Oh Captain, My Captain! Um poema para Robin Williams
Literatura

Oh Captain, My Captain! Um poema para Robin Williams

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Oh Captain, My Captain

Por Elenilson Nascimento

Nós todos éramos cavalos
sentados sobre as feias mesas,
vestidos com aquelas sujas fardas,
riscando os cadernos cinzas…

Nós todos éramos cavalos
com crinas coloridas abertas ao vento,
a galope entre águas verdes e pedras azuis,
onde, em uníssono, bradamos um grito mudo
e subimos em cima das mesas dos altares escolares
para que a alma suicidada do professor John Keating
se eleve do inferno cristão…

Nós todos éramos cavalos,
donos dos mares e das trevas,
chocados com a notícia do suicida ilustre,
mesmo sendo uma “morte anunciada”
pelo flagrante estado de depressão
revelado em suas raras aparições…

Nós todos éramos cavalos,
com vícios dos quais ele também tentou se livrar:
com sua incurável depressão fascista
causada pela não aceitação do envelhecimento total,
das dívidas predatadas, do tédio carnal…
nesse fracasso mortal…
escrevendo esse “desfecho macabro” há olhos vistos.

Nós todos éramos cavalos,
com tranquilos olhos vesgos,
habituados às densas névoas,
de compassos da babá Mrs. Doubtfire…
pelos seus verdes prados ondulosos,
cuspindo poemas incompreensíveis,
batendo punhetas matinais,
nas encostas de árduas arestas…

Nós todos éramos cavalos,
cavalos enganados, destruídos, autoritários
à cor das auroras de nuvens cinzas,
ao tempo de ipês derrubados pelo Barão Munchausen
e quaresmas virtuais de enganos sentimentos…

Nós todos éramos cavalos,
deturpados por sentimentos,
pelos amores impostos de estação,
peregrino desesperados entre dores e tormentos,
mas que sempre nesses momentos,
nas margens desses grandes rios poluídos
por onde os escravos cantavam
cheios de suspiros alvos
as tristezas dos que vivem sozinhos…

Nós todos éramos cavalos,
de tarjas brancas e pretas do Dr. Malcolm Sayer
que guardam no fino ouvido
o som dos catarros e vômitos
dos calados, dos desesperados,
dos sofridos, dos feios, dos sem atração…

Nós todos éramos cavalos,
penando no peso das selas,
picados de insetos, espinhos
e seringas sujas…
desabafando os nossos cansaços
em crepusculares relinchos
nas camas de motéis.

Nós todos éramos cavalos,
nos iludindo, insisto e repetindo os mesmos erros
de séculos passados nessa desafinada melodia,
cacofonia, catatônica, atônita….
Cavalos da inconfidência de falsete falsos
De cacetes duros em bucetas molhadas
e em cus apertados e cabeludos
que saem altivos e em vão,
sozinhos e desesperados,
para todos os ouvintes em sintonia,
para uma plateia em agonia,
ecoando para além do salão.

Nós todos éramos cavalos,
de amores errados dizendo não
mesmo querendo dizer sim…
numa rua escura, em cima da mesa,
na curva da vida, chegando ao fim sozinho.
Morto, torto, chegando na viela,
naquele momento pior de se terminar a vela
cercado de pessoas que fazem você se sentir sozinho.

Nós todos éramos cavalos,
sobrevivendo de quase nada,
aprendendo quase tudo,
com nossos corações em cacos
comendo leite em pó
– rijos, destemidos, velozes, dementes –
entre Armand Goldman e Sean Maguire,
Chris Nielsen e o Homem Bicentenário.

Nós todos éramos cavalos,
transportando em nossos galopes mancos
coronéis artistas, magistrados docentes,
poetas punks, furriéis ausentes,
alferes cabeças, sacerdotes putas.

Nós todos éramos cavalos,
ouvindo segredos íntimos de Cristo
e intrigas loucas dos profanos
em sonetos molhados em liras doentes
em odes decadentes do padre Charlie Boyd

Nós todos éramos cavalos,
quando ele pulou de cabeça
só não sabia que o coração alheio
era uma piscina vazia… numa noite no museu
com testemunhas sem depoimento,
diante de equívocos enormes desse tempo.

Nós todos éramos cavalos,
dentro de livros, jogados pelos cantos,
tomando veneno das penitências
onde a Igreja não conseguiu controlar o riso.
Até onde a Arte é dominada pelo mercado?

Nós todos éramos cavalos,
conhecendo a vil ambição,
matando o cão em vão,
comendo as carnes do alienígena Mork
no desmancho do ferro velho.

Bom dia, Vietnã! Bom dia, Salvador!
Bom dia, Amor! Bom dia, minha Dor!

Nós todos éramos cavalos,
entre sonhos desfeitos e contrabandos de drogas,
alheios às paixões de internet,
pousando os mesmos olhos mancos
nas grotas dos navios negreiros,
repletas de novos escravos
das igrejas, cheias de santos…
das escolas, sem versos…
nos camburões, cheios de pretos…

Nós todos éramos cavalos,
onde a vida oportuniza,
e uns viram correntes e algemas,
outros, o sangue sobre a forca,
outros, o crime e as recompensas
quando o mundo precisa de milhares
de protestos para dizer que não
ao bombardear crianças,
só então percebemos que a humanidade falhou!

Nós todos éramos cavalos,
e alguns foram postos à venda no Extra,
outros ficaram nos seus pastos de telemarketing,
e houve uns outros que, depois da sentença de morte,
levaram ao seu próprio carrasco travestido de PM,
seus braços cortados, suas pernas centenárias,
suas cabeças ocas e sem reflexões
partindo com suas cargas adestradas
nas mais dolorosas afetações.

Nós todos éramos cavalos,
que escrevíamos pra gente
pensando ser para os outros
nesse suicídio inconsciente.
Mas ele morreu por esses montes,
por esses campos além da vida,
por esses abismos, tendo servido a tantos homens.

Nós todos éramos cavalos,
reencarnados em demônios,
mas ninguém mais sabe os seus nomes,
suas pelagens, suas penugens, suas origens..
E iam tão alto, e iam tão longe!
Iam nos gritos, iam nos ditos,
iam nos palcos e nos desertos!

Nós todos éramos cavalos,
nos rancores, nos desastres.
E por ele suspirávamos,
nos seus filmes, entrevistas,
sorrisos e nos seus olhares!
Mas, hoje, John Keating morreu
preso nos seus flancos robustos amargurados
que pareciam feitos de ouro e bronze,
mas eram, na verdade, de papel.

E no futuro, nessa vida de bilhete premiado,
o baldio frágil que fez a carne ser mais forte,
nesse banheirão de pegação,
fez o porte do cavalo raçudo,
nessa chave de mistério…

Nós todos éramos cavalos,
de estrelas decadentes que brilham forte nas telas
no agora sempre e se apagam (ou não) num futuro.

– José Wilker?
– Presente!
– Ariano Suassuna?
– Presente!
– João Ubaldo Ribeiro?
– Presente!
– Rubem Alves?
– Presente!
– Robin Willians?
– Presente!
– Os Próximos?
– Nós todos cavalos, presente!

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina


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