Entrevista com a atriz Evelin Buchegger
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Entrevista com a atriz Evelin Buchegger

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Evelin Buchegger – Divulgação

Creio que atualmente estamos numa entressafra, no que diz respeito à quantidade de obras produzidas, mas ainda assim, produzindo coisas interessantes, exportando tanto produto quanto de mão de obra…” (E.B.)

Por Elenilson Nascimento, Anna Carvalho & Uarlen Becker

Quando a introdutora do feminismo, Simone de Beauvoir, disse: “A mulher não nasce, torna-se…”, ela não pensou em traduzir o escopo de muitas mulheres que, ao escolherem se tornarem, fossem escolher o ônus da autenticidade, do descaminho, da natureza exuberante de questionar ritos, tabus, mesmo se escamoteando no clichê da realidade. Assim é a atriz carioca/baiana Evelin Buchegger e a sua verve que instauram em tudo o que tocam, pelo que vivem e servem, fazendo-as acontecer.

Nascida Evelin Dinorah Beltrão Buchegger, no Rio de Janeiro, mas que passou toda a sua infância em Dias D’ávila, interior da Bahia. Em 1990, aos dezoito anos, muda-se para Salvador, onde inicia os seus estudos no Curso Livre de Teatro de Escola de Teatro da UFBA e começa a receber convites para vários trabalhos no teatro. Em 1998, apresenta “Carne Fraca” e “Noite na Taverna”, ambas com Fernando Guerreiro, com quem trabalharia diversas vezes, entre elas em “Idiotas que Falam Outra Língua”, pela qual recebe o Prêmio Copene de Teatro na categoria melhor atriz. Em outra parceria com Guerreiro, “Brasis” (2002), sua atuação é novamente consagrada com o Prêmio Braskem de Teatro. Inicia, então, uma gloriosa sequência de trabalhos para televisão e cinema, como no excelente “Anjos do Sol” (2006), de Rudi Lagemann; “Jardim das Folhas Sagradas” (2011), de Pola Ribeiro; e também “O Homem Que Não Dormia” (2011), de Edgard Navarro.

Em 2008, estreia como vocalista da hilariante Banda Limusine (*uma das melhores bandas alternativas de Salvador). Capaz de trabalhar o humor de modo inteligente – coisa não muito comum nos atuais palcos brasileiros. O improviso é também um elemento marcante em sua trajetória, e apareceu cedo, quando participa de algumas peças ainda na adolescência, o que até a levou a apresentar programas numa rádio em Salvador.

Hoje, no plano social, se o feminismo já se torna clichê, a mulher tornou-se muita coisa, embora muitas dessas coisas a tenha tornado também neste espetáculo incivil da vida cultural de uma metrópole em seu complexo ortodoxo de pequeno feudo, Salvador, da Baía de Todos os Santos, mas que Evelin Buchegger tem se tornado o ser indispensável a versar sobre a vida, arte, costumes, ou talvez, com seu silêncio em nada silente, conversando nessa entrevista sobre os diálogos que esta cidade, em sua sensatez de província, não tenha a coragem de escutar.

EN – Você parece ser a pessoa mais de bem com a vida, mais informada e totalmente dada que eu conheço, mas o que ainda lhe aborrece numa cidade como Salvador?

Evelin Buchegger – Divulgação

E. Buchegger – Tento ficar de bem com a vida. Uma vez ouvi que “viver é sempre um aprimoramento”, então, vivendo aqui em Salvador, o aprimoramento é mais trabalhoso, os aborrecimentos vêm crescendo a cada ano, o barulho me aborrece, a sujeira, a bagunça… ruído decorrente da falta de educação e administração.

EN – O motivo da pergunta anterior é porque, no Brasil da intolerância e do atraso, até a plateia é linchada na sessão de um filme. Tô falando de “Praia do Futuro”, de Karim Aïnouz, onde o Capitão Nascimento virou, segundo uma colunista do A Tarde, uma espécie de barbie-salva-vidas. Não me espantou nada essa reação burra de ignorância num país que acha que ser macho é ter rola grande e nenhum cérebro. Como você encara essas coisas, acha que isso tudo é uma consequência “natural” de outras obras machistas, como “Tropa de Elite 2”, quando o tenente-coronel já dava indícios de que ia afrouxar a … disciplina? (*piadinha ridícula e vinculada no mesmo veículo da província)

E. Buchegger – A sexualidade na humanidade revela muitas coisas, ainda mais em algumas regiões do Brasil. Se você perde a razão, no caso da agressão num acesso de machismo, há algo a ser avaliado mesmo, e um filme despertar isso em vários lugares onde foi exibido. E ainda mais carregar uma expectativa de um outro personagem que o ator fez… Para uma sociedade dessa acompanhar uma possível mudança de conceito de gêneros e papéis sexuais, vai dar trabalho. O machismo é muuuito antigo, a contemporaneidade é da mudança, agora como fazer essa e outras mudanças é que são ELAS…

EN – Ler só uma manchete alarmista faz mal para a democracia, tipo: “os black blocs voltam à grande mídia”?

