Entrevista com a escritora Eleonor Hertzog
Literatura

Entrevista com a escritora Eleonor Hertzog

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Eleonor Hertzog

“Minha opinião sobre o governo Dilma: só vou acreditar que querem realmente o bem deste país quando começarem a investir em educação básica de qualidade, para fazer nosso povo voltar a pensar.” (E.H.)

Por Elenilson Nascimento

Formar leitores não é tarefa muito fácil. É preciso que família, formadores de opinião, escritores, blogueiros e professores trabalhem em conjunto. O interesse pela leitura deve ser estimulado desde a infância, na família, pois é a primeira instituição, seguida pela escola. Está previsto na Lei 8069, no Estatuto da Criança e do Adolescente, entre outros direitos, o direito à cultura. Infelizmente tanto família quanto escola têm falhado com esta obrigação. Mas é preciso que a leitura também seja adequada à idade, envolvente para que desperte a magia, a curiosidade e o prazer por ler. Jogar os livros obrigatórios em uma mesa de sala de aula não é a melhor forma, ao contrário, a má vontade e a obrigatoriedade não geram prazer.

Dessa forma, pensando em divulgar literatura por toda parte, a entrevista de hoje é com a escritora Eleonor Hertzog. Nascida no ano de 1959, gaúcha de Porto Alegre, pediatra por formação, é escritora de coração. Lê desde que descobriu o que eram livros e, desde o primeiro livro, descobriu que adorava contar histórias. No começo eram as dos livros. Mais tarde, as dos livros com alguns acréscimos. Na adolescência, surgiram personagens, lugares e situações que não vinham de livro algum, iniciando a longa moldagem da distopia onde se passa “Uma geração. Todas as decisões.”, cujo primeiro livro, “Cisne”, foi lançado em dezembro de 2012. “Paixão, esperança, otimismo. Se eu puder fazer UMA pessoa passar a gostar de ler com meus livros, já valeu a pena”, disse.

Elenilson – Como surgiu o desejo de lançar um livro?

Eleonor Hertzog – São duas coisas diferentes: o desejo de escrever nasceu comigo, eu acho. O desejo de publicar só surgiu bem mais tarde, quando… perdi a timidez? Pior que foi bem isso.

Elenilson – Como se sente com a receptividade das pessoas que leram a obra?

Eleonor Hertzog – Feliz! Tudo o que um escritor quer é a oportunidade de ser lido. Há os que adoraram, há os que leram até o fim (considerando as 832 páginas, um feito) e também tem a turma que não gostou. Sorri com cada elogio e aprendi com cada crítica.

Elenilson – Por favor, fale-nos um pouco sobre a sua obra “Cisne”.

Eleonor Hertzog – “Cisne” é o primeiro volume de uma saga de fantasia e ficção científica. Sua história acontece, em sua maior parte, em um barco de pesquisas de nome “Cisne”. Os doutores Melbourne, biólogos marinhos, são os responsáveis pelo barco, e seus oito (isso mesmo, oito!) filhos são a turbulenta tripulação, que se atrita como qualquer grupo de irmãos, mas é de uma união admirável. Há um outro mundo habitado em nosso Sistema Solar, acontecem problemas diplomáticos entre a Terra e este outro mundo e, de uma forma bem inesperada, esses problemas serão resolvidos a bordo do Cisne, no meio do mar. Como resumo do resumo, esse é o livro “Cisne”! Com uns repórteres implicantes, estagiários alienígenas e astronautas famosos como tempero extra. “Cisne” esgotou sua primeira edição em pouco mais de meio ano. Agora, finalmente, a segunda edição está prestes a sair.

Eleonor Hertzog

Elenilson – Você pode compartilhar com a gente alguma lembrança da época da juventude com um livro importante/impactante para você?

Eleonor Hertzog – Leio desde sempre, mas a primeira leitura que realmente me marcou foi Monteiro Lobato. Li TODA a sua coleção infantil mais de uma vez, e olha que são muitos livros! Os livros eram de uma vizinha, que era professora e tinha a coleção com capa dura, em uma edição que nunca mais encontrei. Eu levava um livro e buscava outro, quase todos os dias. Era quase um ritual.

Elenilson – Está enganado quem acha que idiotas não lêem. A verdade é que boa parte da literatura está voltada para eles, que tratam de transformar autores sem talento em multimilionários. Como você encara isso?

