Crítica O Sexo dos Anjos: o triângulo amoroso no filme de Xavier Villaverde | Cabine Cultural
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Crítica O Sexo dos Anjos: o triângulo amoroso no filme de Xavier Villaverde

O Sexo dos Anjos

O Sexo dos Anjos

“Nesse filme, homens são crianças que decidem fingir ser adultos até que uma tempestade de emoções venha lhes turvar as razões.”

Por Elenilson Nascimento e Victor Pablo da Silveira*

Conforme se vincula na grande mídia: as pessoas andam muito desesperadas por um amor, ou melhor, por vínculos afetivos, e isso está sendo definido como um dos males deste século, juntamente com as drogas, cigarro, meio ambiente e climatização. Mas ao falar sobre isso, devemos ter o maior cuidado para não se tornar um lugar comum, pois presumimos que muita gente vai discordar. No filme “O Sexo dos Anjos”, uma co-produção Espanha-Brasil, que tem um mote muito parecido com outras produções como “Três Formas de Amar” (1994), que tem na trilha uma versão ótima de “Like A Virgin”, de Madonna, interpretada pela banda Teenage Fanclub; “Sua Mãe Também” (2001), um dramalhão mexicano com os excelentes Gael García Bernal e Diego Luna no elenco; o clássico “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), baseado na obra de Jorge Amado; além do alemão “Triangulo Amoroso”, de Tom Twyker.

Mas a diferença entre eles e essa nova versão de triângulo amoroso está na falta de experiência, das amarguras e dos preconceitos dos personagens. Em “O Sexo dos Anjos”, ao contrário dos quarentões do filme alemão, por exemplo, o trio de protagonistas está na faixa dos 20 anos de idade, lindos, ou melhor, deliciosos. O filme revelação do diretor catalão Xavier Villaverde traz cores meio-mortas e quase cinzentas da Barcelona dos dias de hoje, outonal e melancólica, jovens angustiados alternam os trabalhos e os dias com festejos plenos. Não há nada de novo no fim de numa Belle Epoque, porque o novo ainda está sendo construído.

Carla (interpretada pela ainda desconhecida Astrid Berges-Frisbey – ela faria muito melhor o papel de Julieta na versão de 2013), uma fotógrafa talentosa, herdeira de um apartamento e crítica de sua mãe decadente, namora Bruno (vivido por Llorenç González – que lembra muito o Gael Garcia Bernal), mas durante uma apresentação de street dance, Bruno acaba conhecendo o enigmático Rai (sensualmente interpretado pelo demasiadamente lindo Álvaro Cervantes), e acabam se apaixonando. Bruno é Bruno por achar pertencer a Carla, que vivem um amor de quase noivos em que um é a singularidade cativante do outro. Será mesmo? É quando o streetdancer-carateca Rai invade o mundo deles, outsider errante sem passado nem futuro, cujos únicos bens são sua força, sua beleza, sua coragem e seu desejo.

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Em principio, sentindo-se traída por Bruno, Carla aos poucos também se apaixona por Rai (*a cena em que ela encontra os dois se agarrando nus no toalete é maravilhosa). O roteiro tem várias situações implausíveis, mas o filme é bem dinâmico, alegre, com boa energia e claro, a beleza dos três atores ajuda bastante para que o espectador embarque nessa aventura de sexo(?) e amor, com a mesma fórmula com que todos os filmes românticos funcionam: um cara conhece uma garota, algo os impede de ficar juntos (eles podem não ir com a cara um do outro a princípio, as famílias não se gostam, o noivo ou noiva com quem um deles está comprometido, por algum motivo, também não gosta muito da ideia de um novo romance, e por aí vai), mas em “O Sexo dos Anjos”, além disso tudo, além do amor também triunfar e eles partirem para um glorioso “felizes para sempre”, cheio de amor romântico bissexual, como manda o figurino, tem um quê de conceitual.

