Análise da edição do filme Thelma & Louise, de Ridley Scott
Cinema

Análise completa do filme Thelma & Louise

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Thelma & Louise

Há, na verdade, um conjunto de fatores que fez de Thelma & Louise uma obra obrigatória a ser vista, dentro do cenário audiovisual: a direção, a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia e, principalmente a edição de Thom Noble

Por Mauricio Amorim

Thelma & Louise foi um dos melhores filmes lançados no ano de 1991. Este foi também o ano de O Silêncio dos Inocentes, JFK, O Príncipe das Marés, O Exterminador do Futuro 2, Bugsy e muitos outros filmes considerados, no mínimo, ótimos.

Entretanto, esta obra (prima, na minha opinião), muito bem concebida pela roteirista Callie Khouri e maravilhosamente bem produzida e dirigida por Ridley Scott foi, acertadamente, um dos filmes mais vistos e comentados naquele ano e que continua na mente de muitos dos espectadores da já longínqua década de 90. Acredito contudo que, mesmo após mais de vinte anos da sua estreia, visto hoje por alguém que talvez nem fosse nascido naquele ano, Thelma & Louise ainda consiga gerar um grande impacto num jovem espectador.

E a responsabilidade desse feito não se encontra única e exclusivamente no maravilhoso e pra lá de premiado roteiro original, ou na extremamente perfeita atuação das duas atrizes: Susan Sarandon e Genna Davis. Há, na verdade, um conjunto de fatores que fez de Thelma & Louise uma obra obrigatória a ser vista, dentro do cenário audiovisual: a direção, a trilha sonora de Hans Zimmer, a fotografia e, principalmente a edição de Thom Noble.

E é exatamente sobre a montagem desse filme – inclusive, indicada ao Oscar, perdendo pra edição de JFK – o principal foco de análise desse texto.

Contudo, é essencial que se entenda não só a narrativa do filme, como os três atos que estão presentes nessa narrativa, os quais podem ser chamados de A Insatisfação, A Fuga, A Liberdade e a Eternidade, segundo análise de Odair da Silva (2009).

Logo nos minutos inicias do filme, vê-se a rotina de Louise – garçonete de um bar pra lá de movimentado – e a de Thelma – uma dona de casa não valorizada pelo seu marido. Louise está insatisfeita com seu trabalho e Thelma, com o seu casamento, apesar desta insatisfação de Thelma só ser melhor mostrada com a continuidade da narrativa. Quando o filme começa, já está decidido que as duas viajarão (apesar do medo que Thelma tem de contar sobre a viagem, ao marido) para um chalé nas montanhas, afinal, Louise tem um amigo que está vendendo o tal chalé e, enquanto não vende, empresta para os amigos. Com um T-Bird 1966, conversível, as duas partem para esse fim de semana que promete ser um período tranquilo, no qual as duas terão um tempo só para elas: Louise, longe do namorado que parece não querer um compromisso mais sério; Thelma, longe do possessivo e egoísta marido.

No caminho, diante dos insistentes pedidos de Thelma, Louise para o carro num posto, não só para abastecer como também para beberem alguma coisa e descansar. Depois disso, o plano era prosseguir com a viagem. Entretanto, neste momento, acontece o primeiro ponto de virada da história: Thelma é quase estuprada e Louise mata o agressor.

Thelma & Louise

Diante do acontecido, as duas são obrigadas a mudar totalmente o itinerário da viagem: fogem para a estrada e passam a ser consideradas foras da lei. Uma perseguição policial se instaura. Nesse ínterim, Louise se comunica com Jimmy, seu namorado, e pede que ele lhe empeste uma determinada quantia, ao passo que Thelma conhece um jovem viajante, chamado JD, e se encanta por ele, implorando que Louise dê uma carona para o rapaz. Quando param no local estabelecido por Louise, para o depósito do dinheiro, o próprio Jimmy está presente, e os três – Louise, Thelma e Jimmy – hospedam-se num hotel: Louise e o namorado, num quarto; Thelma, sozinha, noutro. Louise pede que a amiga tome conta do dinheiro, enquanto vai conversar com Jimmy sobre o que está acontecendo.

