Entrevista com os escritores Anna Carvalho e Alfredo de Morais
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Entrevista com os escritores Anna Carvalho e Alfredo de Morais

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Anna Carvalho e Alfredo de Morais

Um Augusto dos Anos hoje passaria fome pelos bedéis de uma literatura pouco anárquica e que se arrasta diante de jargões.” (A.C.)

Por Elenilson Nascimento

A entrevista de hoje é uma tentativa de explicar os motivos para essa resistência. Há quem pense que divulgar livros é um dever apenas dos autores de gêneros literários supostamente menores. E se você é escritor de livros infanto-juvenis, romances policiais ou literatura fantástica, deve correr para os braços do público. Do contrário, não há mal nenhum em ignorá-lo. Mas essa é uma postura preconceituosa e pessimista, que só faz mal à literatura.

No século XXI, que parece ainda não ter começado, na chamada era da globalização, o editor não é mais um caçador de talentos, se resumiu a um recrutador de vendedores com potencial de êxito. Num cenário onde os grandes grupos internacionais, através da compra de participação acionária, estão engolindo as maiores editoras brasileiras, fica difícil um olhar otimista para o futuro. O mundo editorial de hoje é um mar de arrogância e prepotência, principalmente na Bahia, reduto dos deslumbrados que se acham superiores.

E para agravar a nossa realidade, os editores brasileiros das grandes corporações são personagens profundamente arrogantes, comportam-se como pequenos totens que detêm o poder de escolher o que lemos, subestimando a capacidade dos leitores e nos empurrando lixo goela abaixo. Suas armas são as “resenhas de aluguel”, os concursos de cartas marcadas e um falso marketing que carrega a pretensão de transformar chumbo em ouro. A produção de livros no Brasil sofreu fortes acomodações nos últimos anos, empresas como a Cia das Letras, Objetiva e Nova Fronteira ganharam sócios internacionais com forte participação acionária. Será que isso explicaria a atual supremacia dos títulos estrangeiros em nossas maiores livrarias?

As perguntas nessa entrevista foram enviadas, a princípio, para fazer parte de um projeto que posteriormente iria resultar num livro de entrevistas com autores baianos, mas que por burrice, valorização das panelinhas do acarajé e falta de leitura dos medíocres participantes/autores convidados, o organizador achou por bem deixá-las de fora. Mas, como ter certeza de que não há leitores tão ingênuos na internet, prontos para descobrir talentos do gênero em livros encomendados? Ao desistir de divulgar nossos livros para essa audiência, talvez, muitos escritores talentosos – desses que não são vendidos como jarros raros em bienais – podem acabar perdendo leitores e relevância por não expor suas ideias.

É indisfarçável, por exemplo, o nosso choque ao constatar nas estantes das já poucas livrarias uma nova ordem disposta a colonizar a literatura em nome do lucro. Os executivos dos grandes grupos editoriais determinam o direito do que se deve ler, assim como alguns editores acham que podem influenciar no que os escritores têm que escrever, mas não contemplam aumentar as opções do que se pode ler. Alguns ainda qualificam o autor brasileiro como um rebelde fracassado, mas esquecem que os balcões de destaque das livrarias são vitrines de aluguel que expõem somente o que rotulam de comercial.

Confiram agora um pouquinho dos autores baianos Anna Carvalho – professora do Colégio Mendel, escritora, blogueira, articulista, minha coautora em “Clandestinos” (2010) e “Diálogos Inesperados Sobre Dificuldades Domadas” (2005), e Alfredo de Morais – psicólogo, professor universitário, escritor e pesquisador – ambos já participaram de várias antologias, algumas dessas da Coleção Literatura Clandestina, além de serem excelentes palestrantes, e afirmam aqui que escritores iniciantes precisam driblar lógica do mercado editorial e buscar o público, pois quanto mais o mercado pende para a divulgação de apenas uns poucos nomes super conhecidos e apadrinhados, tanto menos espaço há para novos escritores, desconhecidos, diferentes.

