expressionista de Clarice Lispector ou a tirania esquizofrênica de Sônia Coutinho em “Atire em Sofia”. Vemos uma autora que dedilha sobre a sua personagem as esporas de um ser que se vitimiza sendo absolutamente perdulária sexual. Os dramas existenciais de Sophie Calle caberiam também nas digitais de Fernanda, uma mulher atemporal que vivia na década de oitenta com a sua purulenta personalidade, onde antes a autora achava que ela seria uma Malu Mader, mas hoje ela tem certeza, Fernanda é Taina Muller.

Já Frederico, um espírito em incesto com o sonho de uma não fixidez bem próxima da liquidez baumaniana, com uma aparente indulgência (pretexto de uma inteligência sádica e sofisticada) com poetas ultrarromânticos disfarçado pelo empalhamento sádico do Marquês de Sade ou pela veia laureada de Rimbaud. E Shopenhauer dizia: “E as moscas nasceram”, com um tom de uma inutilidade fatal que também acompanha a esfera de um espírito sonâmbulo das drogas, sexo e rock in roll, numa inutilidade de Paulette Pink, uma inutilidade de Nelson Rodrigues, de um Rock In Rio de uma década perdida, uma inutilidade dos ponteiros de Pajero e das laudas de Rilke no último capítulo em que as personagens se confessam clandestinas. Frederico em abandono, Fernanda mais morta em vida se instaurando em discursos naturais.

Duas personagens absolutamente levianas porque se confessaram clandestinas em seus ritos, vomitaram as suas essências mais vândalas, cuspiram em fachadas de expurgo, foram muralistas de sua própria existência solar, dormiram com as suas inutilidades mais venais, olhar para o livro é tomar contato com as esferas mais recônditas de si mesmo, as personagens revelam o quê de erótico, paterno, órfão,incivilizado, politicamente aceito que escondemos por trás de nossas inicias em medo e conchavos.

Frederico, uma personagem capaz de juntar trocados, não se permitia se trocar pelos amealhos de um banco. Fernanda, pobre menina rica, incapaz de se resignar ao ouvir a “Whither Shade Of Pale”, tinha em Frederico uma espécie de alma gêmea peniana, fálica, um espécie de Fausto, de Édipo Rei, dos moinhos de vento mais tênues de qualquer história de amor, daquele hiato de amor paterno e que não poderia se consumar em sendo real ou executado o sexo que as duas personagens tinham de mais forte, então eles se amavam plenamente como dois irmãos: Rômulo e Remo, como a defenestração cerebral e inconteste de Pigmalião e Galateia, recortes da Leona de Tallo que molduravam essa história de duas personagens ,uma que desiste e outra que insiste.

A metalinguagem do livro que é uma personagem arquetípica e revolucionária, em sendo um livro escrito a quatro mãos: Fernanda pelas mãos ávidas de Anna Carvalho; Frederico com as mãos lunares de Elenilson Nascimento, onde, no meio do livro, os dois autores trocam as senhas das personagens e lá no final ambos escrevem o que seria os epitáfios de ambos. Um morto e uma viva também morta, talvez mais morta do que óbito laureado do poeta laureado.

Ler “Clandestinos” é ler a história de um país que, ao cambalear, foi incapaz de se mostrar em riste, de pé, até hoje sendo clandestino de si mesmo, seja nas pradarias de uma literatura perversa e orquestrada, cínica, amparada em nomes ou jargões, na moda, nos belos e belas da Globo ou na barbárie intelectual que chacina a liberdade de expressão em continuamos às margens do politicamente correto. Creio que o livro escrito a quase dez anos, seja o diário mais oficial de um país que ainda coexiste em seu limbo, seja a apologia de um esporro e de seus silêncios de maturação, esteja ávido por ganhar vida nas mãos de terceiros. E que muitos clandestinos se apresentem na sua dinastia ou impérios de costumes para que jamais sentar-se em uma mesa patriarcal seja um ato que se faça impunemente. (“CLANDESTINOS”, de Elenilson Nascimento e Anna Carvalho, romance, 428 págs, Editora Clube de Autores – 2010)

* Anna Carvalho é professora e escritora.


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