Espetáculo Fora da Ordem: Lelo Filho incomodando e queimando demônios
Teatro

Espetáculo Fora da Ordem: Lelo Filho incomodando e queimando demônios

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“Fora da ordem deseja examinar diversos temas: o golpe militar, a censura, a tortura, as famílias separadas pelo exílio, as relações familiares complicadas com a homossexualidade de um filho, a Aids, as redes sociais e a violência racial.”

Por Elenilson Nascimento

Há um grande equívoco em relação ao que se pensa, o que se sabe e o que realmente acontece sobre a cultura na Bahia, especificamente em Salvador. Por conta desse pensamento comiserado de “incensar” os oprimidos – doença nefasta que é um dos grandes equívocos reforçados pelas eras medíocres dos governos Lula/Dilma –, a exaltação da própria cultura, endógena, popular chegou a uma hiperbólica cegueira sobre a pobreza cultural que nos assola. O Brasil comemora campeonatos de futebol, carnaval, beijos gays em novelas, BBB, dadas cívicas, enquanto a República das Bananas hoje olha incauta o poder de exceção se instaurando sem qualquer limite ou empecilho.

Artistas brasileiros, outrora, provocadores e porta vozes dos anseios, questionamentos e sonhos do povo, hoje, produzem dores, odores, óbitos camuflados de honradez e fatos heroicos personificados na fala mambembe de William Bonner com manchinha branca no cabelo no fabricado e mentiroso JN. Todos aqueles intelectualmente espertos souberam dialogar com a nossa própria História, com o nosso passando, outras culturas, outros povos, outros modos de produção, outros diálogos, outras fontes, outras mídias, criação e identidade, para se reinventarem. Mas, na Bahia, somos descuidados nesse ponto, sempre vítimas de transações enquanto a pátria que lhe pariu ainda dorme distraída e sempre ofertando, oferecendo o cu pra rola, humildemente na sua outra face.

E, nesse ínterim, o excelente ator baiano Lelo Filho é a exceção. Conhecido por suas participações em espetáculos como “A Bofetada” e “Siricotico – Uma Comédia do Balacobaco”, entre outras comédias, para comemorar os seus 32 anos de carreira, estreou, no último dia 08/11, o seu primeiro monólogo, intitulado “Fora da Ordem”, que está em cartaz no Espaço Xisto Bahia, em Salvador, sempre às 20 horas, e domingo, às 19h, para debater sobre o período de ditadura no Brasil. Sim, o pai da Fanta Maria, saiu (até que enfim!) da perigosa e enfadonha zona de conforto e encarou personagens sofridos em um dos piores períodos na nossa História e que alguns idiotas querem reviver – onde personas que fazem parte de um núcleo familiar padecem com seus fantasmas e as consequências da ditadura.

Não. Não estamos em 2014. Estamos falando de 50 anos atrás, quando uma sucessão de crises (econômicas, políticas, sociais, ideológicos) acompanhada de uma série de desmandos deu origem ao Golpe Militar do dia 31 de março de 1964 (ainda que alguns professores que adestram alunos a marcarem xis em provas digam que a data correta do levante, pelo desdobramento dos acontecimentos, seria o dia 1º de abril, mas que foi registrada de forma adiantada pelos militares para evitar tão infeliz coincidência – que talvez se mostrasse um mau presságio para tão infeliz acontecimento). Claro que o título da peça evoca uma música de exílio, composta por Caetano Veloso, e a pergunta que se faz: “Por que o exílio do pensamento crítico e da produção em massa?” Mas a peça começa no ano de 1968, ano da promulgação do Ato Institucional número 5 (AI 5). E Lelo apresenta Pedro, em clima sombrio, filho de um major torturador. Pedro é irmão de Glorinha (bailarina que se exila no Chile e que também sofre com o regime do general Pinochet). Mas Lelo ainda se multiplica nas peles dos outros irmãos de Pedro: Adriano (escritor) e Jonas (ator, que é homossexual), além de Pedrinho, filho de Adriano que é fotógrafo e documentarista.

E, nesse Brasil, distante para os mais jovens e esquecido pelos professores de História, do ame-o ou deixe-o, nessa pátria que cisma em festejar o luto da sua própria cultura… Brasil, onde o cidadão sempre foi o verdadeiro coração valente frente a frente com o seu presente covarde que lhe oferta como anti-herói, a corrupção sendo vista como legítima, o ator premiado, sozinho no palco num cenário macabro (com direito até a cadeira elétrica), interpreta emocionado coisas que nós queremos esquecer, incorporando no seu modo narrativo para conduzir um enredo nada fácil, e acaba saindo muito bem na empreitada, demonstrando versatilidade, cuidado, talento e talento de novo – nas cenas da tortura, por exemplo, onde emociona e passa muita verdade na construção de seu personagem agredido.

Lembrei muito de outras peças como “A Comida de Nzinga”, com texto de Aninha Franco e direção de Rita Assemany; além de “Cabaré da Raça”, do Bando de Teatro Olodum, que, por incrível que possa parecer, causou polêmica na imprensa sempre medíocre local por diversas acusações de ser um ato racista, quando prometia meia entrada para quem se declarasse negro. Pois aqui, em Salvador, há um pensamento equivocado de que somos uma cultura forte e rica. e tudo não passa de uma grande mentira. Somos uma cultura fraca e pobre, e o pior: sem memória, justamente porque nos fechamos em nossa própria arrogância, folclorizando e exaltando o fútil como algo maravilhoso, especial, diferente de tudo.

