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Cinema: Jongens (Garotos)

Filme perfeito para quem tem 15 anos. Mas nós que já passamos dos 30 gostamos do mesmo jeito…”

Por Elenilson Nascimento e Kleber Gutierrez*

Se a adolescência é uma das fases do desenvolvimento humano na qual se pode dar início a descoberta da sexualidade, por outro lado pode ser também uma fase traumática quando essa descoberta não for bem orientada. É fácil entender, nessa fase, o elo entre homossexualidade, isolamento, drogas, evasão escolar e suicídio. As drogas, por exemplo, servem como válvula de escape para superar a solidão, onde a maior parte dos adolescentes vive sua homossexualidade clandestinamente.

Nesse mesmo intervalo de tempo, enquanto um jovem heterossexual pode exercer a sua sexualidade livremente, com uma certa aprovação dos amigos e familiares, um jovem gay teme ser descoberto e ridicularizado – por isso, vive policiando as próprias atitudes – num estado de alerta que culmina em estresse crônico, desajuste social e outras doenças – além de muitas, infelizmente, terminar levando-o ao suicídio.

O cinema tem mostrado esse drama em vários longas de sucesso (ou não) – “Assunto de Meninas” (2001), “Transamerica” (2005), “C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor” (2005), “Eu Não Quero Voltar Sozinho” (2010), além da história de amor entre Arthur Rimbaud (Leonardo DiCaprio) e Paul Verlaine (David Thewlis) em “Eclipse de uma Paixão” (1995). Mas, no ano passado, um novo filme holandês se destacou, além de ter sido premiado, por retratar essa pressão constante de ser igual aos outros e ser aceito no grupo. Em “JONGENS” (Garotos), do diretor Mischa Kamp, numa Holanda ensolarada, dois jovens vivem os mesmos dilemas característicos dessa fase da vida na classe média de qualquer lugar do mundo. A descoberta dos corpos individual e social; a inserção ou deserção do meio; os modelos de conduta e as crises familiares.

Na trama, o protagonista Sieger (Gijs Blom) tem 15 anos, um irmão mais velho, uma mãe morta e um pai dedicado em construir caráteres proveitosos nestes futuros homens sob seu comando. Já Marc (Ko Zandvliet), originário de um núcleo menos atingido pela crueza da vida (há pai, mãe, uma irmã mais nova e um negócio familiar pouco convencional – uma sorveteria de sabores exóticos), se não tem mais idade que Sieger, parece ter mais consciência do lugar que deseja ocupar no mundo.

E num verão qualquer, eles conseguem entrar para um time de atletismo e lá, aos poucos e de forma inocente, acabam de apaixonando e acabam descobrindo que esse sentimento é mútuo e muito mais forte do que eles podem controlar, mas em um mundo onde relações entre pessoas do mesmo sexo ainda têm muito preconceito seria muito difícil para um adolescente lidar com isso e é aí que começa o drama do filme.

Jongens

Eles flertam com meninas e curtem a vida numa boa, mas Marc é gay e, aparentemente, muito bem resolvido. Sieger sabe que nesse meio esportivo o preconceito é muito grande, e há a pressão de seus amigos e seu pai para que ele vença um campeonato. E, talvez, por esse motivo, o diretor optou em mostrar de forma suave que reconhecer a homossexualidade é a melhor forma de lidar com ela, pois a atração pelo mesmo sexo já foi perfeitamente aceita em épocas como a Antiguidade grega – a homossexualidade era considerada a forma mais nobre de amor, mas nos dias atuais, com bem sabemos, é motivo de vergonha para muitos.

E os dois personagens se cruzam nas raias de atletismo e, entre uma corrida e outra, vai surgindo uma amizade. Com as lutinhas típicas de garotos medindo forças, banhos de rio, olhares furtivos, abraços inocentes, uma atração física surge. Marc sabe o que quer, Sieger ainda se sente indefinido entre o desejo por uma garota e pelo amigo. O filme nos traz de uma maneira inocente o romance entre os dois garotos e, diferente de muitos filmes onde a relações homo afetivas se baseia somente no sexo, esse não entra nos clichê clássicos e por isso conquista o público, fazendo com que todos torçam pelo casal.

Não há homofobia latente guiando o medo da escolha, mas uma tensão que pode indicar preconceito mesmo na libertária Holanda – muito longe das manifestações de ignorância que assistimos todos os dias nas páginas dos jornais ou em programas espirra sangue do Brasil. Há luz e sombra na vida dos personagens. Quando está com a garota em jogos sociais, quase sempre é dia (exceção para a ótima cena de ciúmes no parque de diversões). Mas quando não resiste ao desejo pelo desconhecido e se entrega aos beijos de Marc, quase sempre é noite. Não há erotização exacerbada. Não há sexo. O filme é meigo, sutil e leve – mas nunca seria exibido na Globo.

Sensível, com uma bela trilha sonora e delicada fotografia, “JONGENS” conseguiu cumprir a sua função: não ser clichê e mostrar que o amor ainda existe. É difícil um filme que fala sobre a descoberta da sexualidade não ter os mesmos ingredientes: repressão familiar, amigos homofóbicos, algum evento que impede que a pessoa assuma sua sexualidade, garota que fica dando em cima… mas esse tem tudo isso, é claro, mas tem também uma questão estética: muita câmera lenta nos momentos românticos, belas locações e um ótimo roteiro.

No final, a entrega e a aceitação do que sentem Sieger e Marc é poética, numa escapada ‘noturna’ sobre a moto com uma estrada aparentemente infinita pela frente. Lindo! Filme perfeito para quem tem 15 anos e se depara com as mesmas dúvidas. Mas nós que já passamos dos 30 gostamos do mesmo jeito, pois a mensagem parece gritar: “emocionalmente, somos bissexuais. Temos a capacidade de amar em igual intensidade homens e mulheres! E ponto!”

Outra coisa que fica a cargo do filme, é a canção que toca no início e no final. Chama-se “I Apologise (Dear Simon)”, e quem canta é banda holandesa Moss. O single foi lançado em 2010, e pertence ao disco “Never Be Scared / Don’t Be a Hero“, lançado em 2009. Quem quiser buscar a discografia do grupo, fique a vontade, eles tem apenas 4 álbuns.

Moss – I Apologise (Dear Simon)

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Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

* Kleber Gutierrez é autor de “Letra”. Contato: klebergutierrez@uol.com.br







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