Um ponto central marca o ato dois dessa narrativa. JD, o jovem sedutor viajante, bate na porta e Thelma, não só deixa que ele entre como tem, com JD, sua primeira noite de sexo prazeroso, algo que ela nunca tivera com o marido. Ao amanhecer, feliz da vida para contar a Louise as novidades, Thelma deixa o jovem sozinho, tomando banho, no quarto de hotel. JD rouba todo o dinheiro – o dinheiro que as duas amigas usariam, na fuga.

A partir de então, podemos afirmar que se inicia o terceiro ato da narrativa de Thelma & Louise, o qual é chamado, por Odair da Silva, de A Liberdade e A Eternidade: Louise é categórica ao afirmar que não vai se entregar. E Thelma, depois de passar por todo um processo de fuga, e ter visto o quão sua vida era vazia, sem sentido algum, também decide não mais voltar atrás. Não há retorno. É óbvia a transformação que não só Thelma, como a própria Louise, passam, no decorrer do filme. E nós, espectadores, também somos obrigados a concordar com elas: não há mais retorno, elas precisam seguir em frente. E aí, então, entra a eternidade: elas seguem para a eternidade. O seguir em frente para a eternidade significa, visualmente, a cena em que Louise, de mãos dadas a Thelma, joga o T-Bird 1966 Grand Canyon abaixo.

Narrativa da história compreendida, podemos perceber o trabalho muito bem feito do editor Thom Noble.

Na obra Num Piscar de Olhos, Walter Murch (2004) afirma que, durante muito tempo, a preservação do espaço tridimensional era algo essencial a ser mantido num processo de montagem de um filme e, não mantê-la, era considerado falta de precisão e de habilidade. Murch (2004, p. 28) ainda nos diz que: “Simplesmente não se usava ‘pular’ as pessoas no espaço, exceto talvez em situações extremas como lutas ou terremotos, quando havia ação muito violenta”. Walter Murch defende, com precisão, que a continuidade tridimensional deve ser colocada no último lugar, numa lista de seis critérios, critérios estes que definirão um bom corte:

Encabeçando a lista está a emoção, a última coisa da qual se fala em aulas de edição (quando se fala, porque é a coisa mais difícil de se definir e lidar). O que você quer que o público sinta? Se ele sente exatamente o que você queria durante todo o filme, você fez o máximo que poderia fazer. O que será lembrado não será a edição, a câmera, as atuações ou mesmo o enredo, mas como o público sentiu tudo isso. (MURCH, 2004, p. 28, 29).

Sendo esta a defesa de Murch, podemos perceber o quanto Thom Noble foi feliz no processo de montagem de Thelma & Louise e, o mais essencial em ser enfatizado: o quanto ele conseguiu trabalhar, com maestria, o trinômio emoção – atenção – intenção.

Contudo, por mais que afirmem que a edição dessa obra de Ridley Scott é eficaz – e eu concordo plenamente com tais afirmações – existe um porém nessa montagem, porém este que, segundo publicações da década de 90, não foi algo aceito pelo editor e, sim, determinado pelo diretor: a sequência do rastafari, andando de bicicleta, fumando maconha, passando pelo carro da polícia, que tem um tira preso no porta-malas, preso graças a eficácia de Thelma. É uma sequência que quis ser engraçada – o rastafari tragando a maconha e jogando a fumaça do cigarro dentro do porta-malas, através dos buracos de bala que Thelma deixou para que o policial (que queria prendê-la) respirasse. E até que existe uma comicidade na sequencia, sim. Entretanto, não é uma sequência necessária à trama: o rasta não faz parte da história e a ação, em si, não tem o papel de levar a trama adiante. Assim como as várias tomadas das paisagens da região do Arizona, nos Estados Unidos, ao som da excelente música (trilha sonora) de Hans Zimmer, colocadas na versão final editada, também foram alvo de críticas, à época.

