HELENO, um bonito filme sobre um dos maiores jogadores de futebol do Brasil | Cabine Cultural
Críticas

HELENO, de José Henrique Fonseca

Rodrigo Santoro em Heleno

Heleno Filme

Esse ano de 2014 tem sido o Ano da Copa. O Brasil, e grande parte do mundo, com toda a atenção esportiva concentrada na Copa do Mundo. Todos ansiosos (e, também, apreensivos) para saber qual será a Seleção campeã.

Confesso que não gosto de futebol. Assisto alguns dos jogos da Copa, vejo e analiso as notícias, mas, honestamente, nunca gostei de futebol. Não gosto nem entendo quase nada sobre. Sei, por exemplo, o que é um pênalti e, evidentemente, um gol. Mas, até agora, por exemplo, não consigo entender o que é um jogador impedido!

Entretanto, nesse contexto – de uma overdose (necessária) de notícias sobre o mundial do futebol e de transmissões diárias de partidas, quase sempre, empolgantes (mesmo para os que não curtem futebol) – não há como eu não pensar, e trazer à memória, alguns dos filmes, em especial, os nacionais, que já trataram sobre o mundo do futebol. Lembrei-me do não muito bom Garrincha – Estrela Solitária -, do documentário Bahia, Minha Vida, do longa de Ugo Giorgetti – Boleiros – Era Uma Vez o Futebol –, do delicioso O Casamento de Romeu e Julieta e do excelente Linha de Passe.

Todos esses filmes tratam, de forma exclusiva ou predominante, sobre o futebol.

Entretanto, não me senti disposto a discorrer sobre nenhum desses filmes citados acima.

Ao pensar em escrever sobre um filme que tratasse de futebol, nesse contexto de Copa do Mundo, pensei, exatamente, num filme que não é sobre futebol e, sim, sobre um jogador de futebol.

Heleno de Freitas foi um craque, um grande craque do futebol brasileiro. Jogava na posição de atacante, era dono de uma personalidade forte e insuportável, dentro e fora do campo. Botafoguense doente, jogou no Botafogo por quase nove anos, apesar de todos os (graves) desentendimentos que existiram entre ele e os seus colegas de time, entre ele e, até mesmo, a presidência do Botafogo. Nunca foi campeão pelo seu time de coração e, sim, pelo Vasco da Gama, anos depois, após uma (problemática) temporada no Boca Juniors, da Argentina.

Um dos seus sonhos era disputar uma Copa do Mundo. Entretanto, em dois momentos, devido à Segunda Guerra Mundial, o campeonato foi cancelado, em 1942 e 1946. Formado em Direito, vindo de uma família mineira, de posses, Heleno era bastante mulherengo, era viciado em éter, um fumante inveterado e tinha sífilis, doença que, por total falta de tratamento (escolha do próprio Heleno, que não se tratava por ignorância e macheza), o levou à morte. Foi casado com Ilma (no filme, Silvia) e teve, apenas, um único filho, com quem mal teve contato.

Heleno Rodrigo Santoro

Heleno

O filme HELENO, de José Henrique Fonseca, narra a vida deste talentosíssimo e problemático jogador de futebol. Numa muito bem vinda narrativa não linear, Fonseca mostra os momentos de luxo, luxúria e glória, do jogador, em constantes paralelos com sequencias que mostram a degradação deste homem, belo e rico e aparentemente saudável, num homem doente, raquítico, feio, com dentes podres e, lembrado, apenas, pelos familiares mais próximos, em especial, a ex-mulher Sílvia que, durante a estadia de Heleno em Buenos Aires, envolveu-se e, posteriormente, casou-se com Alberto, amigo de Heleno, também jogador do Botafogo.

