Copa do Mundo: basta de fingir que agora você é feliz! | Cabine Cultural
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Copa do Mundo: basta de fingir que agora você é feliz!

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A Copa do Mundo no Brasil

A Copa ser um fiasco não alfabetizará a população muito menos os dementes bêbados nos bares que só sabem reclamar nas mesas; não resolverá o problema da saúde pública, não melhorará os transportes.”

Por Elenilson Nascimento

Cada um vive como bem entender e acredita no que preferir. Há que conviver com quem pensa outra coisa, sente, vive outra coisa. Há que procurar proveito nas diferenças. Porque as diferenças existem e existirão. Agora, há que ter coerência. Em manifestação de rua em Salvador, na tarde de ontem, em meio ao tradicional engarrafamento no Campo Grande, um homem maltrapilho segurava um cartaz: “Sou morador de rua. Quero Copa… cozinha, banheiro, sala, quarto e tudo que tenho direito”. Estamos às vésperas da Copa do Mundo. Recebemos visitas em uma casa que ainda não está devidamente arrumada. Estádios são maquiados só para disfarçar obras inacabadas e aeroportos se parecem com praças de guerra, tamanha a poeira e os ruídos. Mesmo assim a presidentANTA diz na TV que está tudo bem.

Que fique claro logo de entrada: eu respeito todas as lutas! Mas, honestamente, me incomodo, às vezes, quando em nome de uma causa, a gente acaba entrando em questões que não são necessariamente o foco da discussão. Ninguém, até agora, questionou o “legado maléfico” para os trabalhadores brasileiros com a Copa do Mundo que não está apenas nas más condições de trabalho e nos consequentes acidentes fatais (não se contando aqui os vários outros acidentes que não resultaram em óbito e que, muito menos, foram noticiados pela imprensa), o que, por si, já constitui um grande prejuízo, ainda mais se lembrarmos que as obras para a Copa da África em 2010 deixaram 02 mortes por acidente do trabalho, está também na tentativa explícita de culpar as vítimas, buscando atingir a uma impunidade que reforça a lógica de uma exploração do trabalho alheio pautada pela desconsideração da dignidade humana.

Por outro lado, responsabilizar só o futebol pelas mazelas do país não tem nada a ver com outra. Salvar a educação, a saúde, a mobilidade, por exemplo, não significa parar de jogar ou amar o futebol. O problema dessa Copa do Mundo de 2014 é a corrupção e não a Copa do Mundo em si. Esse tipo de reivindicação cruzada sinaliza a fragilidade de nossa maturidade política, quando vamos para a mesa do governo negociar (?) – a partir de critérios próprios e por isso quase sempre preconceituosos – o que ele deve nos dar e o que ele pode nos negar. Pensamento tacanho.

Reclamamos tanto que sempre se muda de foco quando se discute uma luta, pois é isso que se faz ao atacar a realização da Copa do Mundo em nosso país. Batemos na Copa do Mundo e no desejo da grande maioria do povo alienado deste país, quando temos que bater mesmo é no modelo político completamente falido que temos aqui, onde a corrupção impera desde a vendinha da esquina até o Congresso Nacional.

Daniel Alves manda seu recado

A postura subserviente, para satisfazer os interesses da FIFA, chegou ao ponto extremo de algumas cidades, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Cuiabá, Salvador, Natal e Fortaleza, terem atendido pedido feito, com a maior cara de pau do mundo, pelo secretário-geral da FIFA, Jérôme Valcke, para que as cidades sedes de jogos da Copa concedessem transporte gratuito – algo que o Movimento Passe Livre está lutando, e sofrendo, para conseguir há anos –, sendo que a concessão, diversamente do que tem buscado o MPL, não se destina às pessoas necessitadas, mas aos torcedores dos jogos da Copa, que possuem condições financeiras para pagar os altos preços dos ingressos, que chegaram a ser vendidos, no paralelo, por até R$91 mil…

Precisamos, sim, de Copa do Mundo, como precisamos de carnaval, de teatro, de música de qualidade, de novela. Precisamos de Festivais de Teatro! Precisamos de Festas Juninas! Precisamos de Missas, Cultos, Encontros. Precisamos destas coisas todas sem as quais aparentemente podemos ainda assim viver, porque elas são manifestações humanas distintas da necessidade pura e carnal dos animais.

Mas agora é tarde para ficar gritando que o Brasil é uma merda! A Copa ser um fiasco (pois vamos sim passar a maior vergonha do universo) não alfabetizará a população muito menos os dementes bêbados nos bares que só sabem reclamar nas mesas; não resolverá o problema da saúde pública, não melhorará os transportes. Nos deixará na mesmíssima situação de desamparo de todos os dias. É certo que nada tinha que ser roubado. Que se ponha atrás das grades quem roubou – mas isso dificilmente vai acontecer. Mas a partir de amanhã Messi, Neymar, Cristiano Ronaldo, Daniel Alves, a bunda Hulk e todos os outros estarão jogando nos nossos gramados.

Diante do retumbante fracasso dos preparativos para a Copa que estávamos na iminência de ter, dos vários problemas de estádios que não ficaram prontos, do fracasso na venda de ingressos, um outro país já vinha sendo sondado para receber o certame, caso o Brasil falhasse. Honduras, que estava sendo cogitada, se recusou a sediar o evento de última hora pois vai sediar nos próximos meses os jogos estudantis centro-americano.

Contudo, de fato que o governo petista favoreceu o acesso do povo a bens pessoais, mas esqueceu de investir na educação. Qualquer barraco de favela contém geladeira, TV de plasma, máquina de lavar e telefones celulares. Desonerou-se a “linha branca”, congestionaram-se as ruas de carros graças ao crédito facilitado. O que parecia um avanço resultou em equívoco. E os bens sociais? As manifestações deveriam pedir educação, saúde, transporte público e segurança “padrão FIFA”.

O processo de “aceleração do crescimento” deveria ter feito o percurso inverso, a exemplo da Europa Ocidental a partir da Revolução Industrial. Primeiro, educação de qualidade, sistema de saúde socializado e adequado, saneamento, metrôs e ferrovias. E o que favoreceu o acesso aos bens pessoais, malgrado as duas guerras que afetaram o Velho Continente. Mas aqui temos que dá um show de civilidade, e não de ignorância.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


2 respostas para “Copa do Mundo: basta de fingir que agora você é feliz!”

  1. Antonio Prata escreveu na Folha de S.Paulo em 01/06/2014: “A Copa ser um fiasco não alfabetizará a população, não resolverá a saúde pública, não melhorará o transporte”.

    • Sinal que não foi só eu que pensei dessa forma. Mas vc, Doris, pode procurar o alfabeto nesse texto pra vê se acha tb numa gramática ou na Folha. que tal

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