E. Buchegger – Estamos sujeitos mesmo dentro da democracia, a esse tipo de manchete; cabe ao ser pensante variar as fontes de informação a que tem acesso, de modo a ter diversas perspectivas diferentes, e poder construir a sua visão da realidade.

EN – O mundo ideal será feito quando cada escritor masoquista encontrar o seu perfeito leitor sádico?

E. Buchegger – Para cada livro? (risos) Para toda obra existe sempre um espectador, cabe a ambos esta busca pelo encontro… Muito embora, imagino que o ser humano nunca vai estar satisfeito mesmo com o mundo ideal, por melhor que ele seja, o homem é sonhador por natureza…

EN – Falar de arte em Salvador é uma coisa perigosa. Nessa cidade rasa, muitos pseudoartistas acham que o que estão fazendo no seu círculo são suficiente para mudar a visão de muita gente. Criticar uma peça, por exemplo, é quase um pedido de ser enquadrado por esses numa penitenciaria! Resultado: todo mundo diz que gosta do texto, do ator, do diretor e etc… vide o Prêmio Braskem. Todos querem aparecer sorridentes ao lado de uma Wanda Chase e ser chamado de celebridade. Eu chamo isso de síndrome Dorian Gray. Paulinho Boca de Cantor e Márcia Short foram um dos poucos que vi bradar contra essa política da boa vizinhança. Como você manifesta a sua inteligência na convivência com esses bajuladores do lugar comum?

E. Buchegger – O negócio é não dar Ibope para isso, nem bem nem mal, “Nem Nem” , agora se você tem um bom trabalho, muitas vezes (pode até demorar) mais a mídia vai correr atrás, o retorno que uma mídia dá é sedutor, mais nem por isso vamos baixar a ‘caçola’. De toda forma, não concordo com isto de que vivemos numa cidade rasa, creio que o grande público está sim ligado e buscando o entretenimento puro e simples, mas existe com certeza público e obras para todos os gostos, basta saber procurar nos meios certos.

AC – Defina arte, se a arte foi feita em nome e pelos pares de uma elite…

E. Buchegger – Nada… A arte é o que move, o que transforma, atemporalmente, basta se estar vivo para sentir seu poder.

UB – O que você tem a dizer sobre essa política cultural do mais do mesmo da atual administração “Bahia, minha porra”?

E. Buchegger – Acredito piamente que existe um grupo de pessoas lutando bravamente para viabilizar a produção cultural e a consequente distribuição desta produção para toda a Bahia, num rolé pelo interior do Estado se vê muita gente que nunca havia assistido a uma peça de teatro, muito agradecido por sua cidade, às vezes bem pequenininha, haver entrado no circuito de espetáculos, ou mesmo de um espetáculo criado no interior, com potencial para se apresentar em qualquer lugar do mundo, não mais estar fadado a apenas acontecer uma vez no clube da cidade e nunca mais…

UB – O que é o teatro feito na Bahia?

Evelin Buchegger no musical infantil Papagaio

E. Buchegger – Creio que atualmente estamos numa entressafra, no que diz respeito à quantidade de obras produzidas, mas ainda assim, produzindo coisas interessantes, exportando tanto produto quanto de mão de obra… Um dos problemas que vejo é a dependência da verba pública para produzir cultura, hoje em dia ninguém busca mais criar uma obra qualquer se não houver o aporte financeiro do estado; ninguém, nem mesmo os artistas, acredita no poder de convencimento da obra de arte, somente na divulgação através da mídia, nunca no boca-a-boca, resultado de uma obra de qualidade a que o público se apaixona, volta para ver de novo, comenta no trabalho, na escola…

EN – Deixa eu te confessar uma coisa: me sinto triste em morar em Salvador. Acho que estamos vivemos a época da desinteligência, onde até o meio acadêmico aliena, época onde estamos rodando em círculos e sem nenhuma perspectiva. O meu inconformismo é a minha solidão. Prefiro mil vezes permanecer com meus amigos mortos (*agora lendo “Mrs. Dalloway” e a negatividade de Bernardo Guimarães) do que ter a companhia dos vivos. Nesse período da Copa onde, provavelmente, até os terreiros deixaram de receber os santos porque a Fifa também proibiu, como você faz para ser abduzida dessa terrinha medíocre?

