Dupla Identidade segue em bom ritmo, mas peca por didatismo exagerado
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Dupla Identidade segue em bom ritmo, mas peca por didatismo exagerado

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Dupla Identidade

Trama de Gloria Perez possui premissa instigante e história promissora, mas diálogos ainda estão aquém do razoável

O segundo episódio de Dupla Identidade, série escrita por Gloria Perez e protagonizada por Bruno Gagliasso, trouxe novamente os mesmos vícios do seu episódio piloto: excesso de didatismo em grande parte dos diálogos. Ainda não houve uma melhora neste quesito e as conversas de todos os núcleos da história soam por demais engessadas e nem um pouco naturais. Não se espera que a autora consiga transpassar integralmente um modo natural de conversar, de dialogar, de falar, mas o que se viu nos dois primeiros episódios foi um excesso de frases clichês, palavras de efeito e uma superficialidade tamanha nas conversas.

Em alguns casos, como nas conversas do núcleo policial, fica parecendo que os personagens estão conversando com o espectador, explicando passo a passo os acontecimentos. Esta situação não é uma particularidade da série, vemos várias outras – sobretudo as que fazem parte do gênero policial, jurídico ou médico – excedendo em didatismo, com medo que o seu público se perca em meio a questões mais técnicas. É até compreensível, mas deve ser evitável ao máximo, pois subestima a capacidade de entendimento do espectador, e quando ele percebe, se volta automaticamente contra o roteiro.

Mas por sorte, este vem sendo o único ponto negativo que a história do serial killer vem apresentando.

Facetas de um serial killer
Gloria Perez buscou já no segundo episódio adentrar mais profundamente no dia a dia de Edu (Bruno Gagliasso), e agora vimos – além de sua face assassino, e de sua face assistente de assessor de Senador – outras duas facetas dele: em sua casa, sozinho, e no Grupo de Apoio a Vida, onde faz trabalho voluntário. No primeiro caso observamos Edu em sua casa, sozinho, vivendo situações cotidianas (ver televisão, beber água, comer…), exceto pelo fato de também o vermos contemplar alguns objetos pessoais tirados de suas vítimas, o que na psicologia forense é chamado de troféu. Ele, como muitos dos assassinos em série, sente a necessidade de guardar tais objetos, pois eles são motivos de absurda excitação, o que Edu acaba passando somente através do olhar.

No segundo caso, vemos um dos maiores paradoxos deste personagem: ele é voluntário em um destes programas de auxílio a pessoas que procuram ajuda, muitas delas buscam tal ajuda como última forma de evitar que elas tirem suas vidas. Edu, serial killer, também auxilia pessoas a mover a ideia de se matarem. Acaba sendo uma forma meio esquizofrênica de encontrar um equilíbrio existencial. Será bem interessante ver como será desenvolvido esta parte de sua vida.

Dupla Identidade

Entendendo um assassino
A relação de Edu com Ray (Débora Falabella) é outro ponto interessante, que se bem desenvolvido, nos dará elementos primordiais para entendermos melhor como funciona a sua mente (e consequentemente a mente de um serial killer). Mesmo que tenha soado um tanto forçado, afinal eles haviam acabado de se conhecer, a cena de amor entre os dois foi bem construída, mostrando desde já algumas estranhezas de Edu, como ele tirando um batom de seu bolso e passando na boca de Ray. Como ela está na fase de encantamento, este ato passa tranquilamente despercebido. Mas nós, espectadores, já sabemos que por trás deste ato se esconde algum grande detalhe que nos ajudará a entender sua vida.

A parte política continua sendo a menos interessante da história, e mesmo que ela esteja diretamente interligada aos assassinatos, o grau de interesse que as cenas produzem ainda é bastante insignificante. Não sei até que ponto Gloria Perez irá desenvolver a questão das eleições para o Senado, mas há um risco de todo este assunto servir somente para preencher espaço, não possuindo nenhuma função narrativa relevante.

Segundo ataque
O grande destaque do último capítulo foi o segundo ataque (acompanhado pelo público) de Edu. Já podemos compreender um pouco mais sobre o modus operandi deste serial killer: para onde ele leva as suas vítimas, como ele as escolhe… foi bem interessante vê-lo agir enquanto Vera, a especialista em assassinos em série (Luana Piovani) narrava justamente algumas das mais famosas características deste tipo de pessoa: ele transborda confiança.

Porém, desta vez ele deixou duas possíveis pistas – um isqueiro com suas digitais e pode ser que o marido da vítima tenha lhe visto segundos antes do ataque. A primeira pista foi habilmente destruída por Edu, e a segunda se transformou no grande gancho para o próximo episódio.

Dupla Identidade

Dupla Identidade buscou trabalhar em seu segundo capítulo as facetas do seu serial killer protagonista. De forma instigante, todas as sequências relacionadas a isso foram eficientes (logo no início há uma ótima cena com casos famosos de assassinos em séries). Ainda falta resolver o didatismo exacerbado das falas, principalmente do núcleo policial, que soa de uma superficialidade bem grande. Com uma história política ainda desinteressante, a série entretanto tem na sua premissa principal uma fonte inesgotável de boas possibilidades.


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