Crítica Irmã Dulce: sessão especial marca estreia do filme nos cinemas
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Crítica Irmã Dulce: sessão especial marca estreia do filme nos cinemas

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Irmã Dulce – Divulgação

“Longa-metragem, gravado em Salvador, mostra momentos marcantes da vida da beata. Mas não é um filme enfadonho e demagógico, ao contrário, consegue prender a atenção de quem realmente gosta de cinema.”

Por Elenilson Nascimento

Na última segunda-feira, 10/11, tive a oportunidade de conferir a pré-estreia do excelente filme “Irma Dulce”, no UCI Orient Iguatemi, Salvador (BA), na primeira exibição oficial do longa-metragem que conta a história da beata Dulce dos Pobres, que conseguiu reunir artistas, muitos religiosos (*abraço para o padre simpaticão que sentou do meu lado – desculpe, mas esqueci o seu nome – e que parecia tão feliz quanto uma criança no programa da Carla Perez), parceiros e autoridades, entre os mais de 2.500 convidados que lotaram todas as 12 salas do complexo. Com direito a tapete vermelho, orquestra sinfônica (me senti no Oscar) tocando um belo repertório executado pela Orquestra Santo Antônio, formada por estudantes do CESA – o centro educacional de Irmã Dulce – e integrante do Neojibá (Núcleos Estaduais de Orquestras Infantis e Juvenis da Bahia), todas as salas ficaram super lotadas, todo mundo emocionado, muitos coleguinhas conhecidos dos jornalecos soteropolitanos, a nata da sociedade baiana jogando confetes entre sorrisos falsos e tapinhas nas costas, pipoca e refri de graça, num evento que foi um dos mais concorridos dos últimos tempos na Bahia.

No foyer, o público circulou ao lado de famosos, como os atores Marcos Frota (produtor associado), Giulia Gam, Bianca Comparato e Regina Braga, que interpretaram Irmã Dulce nas fases mais jovem e madura (ambas fizeram questão de conferir o resultado do trabalho junto com o público), Zezé Polessa, Malu Valle, Amaurih Oliveira, Fábio Lago e Caco Monteiro -, além do diretor Vicente Amorim, à produtora Iafa Britz, da Migdal Filmes, e Bruno Wainer, responsável pela distribuição da fita, para saudar os espectadores nessa história tão extraordinária de amor ao próximo.

Até a Maria Rita Pontes, sobrinha da beata, agradeceu ao arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, dom Murilo Krieger, também presente à sessão, e a todos que apoiaram o projeto, e falou da alegria de poder ver uma obra desta dimensão para retratar, com sua verdade, toda a luta da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres em favor dos mais necessitados. Mas a ampla repercussão do evento trouxe também jornalistas de todo o país à capital baiana. Esse é o primeiro filme sobre a Irmã Dulce que entrou em cartaz, por enquanto, nas regiões Norte e Nordeste. No restante do país, a estreia do filme será no próximo dia 27 de novembro.

Pré-estreia de Irmã Dulce – Foto de Genilson Coutinho

O filme é bem dinâmico e mostra momentos como quando ela levou (sem autorização dos superiores) pessoas pobres e enfermas para serem cuidadas no galinheiro do convento, mas a participação dela e de outras freiras no resgate das vítimas de um acidente em frente ao convento é emocionante. Muitos se questionaram sobre o conteúdo do filme que poderia ter um sub-título: “A História de João”, pois o filme destaca com muito cuidado o relacionamento de “mãe e filho” entre a freira e João (interpretado pelo excelente e premiadíssimo ator baiano Amaurih Oliveira), um menino pobre que, tanto na infância como na vida adulta, Irmã Dulce o salva duas vezes da morte: retirando-o do ônibus após acidente em frente ao convento e quando criminosos o ameaçam de morte por conta de uma dívida.

VIDA E OBRA – Para quem acha que a figura da religiosa para esse filme foi escolhida no acaso, engana-se redondamente. Irmã Dulce (1914-1992) foi uma religiosa fervorosa católica que dedicou a sua vida inteira a ajudar os doentes, os mais pobres e necessitados. Ela foi beatificada pelo Papa Bento XVI, em 2011, passando a ser reconhecida com o título de “Bem-aventurada Dulce dos Pobres”. Seu processo de canonização está em andamento desde o ano de 2010. Desde criança desejava seguir a vida religiosa e rezava muito pedindo algum sinal que mostrasse se deveria ou não seguir esse caminho.