Ao contrário da sequência do rasta pedalando a bicicleta, as várias tomadas dos vales, em especial, do Grand Canyon são, sim, de extrema necessidade para o andar da história, pois tão imensidão mostra o quanto elas parecem estar isoladas, geograficamente, do resto do mundo. Contudo, próximas uma da outra e, ainda, próximas de si mesmas.

Thelma & Louise

Destaco, nesta analise, duas sequências que podem ser ilustradas como dois ótimos momentos de montagem. A primeira, logo nos minutos iniciais do filme, mostra o que pode ser chamado de montagem paralela: Thelma e Louise, em espaços diferentes, casas diferentes, preparando-se para a viagem. Nessa montagem, conseguimos, claramente, perceber o perfil dessas duas mulheres. Louise, organizada, sistemática, com uma fotografia enfatizando o branco: cozinha clean, cortinas brancas, copos lavados, arrumados, panos, da cozinha, brancos, pouca bagagem; Thelma, a indecisão, o excesso de bagagens, um quarto com uma explícita confusão de objetos e, ainda, um plano que prioriza uma arma, a qual terá importância numa futura sequencia: a da tentativa de estupro. Essa sequencia dos preparativos culmina com o a chagada de Louise à porta de Thelma, já conduzindo o T-Bird 1966.

A outra sequência, também digna de analise, é a sequencia final, no exato momento em que Thelma e Louise passam a ser, implacavelmente, perseguidas pela polícia. São cenas de ação que não foram editadas de forma frenética, como muitas cenas de ação costumam ser, principalmente nos filmes hollywoodianos. Sem contar que, no meio das cenas, no auge climático da sequência, closes de Thelma, aflita, porém, firme e também determinada a não se entregar, entram na edição. A emoção, como constantemente Murch defende, existe durante quase toda a montagem desta obra.

A edição de Thom Noble mostra que Thelma & Louise é um road movie, mostra que as cenas de ação podem ser bem convincentes e, através do ritmo dado, consegue nos manter envolvidos com a trama devido, principalmente, ao suspense que a montagem provoca no espectador.

Entretanto, cinema é arte. Cinema é emoção. E a edição tem um fator de suma importância nesse processo de criação. Editar é dar vida a uma história, é construção. E Thom Noble foi feliz nesse importantíssimo aspecto da montagem: não deixou a emoção de lado. O desenho construído por ele, para montar Thelma & Louise, deixa explícito que as considerações sobre montagem, defendidas não só por Murch, como por outros estudiosos do audiovisual, foram muitíssimo bem aplicadas à obra de Ridley Scott.

Por mais que estejamos numa era da mais alta digitalização, editar, para mim, é um trabalho artesanal. O editor é um artista.

Referências:
MURCH, Walter. Num piscar de olhos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
SILVA, Odair José Moreira da. A estrada e a construção do road movie: um estudo semiótico de Thlema & Louise, de Ridley Scott. Conexão – Comunicação e Cultura, UCS, Caxias do Sul, v. 8, n.15, jan./jun. 2009.

THELMA & Louise
Direção: Ridley Scott. Produção: Ridley Scott e Mimi Polk. Interpretes: Susan Sarandon, Genna Davis, Michael Madsen, Harvey Keitel, Bradd Pitt e outros. Roteiro: Callie Khouri. Música: Hans Zimmer. USA, 1991. 129 min. Color: 35mm.

Mauricio Amorim é Professor de Produção e Direção para TV e Vídeo, Edição, Roteiro, Linguística e Produção Textual da Universidade do Estado da Bahia, Especialista em Linguagens e Mídias Audiovisuais, Cineasta e Colunista do Cabine Cultural.


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