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O sucesso de Namíbia, Não! em Salvador!

Espetáculo Namíbia, Não

“Felizmente hoje já há escritores de verdade e que não têm sobrenome Amado que se aproximam celeremente de outras linguagens e que se sentem na obrigação de questionar e nos fazer não aceitar certas regras.”

Por Elenilson Nascimento

Todos os grandes momentos da música, do cinema, do teatro, da Arte em geral, em todos os tempos, coincidiram com momentos de instabilidade política, degradação da sociedade, de superação de modelos, de afirmação de novos modelos. Sófocles, por exemplo, vivia numa democracia que aceitava a escravidão e incentivava um imperialismo que acabou por detonar com Atenas (*confira no filme “Pompéia”). A época do pai de Romeu e Julieta testemunhava a prosperidade da monarquia inglesa, mas tinha a Invencível Armada nos calcanhares. Tchekhov retratou a nostálgica decadência da aristocracia rural russa, enquanto o proletariado ensaiava seus primeiros passos. Brecht foi outro que escrevia, essencialmente, sobre as relações de poder num mundo já dividido entre o capitalismo e o comunismo.

E sair de casa, em plena época de Copa do Mundo, numa sexta-feira modorenta, para ver uma sessão gratuita de teatro. Quem se habilita? É, pelo o que eu pude perceber no Espaço Xisto Bahia, Barris, em Salvador, no último dia 27/07, são muitos os que se dispõem a contrariar a preguiça, a alienação e a cura mental imposta pela mídia – mais que justa, aliás, nesses tempos de correria e estresse. Mas, se você soubesse que o programa vale realmente o esforço? Se lhe dissessem que a peça em questão foi especialmente selecionada para atender à sede de novidade, de saber e de arte? Foi exatamente isso o que aconteceu!

O espetáculo Namíbia, Não!, que marcou a estreia de Lázaro Ramos na direção, e que já se apresentou em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Fortaleza, Brasília, Vitória, Porto Alegre e Recife, voltou à Salvador para fazer uma micro temporada. A peça critica com muito humor rasgado as relações humanas levadas ao extremo e da aceitação passional do outro na sociedade. No elenco, Sérgio Menezes (ator renomado e com vários trabalhos na TV e no cinema – destaque para a série gay “Cariocas” e uma entrevista arrebatadora no antigo blog Literatura Clandestina que o Google excluiu) interpreta André, um confuso estudante de Direito, além do impagável Aldri Anunciação, que também assina a autoria do texto que foi premiado com um Prêmio Jabuti de Literatura 2013, encarna um bem-sucedido advogado.

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Agraciado com quatro prêmios, o texto do deslumbrante e simpaticíssimo Aldri resvala no absurdo para tratar de identidade, racismo, corrupção, falta de perspectiva, alienação, entre outras questões. “Namíbia, Não!” instiga os espectadores a repensarem suas origens, sobre quem são realmente no momento presente e as consequências do processo de desenvolvimento histórico. A peça trata da atual situação do afrodescendente brasileiro que ainda é lamentável, onde o melhor presente que a população negra poderia receber nesses anos de “desescravização” seria, precisamente, o Estado brasileiro aprofundar mais as políticas de igualdade social. Não só através de cotas nas universidades e nos concursos públicos, o que não resolve a situação, mas através de debates, incentivos intelectuais, independência de pensamento e, principalmente, dignidade.

Público no Espaço Xisto Bahia, Barris, 27/06, esperando para conferir Namíbia, Não

E enquanto algumas pessoas se preocupam demais com as teorias de conspiração no mundo virtual, coisa muito comum em ditaduras, com a contusão de Neymar, os verdadeiros questionamentos e conspirações são feitos fora das redes sociais, pois se essa seleção cambaleante, que serve exclusivamente ao poder e aos poderosos da FIFA e do PT, inclusive na comoção, na heroicização de meia dúzia de garotos de bermudas quase transparentes e meiões, comoção que deveria ser igual aos brasileiros mortos com a queda do viaduto em BH ou nas cracolândias das cidades, o teatro reflete a própria fragmentação desse homem contemporâneo.

A história de “Namíbia, Não!” acontece no ano de 2016, quando o governo brasileiro decreta uma medida provisória obrigando que todos os de “melanina acentuada” sejam capturados e enviados imediatamente à África, provocando, em pleno século XXI, o revés da diáspora vivida pelo povo africano do Brasil escravocrata. Apesar de ter achado a direção do Lázaro muito fraca, a luz pífia e as cenas com uso exagerado de vídeos dispensáveis, a peça cumpre sim a sua função de informar sem ser chata. E o Sérgio de cueca preta ficou engraçado! Vai ser um belo comediante!

Para a rica funcionária pública, formada em Direito, Patrícia Souza, a peça discute de maneira crítica e dialética a questão da afrodescendência no Brasil:

“Adorei o espetáculo. A abordagem da questão identitária cultural é feita de forma bastante inteligente, com levantamento de questões que permeiam o cotidiano da população de um modo geral. Outra grande sacada é a linguagem simples e direta fazendo com que seu público tão diversificado saia do teatro refletindo sobre as tensões e problemas herdados do nosso processo colonizador”, disse.