Ainda na adolescência, começou a desenvolver a sua missão de ajudar os mendigos, carentes e enfermos. Aos treze anos, foi recusada pelo convento de Santa Clara por ser muito nova. Mas, no ano de 1932, formou-se professora primária e no ano seguinte entrou para a Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão, Sergipe. Dois anos depois, fez votos de fé, tornando-se freira e recebendo o nome de Irmã Dulce, em homenagem a sua mãe. O diretor consegue narrar de forma quase didática essa fase, mostrando também que, de volta a Salvador, já como freira, sua primeira missão foi ensinar em um colégio mantido por sua congregação religiosa. No ano de 1936, com apenas 22 anos, fundou a União Operária São Francisco, juntamente com um outro religioso. Deve-se à Irmã Dulce, por exemplo, a criação do Colégio Santo Antônio, voltado para os operários e suas famílias. Importante também foi a sua participação na criação de um albergue para doentes localizado no convento de Santo Antônio, o que depois iria se transformar no Hospital Santo Antônio.

Achei uma pena o filme não ter citado que no ano de 1988, a Irmã Dulce foi indicada ao Nobel da Paz pelo então presidente do Brasil José Sarney, com o apoio da rainha da Suécia. Mas o enredo enfatiza que logo cedo a Irmã Dulce começou a apresentar problemas respiratórios, que tinha uma saúde frágil, mas não parou seu trabalho. Já debilitada, foi internada no Hospital Português da Bahia, e depois transferida para a UTI do Hospital Aliança e finalmente para o Hospital Santo Antônio. No dia 20 de outubro de 1991, Irmã Dulce recebeu a visita do Papa João Paulo II, para receber a benção e a extrema-unção – o que foi mostrado no filme, com cenas reais. Em 2000, recebeu do Papa João Paulo II, o título de “Serva de Deus”.

O filme acaba no ano de 1980 quando, durante a primeira visita do papa João Paulo II, ao Brasil, Irmã Dulce foi convidada (depois de ter sido boicotada pela própria Igreja) a subir no altar e recebeu do papa, um terço e ouviu as seguintes palavras: “Continue, Irmã Dulce, continue”. Irmã Dulce faleceu em Salvador, no dia 13 de março de 1992. Seus restos mortais estão enterrados na Capela do Hospital Santo Antônio. A Irmã Dulce foi beatificada em 22 de maio de 2011, na cidade de Salvador, numa cerimônia presidida pelo arcebispo emérito de Salvador, Dom Geraldo Magela Agnelo, enviado do Papa Bento XVI. O milagre que levou à beatificação foi reconhecido oficialmente pelo Papa Bento XVI em 10 de dezembro de 2010. A freira baiana recebeu o título de Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, tendo o dia 13 de agosto como data oficial de celebração de sua festa litúrgica.

Pré-estreia de Irmã Dulce – Foto de Genilson Coutinho

A atriz que representa Irmã Dulce ainda jovem é a competentíssima Bianca Comparato (que já atuou nos filmes “Como Nascem os anjos” e “Cidade do Sol”), que contou em entrevista como conheceu a freira: “Conheci Irmã Dulce lendo o roteiro. Fiquei emocionada e pensei que muitas pessoas não conhecem a história dela. As pessoas precisam de ‘mais Dulce'”. A atriz também relatou que morou durante três meses em Salvador para preparar a personagem e fazer as gravações. “Foi uma oportunidade de levar essa história para o Brasil. Uma mulher como ela todo mundo tem que conhecer. Ela acolhia todo mundo sem preconceito. A coisa mais importante para mim foi participar desse projeto” disse Regina Braga, atriz que interpreta a personagem da freira mais velha.

O diretor do filme, Vicente Amorim, destacou as dificuldades de lidar com um personagem de tamanha importância. “É muito difícil contar a história de uma mulher que é objeto de culto” disse o diretor dedicado a contar a história do “Anjo Bom da Bahia”, num filme que traz detalhes marcantes da vida da freira baiana. O filme mostra ainda as dificuldades enfrentadas pela religiosa como o preconceito, o machismo, os dogmas da Igreja e sua própria doença respiratória, mas que deixou um legado que perdura até hoje.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina


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