Elenilson – Muitas poesias de autores publicáveis, publicados, virtuais e desconhecidos parecem um exercício de intempérie, elaboradas a partir do desamparo. A nova literatura brasileira passa uma fragilidade, uma afetividade, uma melancolia quase nua e, ao mesmo tempo, protegida e enigmatizada. Muitos autores dessa nossa geração se resolvem formalmente, mas interiormente estão bem longe disso, pois continuam agitados, agitando e desafiando as regras estabelecidas. Como vocês explicariam esse segredo nessa necessidade de alguns e esse enigma da Esfinge que ainda se mantêm?

Anna Carvalho – Vejo a literatura posar de santa, de politicamente correta. Em concursos literários, por exemplo, é proibido se falar de morte, ou seja a ação clandestina da literatura tem se portado como um desjejum de uma história factual, repórter de uma humanidade em drágeas. Um Augusto dos Anos hoje passaria fome pelos bedéis de uma literatura pouco anárquica e que se arrasta diante de jargões. Estamos em crise, lacunas imensas e que não podem ser preenchidas porque as gavetas estão postas num melodrama do politicamente correto. A gente se resolve sendo anônimo e pirraçando com a nossa existência. Lembro-me de uma crítica feita por um professor universitário ao nosso livro “Clandestinos”, em que ele dizia que o livro não tinha mérito histórico. Não tinha mérito histórico porque nós, seus autores, com liberdade de criação e de expressão, afinal literatura não tem que ser didática, não queríamos, pois é uma obra expressionista, mas um cara desse quer taxar o livro do que ele acha, lamentável.

Alfredo de Morais – “O ser humano é tentar sobre o hermético, sobre a corda bamba” (Nietzsche). Baseado nesta afirmação, essa agitação, essa busca solitária e/ou em conjunto de uma turba ávida por expor o seu íntimo, seu conhecimento de alma, tende a impactar nas publicações e no esbarrar sobre esse grande muro que se ergue sobre a literatura dos novos talentos.

Porém, creio que estamos vivendo uma era de novidades, onde esses guerreiros escarlates vem aparecendo apesar da imposição da literatura do mesmismo. Essa inovação pungente, cria feras que rompem a barreira do inatingível e se configura em pessoas que fazem a diferença entre os iguais.

Vejo o renascer de uma literatura de porão, principalmente com a tecnologia e os novos canais de interação. Hoje, somos a Atlântida perdida, somos a novidade, somos o renascer e o futuro.

Alfredo de Morais

Elenilson – Crônicas e poesias ainda são consideradas gêneros estranhos e, pior ainda, para alguns críticos, gêneros menores dentro da literatura. Acrescento mais, não se trata de hierarquizar a literatura, mas de distingui-la em sua espécie. Vocês acham que essas abordagens não passam de bobagens acadêmicas ou se realmente a literatura é uma emanação, uma dimensão da vida humana?

Anna Carvalho – Nessa resposta, serei breve e trágica: a literatura tem que corresponder às pessoas que se desumanizaram e o gênero poesia deixou de representá-las. A literatura deixou de ser protagonista e tem que coexistir ao gênero das pessoas.

Alfredo de Morais – Vejo que “literar” é algo que vem da alma. Não importa qual meio que se usa para expor as ideias, o que vale é a intenção do autor. Creio que a hierarquização acontece apenas para os acadêmicos que não têm talento para escrever, senão artigos sobre aqueles que ousam se expor em linhas do espírito livre.

Elenilson – Tenho dito em várias entrevistas e debates em bienais e feiras literárias que há um momento em que escrever ficção é fácil demais quando você consegue sobreviver nesse mundo de cão, como construir um engano. E lembro agora de uma frase do escritor Enrique Vila-Matas que diz: “A ficção presente é também o futuro possível da realidade”. Como é os seus casos de construção literária? E quais são os sinais que despertam um novo livro?

