Crítica O Rebu: novela da Globo é frescor no envelhecido mercado televisivo
Televisão

Crítica novela O Rebu

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O Rebu Novela das 23 horas da Rede Globo

Novela que tem roteiro de George Moura e Sérgio Goldenberg, mesma dupla de Amores Roubados, é material tipo exportação da Rede Globo

Por Luis Fernando Pereira

Assim que começa a história um enorme e maravilhoso plano sequência é mostrado, com todos os convidados de uma festa na pista de dança, ou em espaços próximos; neste momento, grande parte do elenco da nova aposta da Rede Globo, a novela das 23 horas O Rebu, já é apresentado ao público, de uma maneira que poucas vezes vimos na televisão brasileira. A protagonista da história Angela Mahler, interpretada com absurda segurança pela cada vez mais bela Patrícia Pillar, é captada por closes, e sorridente, se insinua para Gilda (estupenda Cássia Kiss Magro), que ficamos sabendo depois ser sua sócia na empresa que comanda. A câmera passeia pela festa, no ritmo da música, encontra Duda (Sophie Charlotte), Carlos (Tony Ramos), outros convidados, até que largamos à área interna e nos dirigimos para fora da casa; chove bastante, e numa aula de fotografia (dada pelo mestre brasileiro Walter Carvalho), a novela apresenta de um modo que podemos dizer poético o corpo de um rapaz submerso na piscina da mansão. O Rebú oficialmente havia começado. Da melhor forma possível.

A história em tese não é nova, já que se trata de um remake da obra original (escrita por Bráulio Pedroso em 1975), porém, pelos diálogos, tramas e subtramas e referências, dá para afirmar que somente a premissa básica foi mantida. E qual seria essa premissa básica? Bem, ambientar toda a história (36 capítulos) em um único espaço, nua única noite. E a partir daí descobrir o que aconteceu de fato com o corpo jogado na piscina, que logo no meio do episódio de abertura descobrimos se tratar de Bruno (Daniel de Oliveira). Neste instante a versão de 2014 já se distancia de seu original, que deixou para o fim a descoberta da identidade do morto. E o distanciamento continua com as temáticas e referências utilizadas, onde o Pré-sal e o Facebook possuem importância estratégica, para a trama e para o projeto, já que certamente um dos principais objetivos da novela é se transformar em febre nesta rede social.

Linearidade
Um dos aspectos mais festejados, ao menos nos primeiros capítulos é a falta de uma cronologia linear da história. Tem sido de um prazer muito maior descobrir aos poucos, através de flashbacks, as camadas que a história, e seus personagens possuem. Numa das primeiras cenas, uma das mais lindas até aqui, assistimos a linda e promissora atriz Sophie Charlotte (a Duda) cantando de modo arrasador a canção Sua Estupidez. Ao final dedica para o grande amor da vida, Bruno. Naquele instante a frase e toda a performance ficam um tanto deslocadas, pois não sabemos ao menos quem é esse Bruno. Porém, no mesmo episódio, e principalmente seguinte, vemos, através de flashbacks, o quão marcante foi para a moça a relação com ele. Numa das últimas cenas do segundo capítulo, os dois estão na cama, nus, ela levanta, vai à varanda. Ele vai atrás dela e fazem amor ali mesmo. Suas expressões são suficientes para perceber quão envolvida Duda estava na relação, terminada por conta de um caso que ele tinha com Gilda, a sócia de Angela.

E desta última frase fica um dos pontos mais interessantes na novela: Muitos dos convidados da festa tinham motivos suficientes para querer o rapaz morto. Mesmo ainda não sabendo (estamos na primeira semana) se ele foi realmente assassinado, já brincamos com aquela ideia de descobrir quem matou, e neste jogo são muitos os suspeitos, a começar pelo marido de Gilda, Bernardo (José de Abreu).

Carlos Braga (Tony Ramos ) e Lídia (Bel Kowarick)

Fotografia
É sempre bom contemplar os trabalhos de Walter Carvalho, seja na televisão, seja no cinema, sua sensibilidade com a arte de fazer de trabalhar a fotografia beira a perfeição. Em O Rebu não é diferente, e ele traz desta vez uma fotografia escurecida, quase preta-e-branca, que certamente traz influências cinematográficas. Toda a sequência da piscina me fez lembrar Crepúsculo dos Deuses, um dos maiores clássicos do cinema, que também se utiliza desta atmosfera quase noir para mostrar um corpo submerso em uma piscina.

Existe uma preocupação corrente de que esta fotografia mais escurecida, que muitas vezes chega a atrapalhar a identificação dos personagens, pode jogar contra a novela, principalmente se levarmos em consideração o fato do público que vê novelas, o próprio mercado da Rede Globo, é composto por pessoas das mais diferentes classes sociais e dos mais diferentes níveis de educação. Neste sentido, O Rebu pode se transformar numa novela de nicho, voltada somente para o público cult e alternativo. É uma preocupação compreensível, mas secundária, pois acredito que a qualidade de um trabalho deve sempre prevalecer, mesmo que inicialmente não agrade um grande público. Talvez a Globo esteja finalmente pensando desta forma, com o objetivo (porque tudo é comércio) de entrar no mercado global de séries, produzindo histórias com qualidades que se assemelham às séries americanas, sobretudo dos canais fechados, como HBO.

Acredito muito no sucesso de O Rebu, pela ousadia narrativa apresentada, pelo elenco maravilhoso e extremamente talentoso (nem falei de Camila Morgado, Vera Holtz, Marcos Palmeiras…), pelo roteiro acima da média, pela fotografia majestosa de Walter Carvalho, pelo trabalho de direção de arte, pela premissa, pela trilha sonora e por dezenas de outras razões. Mas como ainda estamos na segunda semana, muita coisa poderá acontecer. Resta-nos esperar e torcer.


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