E. Buchegger – É… tem umas coisas que influenciam mesmo seu bem estar, agora o mais difícil é o aprendizado de não sofrer nem se envolver com essas situações todas. A tendência é a demora da mudança, o que me cabe é estar bem em qualquer lugar, e não deixar que a minha felicidade dependa do externo, nesse caso teria que mudar para outras bandas da terra, se é que existe algum lugar no planeta que esteja melhor… A cultura é tudo que está ao nosso redor, nestes tempos de internet, você pode ter acesso a tudo que é produzido no mundo em questão de segundos, cabe a cada um encontrar o que mais satisfaz seu intelecto…

AC – Como mobilizar a arte em camadas que geralmente não têm acesso, mesmo entendendo a arte numa plataforma de comunicação mais abrangente e necessária?

E. Buchegger – O querer, e ele é testado o tempo todo. A Arte em todas as suas classificações, ela abre a visão para a vida, e são essas pessoas que não têm acesso , que muitas vezes nos surpreendem, por serem genuínas em sua Arte. Temos muito que aprender ensinando, e sem apoio para que isso seja realizado o trabalho dobrado, mais ainda assim tem gente que consegue, e o apoio vem com tudo depois das duras penas, a questão é não desistir.

EN – Depois que o presidente do STF, Joaquim Barbosa, tornou-se alvo de uma série de constrangimentos orquestrados por seguidores petistas condenados por envolvimento no maior escândalo de corrupção da história desse país, agora os escolhidos para Cristo são os blogs e sites excluídos pelo Google, o pessoal da TV Revolta ou qualquer um que tenha um discurso diferente da grande massa de bitolados. Gostaria de saber de você o porque que os formadores de opinião, artistas, jornalistas, professores e etc. nunca se manifestam sobre assuntos ligados à política?

E. Buchegger – Eu penso que é preciso ter uma boa forma de expressar, falar de assuntos polêmicos tem que ter uma boa retórica, sem julgamentos egóicos, bom senso nessas horas é difícil, a exposição causa contestações ferozes que podem desestimular a discussão, mas o combate honesto de ideias é sempre bem vindo.

AC – Gregório de Matos já definiu a Bahia como um burgo em que se esquadrinhava a vida alheia, claro que destacando a vocação de província que existe nos recantos baianos. Se concorda, justifique, se discorda, por favor, apresente uma réplica.

E. Buchegger – Talvez exista muita gente mal acostumada a esquadrinhar a vida alheia, isto deve acontecer em qualquer lugar onde a inteligência não predomine, mas sabendo procurar você vai encontrar muito mais pessoas que se preocupam em construir seus trabalhos honestamente, comprometidos com a obra pela obra, e, principalmente, sem ligar para o que os outros estão fazendo ou deixando de fazer.

EN – A chamada militância virtual do PT, treinada feito cães de guarda pela falconaria do partido para perseguir e difamar desafetos políticos, anda caçando qualquer um do contra de forma implacável. Lembrei da sua peça “Brasis”, mas sinto muita falta de outros espetáculos sobre o assunto. O que você acha desse modismo de tantas comédias ao mesmo tempo agora?

Evelin Buchegger

E. Buchegger – A comédia é um ramo delicioso, e que em tempos difíceis é o único meio de abrir o pensamento do público através da crítica risível… Tem que ter espaço para todos , também sinto falta de peças como ‘Brasis’, de músicas que tanto serviram para mudar gerações, mas não posso julgar o que se passa na cabeça de alguém que despendeu horas de estudo, ensaio, produção, … Não sou muito chegada a comédias ‘pastelão’, mas defenderei até a morte o direito delas existirem, apenas ‘euzinha’ não corro atrás de produzir nada neste sentido, por enquanto pelo menos, mas se em algum momento aparecer alguém com uma proposta bacana de um texto bacana, pode ser comédia, arrocha, se me tocar, entrego-me de corpo, alma e mente…

EN – Como você explicaria a fragilidade e a força das bibliotecas, dos livros, da educação, do teatro, do cinema em geral?