Anna Carvalho – Não somos mais inéditos, nos encerramos nas genialidades clássicas, na genialidade de Andy Warhol, Basquiat que mesmo repondo o clássico o adulterava. Outro dia assistia a “Cão sem dono”, feito sobre o livro de Daniel Galera, que se passa numa clausura de um quarto, onde um homem com depressão, uma mulher que descobre um câncer, sexo, amor, dores num cardápio altamente indesejado para uma sociedade que se comporta como numa matinê de seus sentimentos, se está proibido de olhar e bulinar a dor, estamos em ócio. Minha construção de dentro para fora, faço literatura feminina que se encerra em si mesma, como Lygia Fagundes Telles em suas veredas indevassáveis. Sem sinais, o mercado me encerra em náuseas, porque as pessoas que analisam os livros são didáticas e pouco libertárias.

Alfredo de Morais – Escrever é quase uma compulsão, é como um acordar explodindo de ideias, acho que é essa verve que leva a qualquer autor escrever. Claro que poeticamente possamos falar em inspiração, mas creio, piamente, que escrever é expiração.

Elenilson – Os conflitos de grupos excluídos chamados de minorias, mas que, na realidade, são maiorias, não se dão apenas entre eles, transformados uns com os outros em bode expiatório dessa vergonhosa exclusão social. Esse é apenas um dos desafios que o mundo global e multicultural enfrenta hoje com as piores condições de manter a paz entre os diferentes que tentam conviver num mesmo território. Como a literatura pode ajudar num processo de autoconhecimento e evolução da humanidade sem correr o risco de continuar se classificando em literatura negra, gay, de protesto, modernista, concretista, autoajuda etc.?

Anna Carvalho – Literatura não combina com pudores, com o esteta, com gavetas, com pouso ensaísmo, mas está sendo secundária ao gênero de pessoas chatas, pouco mundanas, não muito longe os ultrarromânticos administravam sua literatura e seu ópio, seu anarquismo, hoje a literatura administra a sua normalidade. Lamentável.

Alfredo de Morais – Acho que o romper de barreiras excludentes é o primeiro passo para expansão desta literatura tão sonhada, livre de preconceitos e rótulos. Talvez alguns autores tenham se entrincheirados em suas lógicas absurdas, até mesmo para ganhar notoriedade em falar das minorias, que esquecem a verdadeira função do escritor, que é o encantamento das letras.

Anna Carvalho

Elenilson – A prisão parece ser o último bastião da escrita sofrida caligraficamente. A arte narrativa dos presos tem um poder sobre o público que escritores atuais estabelecidos em suas confortáveis poltronas seculares não conseguem reproduzir pelo simples fato de não terem vivido as cenas que descrevem com volúpia pela crueldade. Livros como “Diário de um detento”, de Jocemir; “Memórias de um sobrevivente”, de Luiz Alberto Mendes; “Estação Carandiru”, de Dráuzio Varela; “Cidade de Deus”, de Paulo Lins; “Capão Pecado”, de Ferréz; “Memórias do Cárcere”, de Guimarães Rosa, além de “Clandestinos”, de Elenilson Nascimento e Anna Carvalho, são bons exemplos desses verbos sangrentos. Vocês acham que todos os escritores deveriam vivenciar fidediguinamente suas letras como os excluídos que rompem as grades, pulam o muro das favelas e invadem as estantes das livrarias?

Anna Carvalho – Escritores têm que viver, em algum momento, a sua clandestinidade, se rebelar. Repito a literatura não pode se portar como desjejum da realidade factual, a literatura ainda aposta em números, em nomes jargões, tem medo de explorar o inexplorável, a história de Fernanda e de Frederico incomoda porque o que é clandestino, hoje, tem que ser extirpado em QE (quoficiente emocional),etiquetas não servem de nada para uma literatura que insiste em se locupletar com nuances e anarquismos dos mais baratos, embora caros para essa literatura romanesca.

Alfredo de Morais – Não, acho que cada um tem sua vivência e sua provável prisão particular. O mergulho em particularidades é que me dá náuseas. O escrever é universal. Se queres escrever sobre o sofrimento, escreves. Se queres escrever sobre sexo, escreves. Se queres escrever sobre os anjos, escreves. Talvez esses que estão veramente presos, tenham tempo de escutar suas almas e as expor sem medo. O grande escritor, creio eu, não tem medo.