Mas o texto de Lelo Filho não só aborda as agruras da ditadura, mas se refere ao racismo, imigração, homofobia, violência, intolerância religiosa, Dzi Croquetes, conflitos étnicos e até Aids, sem faltar briga de adolescentes, maus-tratos de animais, etc. Lelo “atira” para todo lado no que diz respeito às mazelas. E apesar de ter achado a cenas da leitura de cartas muito cansativa, Lelo surpreende ao interpretar a canção “Creep”, do Radiohead: “When you were here before (Quando você esteve aqui antes)/Couldn’t look you in the eye (Sequer pude olhar em seus olhos)/You’re just like an angel (Você é como um anjo)/Your skin makes me cry (E sua pele me faz chorar)”. Quase tenho um enfarto! Cena linda!

E por trás dessa pesquisa, desse cuidado em abordar um assunto pesado, onde ainda se esconde a opressão (*na parte da peça chamada “Homens de bem”) de nos caracterizarmos como pessoas que falam alto, cospem no chão, mijam na rua, mas que são felizes em suas misérias de ignorar o passado, não estudando, não crescendo, Lelo dá um tapa na cara e parece gritar: “Acorda, porra!” E se propõe a falar de temas incômodos, pois há ainda uma opressão a esse respeito. Ao contrário do que muitos costumam pensar, os conflitos que direcionaram os militares para o Golpe de 1964 não tiveram início em 1961 com a até hoje inexplicada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República.

É natural que, num povo onde constantemente se exalta a mediocridade de se bastar com sua cultura endógena, a cultura seja rasa e as possibilidades exíguas, essa peça “Fora da Ordem” venha incomodar. Com isso, não tem teatro, música, dança nem literatura que se sustente. E, o pior, começa-se a pensar que o “especial” povo de Salvador tem suas particularidades, num egocentrismo pateta que serve de desculpa à falta de educação e cultura de nossa população. Com “Fora da Ordem”, Lelo Filho envereda, alfinetando, por um outro caminho pouco usado pelos atores baianos: o caminho do fazer pensar!

Um Lelo sozinho em cena representa um pouco da solidão de todos nós, do artista cênico, do artista popular, do panfletário, do homem cartaz, do homem Facebook, propondo um espetáculo que busca tocar em feridas dolorosas, sem o subterfúgio do riso como elemento “amaciante”. Ponto pra ele! Detesto esse teatro que sempre coloca o negro soteropolitano como o galhofador, pois legitimar a imagem do negro falastrão, esculhambado, folgado, malandro, ignorante e cheio de ginga é a pior forma de se lutar contra o preconceito e a segregação. E “Fora da Ordem” queima esses demônios! E se mesmo em comédias mais debochadas, sempre rimos dos defeitos humanos mais abjetos, “Fora da Ordem” aposta em um tom mais solene e finca um pé direito num outro universo.

Sem conteúdo de História para estudantes de pré-vestibulares, só com lampejos de Parnasianismo, assunto mais fácil, mais teórico, onde as artes não aparecem contempladas, como uma questão bastante voyeur de Neoconcretismo, num aforismo de “Grande Sertão Veredas”, ou seja, uma peça que se traduz no esforço de ser inédita, de não ter programa, propaganda, panfletos, partidos, de não se saber o que se vai cobrar, uma peça não tendenciosa e nada minimalista e que tem o público (quieto) como grande interlocutor, aliás, quem é o garoto propaganda do Enem? O conteúdo? Os professores que nada sabem? As frases feitas para marcar a presença de um governo medíocre? Na peça do Lelo Filho, qualquer um pode se encher de conteúdo. Os meninos de escola privada e pública não são excluídos, embora o Enem precise deles para bancar o seu sonho megalômano sitiado num pensamento de esquerda.

Uma pergunta óbvia que fica é: por que espetáculos críticos como o “Fora da Ordem” não são tão divulgados quanto o pagode modorrento da esquina? Isso serve para se pensar que tudo serve para um engendramento de poder na mudança de um ensino melhor, pois estes estão sendo esvaziados de propósito. Na peça do Lelo, não há motivos nem espaço para o riso, nem para soltar fogos, mas de pensamento. Devíamos, sim, lutar para termos mais “miltons santos”, “lelos filhos”, “nelsons rodrigues” e não legitimar o que nos empobrece, indignifica e nos folcloriza.

“Fora da Ordem” permanece em cartaz durante todo o mês de novembro, no Espaço Xisto Bahia, na Biblioteca Central dos Barris, em Salvador. Apareçam para encontrar um Lelo Filho sozinho diante do público, despido dos recursos humorísticos que caracterizaram a maior parte das produções da Cia. Baiana de Patifaria, conseguindo efetivamente subverter as expectativas do público cativo de sua companhia. E, principalmente, fazendo o pensar! P.S. Algumas cenas muito longas deveriam ser cortadas e deixaria o espetáculo mais dinâmico e menos didático. Mas, vamos fazer campanha no Facebook para o Lelo Filho gravar um CD de covers, nem que tenhamos de vender na porta do Center Lapa!

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Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina


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