E. Buchegger – Interessante as palavras escolhidas nas perguntas, pois, de fato, há ao mesmo tempo uma fragilidade e uma força concomitantes e em eterna luta nestes ramos do conhecimento artístico. A chamada alta cultura, óperas, tragédias, nunca se pagam através da bilheteria, são caras e o público geralmente não tem interesse em fruir estas obras, mas ninguém discute o poder da música clássica, por exemplo… Hoje é cada um por si , no meio de tanto alcance muitas vezes temos que fazer tudo sozinhos, e ser brasileiro, baiano, sertanejo, é antes de tudo ser um forte, sem uma boa administração a fragilidade é fato, e rápida a degradação, então devemos buscar a diferença através da boa escolha, o que não falta é material de estudo e trabalho…

AC – Você já confessou que quando vê um artista, obra de arte, você acha que a humanidade tem jeito. O que não tem jeito para você, se considerarmos a falta de direção e de projeto num país que se entende como “pátria de chuteiras”?

E. Buchegger – O que não tem jeito é a morte ou o que não é verdadeiro. Nada pode impedir o querer de produzir, e evitar que a obra aconteça. Cansa, mas devemos ter força todos os dias, mesmo sem apoio, nada deve mudar seu propósito, a fé constrói, e o objeto construído pode vir a mudar gerações…

AC – Uma provocação para alguém que pode ser muito dissonante: pátria cabe em pés?

E. Buchegger – Cabe “em pé” sempre, nunca deitado em berço esplêndido; e os pés devem ser bem distribuídos em cada região, e para tanto podem estar descalços, de tamancos ou sandálias de couro, mas sempre cientes de que o chão dessa pátria é sadio, e que podemos comungar a força de cada Estado do país, e melhorar sempre, estudando, planejando, criando caminhos menos espinhosos e mais responsáveis…

EN – Quem seria hoje a voz dessa geração conectada o tempo todo?

E. Buchegger – Jesus, Irmã Dulce, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela…, todas as vozes estão aí para serem ouvidas, conectados ou não, o que cabe a cada um é escolher o que vai acreditar e passar adiante…

EN – Depois que a pessoa morre, falamos: “coitado”. Às vezes é heróico. Pra mim, cotidiano é o grande tesouro! Ortega y Gasset dizia: “Adimirar-se daquilo que é natural é que é o bacana”. Mas você é do tipo que acha que a morte é que dá um perfil para todos nós ou apenas entorpece?

E. Buchegger – Ela dá um perfil, revela também, outro conceito que precisamos mudar, o da tristeza da morte. Vivemos para aprender a cada dia como sair daqui bem e deixar todos bem.

UB – Você apoiaria que seu filho/filha quisesse seguir a carreira de artista de teatro?

E. Buchegger – Quero apoiar o que ele/a quiser de verdade.

UB – Quem é o público de teatro da Bahia?

E. Buchegger – O público está aí para ser fisgado por uma obra que o revele, vi isso da década de 90, vi agora há poucos dias em Salvador com ‘A Alma Imoral’, espetáculo que vem fazendo o maior sucesso em todo o Brasil, falando de fé, crenças religiosas, mudanças… Existe um público padrão que acha que Stand-up é teatro, que gosta de pagode e arrocha, que vai ao cinema exclusivamente para ver enlatados americanos, e que lotam as casas de espetáculos; mas existe espaço para todos os gostos e produções, basta saber buscar nos lugares e meios certos.

UB – Você acha que as produções de teatro de Salvador se voltam para o processo e para o próprio umbigo, ao invés de dialogar com a sociedade?

E. Buchegger – Não, não vejo isso não, isto existe sim, muito, mas não apenas isto. E devolvo a pergunta: A sociedade quer dialogar ? Creio que a sociedade já vive nu m abismo de honestidade e problemas que em seus momentos de lazer busca apenas gargalhar, falar alto, não escutar, as vezes até atuar, mas que se insufladas a pensar se entregarão completamente, basta acender o pavio do pensamento.

EN – O que Evelin Buchegger ainda falta fazer, além de adotar os perdidos e desamparados como nós clandestinos?

E. Buchegger – Tenho muito trabalho pela frente, estou ainda muito distante das minhas ambições profissionais, quero trabalhar com muita gente, fazer mais cinema, textos de diferentes estilos e autores, quero ainda ver a televisão local produzir profissionalmente algo mais que telejornalismo, estamos nos primeiros passos da caminhada… Mas para adotar os perdidos e desamparados falta fazer uma casa no Capão para brincar nas férias… (risos)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina

*Anna Carvalho é professora e escritora. Uarlen Becker é ator, agitador cultural, fotógrafo e diretor teatral.


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