Elenilson – Se a sociedade ainda vê com restrição aqueles que abraçam a escrita, suas vozes tendem a ser abafadas. Ou seja, não vão ter a oportunidade de publicar seus escritos em livros com a mesma facilidade que um engenheiro constrói prédios. Principalmente quando se trata de escritores iniciantes, que têm de enfrentar uma via crucis pelas editoras que, invariavelmente, resultam em espera inglória, frustração e um trabalho engavetado. Como vocês encaram a falta de compromisso de muitos editores em detrimento de publicações de celebridades sem conteúdo ou de temas adolescentes?

Anna Carvalho – Duas palavras trágicas e verdadeiras: arrogância e covardia. Fiz um paradoxo, mas assim os editores são.

Alfredo de Morais – Vivemos numa sociedade de consumo rápido, de wathsapp, de faces, de respostas prontas e preguiças. Não se tem mais saco para ler coisas profundas, as pessoas se tornaram vazias e sem conteúdo, digo alguns. Porém, a resistência do literata há que romper esse desígnios. Pessoas como você, que tem esse poder comunicativo e intelectivo, regenera a sombria forma de escrever um nada, em algo relevante e desafiador. E nesse momento que penso “ainda há esperança”.

Elenilson – Quem são vocês escritores?

Anna Carvalho – Nasci ouvindo que precisamos ter ternura, a família Carvalho me ensinou ter poética. Somos pessoas cujas folhas não quebram o tronco forte, mas usei toda essa bagagem e fui ferida, e quando fui ferida, me neguei a ver o outro, me fechei criei um palácio de espinhos, de abutres, uma personagem que se refugiou em si mesma, não sei se por covardia ou proteção mesmo. Mas, como a vida não é uma sentença cruel e fechada, não é cartesiana, não é feita de cálculos para calculistas, derrubei cada espinho do palácio, domestiquei cada abutre, dei ordens aos guardas que sumissem com suas armas e me dispus de novo para o mundo porque não autorizei quem foi cruel comigo me deixar cruel com o mundo, pois o mundo não merece isso, eu não mereço, mas, sobretudo, quem me fez um grande mal, não merece isso que eu seja igual. Então, aqui vai um obrigado a todos que reergueram essa mulher que, sim Elenilson, se equilibravam (eu vou deixar no plural, mesmo com flexão errada porque são muitas almas na cabeça de uma escritora) num salto alto, imensa de grande (nem precisava de salto), mas que no fundo no fundo é uma menina trôpega, saltitante que se emociona ao ouvir os primeiros acordes de “A Whiter Shade Of Pale”. Estou aqui, pronta para servir, acho mesmo que a minha vida será o enredo daquele filme de Julia Roberts, “Comer, Rezar e Amar”, pois estou rezando, mas amarei de fato, pois é uma questão de tempo deixar que esse coração libriano mais idealista do que real se eterneça, tal qual bailarino nas mãos de seu novo poeta. Beijos, queijos, luz e muuuuito obrigada a todos que dedicaram seu tempo na leitura dessa entrevista.

Alfredo de Morais – Olha tenho um posicionamento bem menos ortodoxo do que os pensamentos sobre policiamento e militarismo. Primeiro porque a polícia já deveria estar unificada e desmilitarizada, depois porque não é o número de policiais que vai mudar o estado das coisas, mas sim a educação precária nesse país e principalmente aqui na Bahia. Quando se fala sobre poesia, se fala do todo. Existe poesia no militarismo, como existe na política, na flor, no amor e em todas as preposições e estados de espírito que o poeta esteja, pois esse é uma antena do universo. Nascer em poesia é escandalizar-se todos os dias com o óbvio e se revoltar com o esdrúxulo, é simplesmente estar disposto a escutar a voz das estrelas e com elas vomitar.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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