Heleno é interpretado pelo sempre excelente Rodrigo Santoro, aliás, um dos produtores do filme. Sua atuação é altamente convincente tantos nos momentos de glória, de Heleno, como nos momentos trágicos, de explícita penúria. Aliás, Santoro é responsável pelos melhores momentos do filme, como, por exemplo, na cena em que o técnico solicita que Heleno fale um pouco para os seus colegas, incentivando-os a darem tudo de si, numa partida de futebol que estava para acontecer. Ao invés de fazer o que técnico pedira, Heleno expõe uma verdade já conhecida (ou, pelo menos, desconfiada) por todos, inclusive, pela imprensa: de uma maneira extremamente honesta, ele arrasa seus colegas, mostrando o quanto eles são incompetentes e desprovidos de garra e vontade de vencer, sendo, ele, Heleno, o único responsável pelas vitórias do Botafogo.

Talvez por Rodrigo Santoro ser o ator que ele é – perfeito, na minha opinião, mesmo nos tempos em que ele atuava em novelas – e por Heleno ser um personagem de uma grandeza dramatúrgica inquestionável, tenha sobrado, no filme, pouco espaço para os outros atores. Alinne Moraes, que faz Silvia, mulher de Heleno (que, na vida real, como disse, chamava-se Ilma), está linda e faz, de forma correta, o seu papel, assim como todos os outros coadjuvantes.

De todos os perfeitos aspectos técnicos deste filme, destaco a fotografia – a bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho – assim como o fato de o roteiro não seguir uma narrativa linear e, mesmo não mantendo tal tradicional forma de narrar, conseguir manter uma clara coerência, sendo perfeitamente compreensível do início ao fim. A reconstituição de época, inclusive – o filme se passa no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950 – é também um ponto a favor da obra de Fonseca, em especial na retratação do tradicional hotel Copacabana Palace, uma das moradias mais constantes de Heleno.

José Henrique Fonseca, à época do lançamento, disse que Heleno não era para ser Um Domingo Qualquer, filme de Oliver Stone, sobre futebol. E ainda bem que não é! Em Heleno há, apenas, uma cena de jogo de futebol. Aliás, uma bela sequência.

Estamos, sim, em plena Copa do Mundo de 2014, e pensei em Heleno exatamente por conta deste período, conforme já informado. E, também, por não ser um filme sobre futebol e, sim, um retrato cinematográfico muito bem feito de uma pessoa arrogante, prepotente, bonita, sensual, talentosíssima, e infeliz.

Heleno era tudo isso e, provavelmente, muito mais. Contudo, ele tinha algo que – mesmo sem entender nada, repito, a respeito de futebol – não consigo perceber na grande maioria dos jogadores: uma sincera paixão pelo seu time e uma explícita determinação em vencer.

Há uma cena em que os jogadores, no vestiário, recebem um prêmio, em dinheiro, mesmo, a maioria deles, não tendo jogado bem. Heleno recebe, também, a sua parte e, debochado e, ao mesmo tempo, irritado, caminha, pelo vestiário, discursando sobre o absurdo que era os colegas estarem recebendo dinheiro, mesmo tendo sido, todos eles, protagonistas de uma péssima partida de futebol. Heleno queima, literalmente, na frente dos seus colegas, a parte que ele também havia recebido.

Num contexto atual, no qual os jogadores de futebol são, sim, atletas, mas são também – ou bem mais – celebridades, alguém consegue imaginar alguns deles queimando dinheiro, por achar que não foram bem em campo e, por isso mesmo, não merecedores de prêmios em dinheiro?

Acredito que não! Afinal, de fato, os tempos são outros. E os valores éticos e profissionais, também!

Heleno de Freitas, de acordo com o livro no qual o filme se inspirou – Nunca Houve um Homem Como Heleno, de Marcos Eduardo Novaes – e de acordo, evidentemente, com o roteiro do filme, não era uma pessoa boa: a arrogância, a prepotência e o desprezo pelos outros dominavam sua personalidade. Mas ele era um profissional talentoso. Isso é indiscutível. Era um excelente jogador de futebol. E amava o que fazia.

Um amor que, mesmo eu não entendendo bulhufas de futebol (enfatizo!), não consigo visualizar ou, até mesmo, perceber, na maioria dos jogadores considerados craques mundiais.

Mauricio Amorim é Professor de Linguística e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Especialista em Linguagens e Mídias Audiovisuais, Cineasta e Colunista do Cabine Cultural.







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