O Sexo dos Anjos

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Um elemento ígneo do desejo que se apaixona em poucos minutos e conquista Bruno. Um Bruno em crise de identidade com seu mundo perfeito e sua biografia. Um Bruno que aceitar a ruptura com Carla ou arrefecer a torrente de emoções? Impossível. Mas há uma paixão de fogo por Rai e o amor por Carla; e decide ir mantendo as duas coisas. Mas Rai é um cão de rua sem pudores – gostamos disso! E, depois de flagrados nos amassos, Carla perdoa o namorado. Bruno não consegue se curar de tanto bem querer Rai, Carla tenta se submeter à situação repetindo o modelo materno, mas Rai se incomoda com a aura hostil de Carla e tenta sua amizade sob o pretexto desta provocar Bruno e diminuir sua altivez. Rai nunca fora fixado em identidades, por isso se define “todo sexual”. E o inevitável acontece: Rai e Carla também se apaixonam. As histórias de outsider conquistam Carla que trai Bruno que descobre tudo, fica furioso e inseguro e tenta manter seu homem sob seu domínio, mas Carla também! Rai precisa de mojitos para se acalmar.

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Mas esse filme fala também de listas de histórias de amor que não seguem a fórmula narrativa da maioria dos filmes românticos, que podem não ser muito felizes (algumas são até perturbadoras) e podem até não parecer realmente ser sobre amor. O triângulo se fecha? Não, são muitas florestas para pouco fogo-fátuo, e Rai foge para a casa de campo para proteger sua saúde mental. Bruno e Carla chegam suplicantes na casa de Rai. Fogo de paixão suicida por um instante: “Nunca encontrarei alguém como tu!” Mas homens são crianças que decidem fingir ser adultos até que uma tempestade de emoções venha lhes turvar as razões. Pausa para meditação sobre os juncos do campo, enquanto isso, Bruno e Carla se amam novamente como há muito não acontecia. Rai os flagra sorrindo em êxtase cúmplice. Enraivecido, ciumento e perplexo, foge novamente, desta feita para a cidade. Bruno e Carla vão de moto atrás dele.

De alguma forma, lembramos muito do filme “Paixão Suicida”, em outro contexto, bem diferente de tudo que você já viu: depois de ser dispensado pela namorada, um garoto se suicida e vai parar num purgatório destinado a todos que tiraram a própria vida. Lá, tudo é igual ao mundo dos vivos, mas um pouco pior: as cores são menos intensas, as pessoas são literalmente incapazes de sorrir, tudo tem algum problema. Ele então descobre que sua namorada se matou quando soube do que aconteceu com ele e parte numa viagem para buscá-la. E assim também é nesse enredo de “O Sexo dos Anjos”.

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No entanto, são todos filmes que tem um ponto de vista diferente e algo a dizer sobre a forma como as pessoas se relacionam e se envolvem umas com as outras. Impossível ser fiel aos dois ao mesmo tempo, alguém terá de morrer num acidente para restabelecer o equilíbrio inicial? O sacrifício da Fênix. Sem riscos a morte se torna eterna. Uma dança final e temos renascida mais a iluminada árvore de frutos proibidos. O jovem ator Álvaro Cervantes encanta pelo acabamento preciso da personalidade multifacetada de Rai: passional bandido que sabe muito bem como se vingar da crueldade da vida. Àstrid Bergès-Frisbey belíssima, angustiada, apaixonada, bailarina, guerreira Carla.

O Sexo dos Anjos

O filme começa bem morno e frugal com toques atuais de Break, pickpockets catalãos, e invasores cínicos toxicômanos sexolatras sendo expulsos de uma casa tradicional pelo espanto do menino que volta das férias com seu pai. Tons noir e reminiscências de “Sonhos de uma Noite de Verão”. Depois o ritmo psicológico nos magnetiza. Convincente em argumentar, mas não provar que a maior parte dos homens e mulheres parecem ser polimorfos sexuais que podem ou não ser bloqueados pela cultura ou pela auto-permissividade, tal como já se afirmou uma hipótese antiga. Mas se um triângulo se fecha com perfeição ainda haverá espaço e arestas para viver o mundo lá fora ou dançarão para sempre satisfeitos?

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina

* Victor Pablo da Silveira é professor, escritor e articulista cultural.




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