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Mas a medida, no texto de Aldri, é uma ação não só de reparação social aos danos causados pela União, e nisso não se pode mais falar de teatro apenas como entretenimento, mas do teatro com função de educar, pois, por mais importância que tenha o texto – ainda um elemento central da criação cênica -, hoje já há escritores de verdade e que não têm sobrenome Amado que se aproximam celeremente de outras linguagens e que se sentem na obrigação de questionar e nos fazer não aceitar certas regras. Arte de massa é rádio, televisão, cinema. Teatro é uma experiência estética diferente, e isso não é necessariamente ruim, mas o formato encontrado para o texto do Aldri foi a comédia, pois, segundo o autor, o humor agrega e une as pessoas quando ele é apresentado sem desrespeitar ou acusar o próximo.

Se hoje os vídeos, projeções, imagens e as performances no palco se misturaram com artes plásticas, cinema, literatura, em “Namíbia, Não!” o que mais deveria importar seria o acabamento e o aprofundamento de cada proposta. Segundo Elenia Cardoso, formada em História, a identidade do negro do Brasil ainda é muito insatisfatória:

“A questão da ‘falsa democracia racial’ é o grande entrave da consciência sócio política e racial da população ‘afro’ descendente brasileira. E a miscigenação que é um fenômeno que torna o Brasil único mediante a formação da população brasileira nos proporcionou fenótipos muitos diferentes, como uma forma de ‘saída’ de aceitação na escala social”. Cardoso ainda afirma que a personagem que morre pensando que sente “falta de ar” reflete bem o senso comum brasileiro: “Ele morre pegando ar para não pegar uma visão”. E complementa: “A África ainda soa como este continente desconhecido… estereotipado e estigmatizado enquanto ‘fornecedor de mão de obra escrava’ para o projeto colonizador chamado Brasil. Já pelo título da peça, o autor já dá um choque de lucidez nos menos desavisados de que Namíbia é um país do continente africano. A questão do fenótipo e traços define o teor da afro-descendência entre os brasileiros, então ter uma pele de melanina não tão acentuada, nariz estreito, cabelo bom, lábios finos, não faz alguém mais ou menos negro e isso cabe aos professores e as mídias discutirem estes assuntos… Quem são os negros que vieram escravizados para o Brasil? Nossas crianças e a nossa população precisa saber…”, disse a contundente Cardoso.

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Namíbia, Não! Espetáculo escrito por Aldri Anunciação

O teatro brasileiro cumpre a sua função quando assimila essas informações, mesmo que isso, muitas vezes, chegue ao público com algum atraso. E o teatro baiano, infelizmente, com um atraso maior ainda. Mas o que poderia ser um aspecto negativo tem lá o seu lado bom, como foi o caso do “Namíbia, Não!”: um teatro independente, desafiador, crítico, artesanal, singular e próprio. E isso não é pouco. Chupa globais!

Na peça, para não incorrer no crime de invasão a domicílio, os negros só podem ser capturados na rua. Assim, André e Antônio passam o dia trancados num apartamento, debatendo questões sociais e econômicas da vida atual, seus anseios pessoais e as consequências de um iminente retorno à África-mãe. Com o teatro lotado, acredito que muito estavam ali pela primeira vez, será que conseguiram captar o que e cortina de fumaça tentava descrever na montagem que em 2013 atravessou o oceano e foi parar em Portugal?

É muito complicado falar de cultura em um país que não tem uma educação básica. O teatro ainda é dirigido para um público de elite que busca os espetáculos muito mais pela “mídia” do que por suas qualidades dramatúrgicas, ou a excelência de seu elenco. O público, infelizmente, está se habituando a um teatro inócuo, superficial. Mas existe também uma crise na dramaturgia. São raros os bons textos de autores contemporâneos, como foi o caso de “Namíbia, Não!”. Outro detalhe importante é que Salvador é uma cidade provinciana com poucas salas de espetáculos, peças caras, o que também dificulta a permanência de uma peça por um tempo maior para que ela possa atrair um público. Enfim, não poderia resumir toda a questão em poucas linhas. Na verdade, a situação do teatro no Brasil sofreu boas e más transformações nos últimos anos. Mas, como disse o Aldri no bate-papo feito após o espetáculo:

“Penso que o racismo ainda é uma ferida aberta no Brasil. E é um assunto que ainda incomoda muito as pessoas. A inspiração para escrever essa peça surgiu a partir do desejo de encontrar um formato que atraísse o espectador para o debate sobre o preconceito racial.”

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina




Uma resposta para “O sucesso de Namíbia, Não! em Salvador!”

  1. os descendentes dos mercadores de escravos, dos senhores de ontem, não têm, hoje, de assumir culpa pelas desumanidades provocadas por seus antepassados. No entanto, têm, eles, as responsabilidades moral Cultural e política de combater o racismo, as discriminações e, juntamente com os que vêm sendo mantidos à margem os negros. Gostei muito da sua opinião Elenia Cardoso! (Quem são os negros que vieram escravizados para o Brasil? Nossas crianças e a nossa população precisa saber…”, disse a contundente Cardoso.)

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