Eleonor Hertzog – Ai, ai… Ok, vamos lá. Definição técnica de retardo mental: idiota – QI inferior a 25, idade mental inferior a 3 anos; imbecil – QI entre 25 e 50, idade mental entre 3 e 7 anos; debilidade mental – QI entre 50 e 90, idade mental entre 7 e 12 anos. Compreendo perfeitamente o sentido pejorativo de “idiota”, mas minha formação médica me obriga a esclarecer que, definitivamente, idiotas não lêem. Eles não têm alcance intelectual para isso. “Idiota”, aí acima, significa “gente com um gosto literário muito diferente do meu”. Cada um com seu gosto. A mim, interessa o fato de que, num país onde a literatura é pouco valorizada, eles lêem. E ler sempre vale. Até bula de remédio e jornal sensacionalista. “Transformar autores sem talento em multimilionários”? Sejamos honestos, um talento ao menos estes autores têm: souberam aproveitar as tendências do mercado a seu favor, e isso é um GRANDE talento! Pode não ser talento literário, mas que é talento, ah, isso é. E todo mundo gostaria de ter um talento desses!

Elenilson – Schopenhauer já dizia que “quem escreve para os tolos encontra sempre um grande público”. Qual o seu cuidado com as suas linhas para não ser classificada como autora para um determinado público?

Eleonor Hertzog – Bem, eu sou escritora para um determinado público: os que gostam de ficção científica, fantasia, aventura, família e personagens bem-humorados. Não tenho a menor pretensão de agradar a todos. Quanto a Schopenhauer, acredito que disse isso em um dia em que estava muito p. da vida com algum desafeto que estava fazendo MUITO sucesso… Segue o mesmo argumento que usei acima: costumamos rotular (nada elogiosamente) quem pensa diferente de nós. Há os que gostam de ler para se aprofundar em algum assunto, para pensar, para se aprimorar como ser humano. Há os que gostam de ler para se divertir, passar o tempo, ou até para não pensar. Cada um com sua escolha – é simples assim.

Elenilson – A liberdade de publicação de biografias tem gerado grande polêmica desde o início de 2013, quando o grupo Procure Saber – integrado por Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Djavan, entre outros artistas, e presidido pela ex-mulher de Caetano Paula Lavigne – passou a defender a proibição de obras não autorizadas pelos biografados ou por suas famílias, em caso de morte. Como você vê essa pendenga?

Eleonor Hertzog – Estou do lado do grupo Procure Saber, sem dúvidas. Biografia é o “testamento” da pessoa. Pertence a ela mesma ou à sua família. Por outro lado, se alguém quiser escrever um enredo romantizado baseado em fatos reais, isso já é outro assunto. É literatura, não é biografia. São duas coisas bem diferentes.

Elenilson – O que é mais difícil na vida de escritor?

Eleonor Hertzog – Encontrar tempo para escrever, no meio das outras mil tarefas profissionais e pessoais; encontrar tempo para ler, no meio disso tudo também; encontrar uma editora disposta a, ao menos, avaliar seu original sem meter num canto esquecido; entrar num mercado saturado e encontrar seu lugar nele; precisar bancar financeiramente seu sonho, muitas vezes.

Eleonor Hertzog

Elenilson – O que mais você gosta de fazer, além de escrever?

Eleonor Hertzog – Gosto de estar com a família, ler, conviver com meus gatos e cachorros, bordar ponto-cruz e cuidar do jardim.

Elenilson – Vejo com muita desconfiança a falta de participação dos autores brasileiros com relação aos problemas sociais. Não vejo nenhum autor se manifestando com relação ao assistencialismo barato do governo petista muito menos aos desmandos da presidenta Dilma. Porque os formadores de opinião não se expressão e saem um pouco das suas áreas de conforto?

Eleonor Hertzog – Em primeiro lugar, não sei de UM escritor vivendo em área de conforto. Vivemos em áreas de extremo desconforto, todos nós. Em segundo lugar, nunca vi tanta gente discutindo posições e opiniões políticas como nos tempos pré-eleição. Vale ressaltar que vi muitas amizades sendo desfeitas por causa disto, também. Minha opinião sobre o governo Dilma, os que vieram antes e os que virão após: só vou acreditar que querem realmente o bem deste país quando começarem a investir em educação básica de qualidade, para fazer nosso povo voltar a pensar. Todos estão se empenhando em criar gerações e gerações de analfabetos funcionais que não sabem nem interpretar um texto, quanto mais interpretar o mundo e o país em que vivem. Sem educação básica e cidadãos pensantes, todo o resto é perda de tempo.

Elenilson – O que te motiva a trabalhar com livros, sabendo que no Brasil as pessoas não dão muito valor à literatura?

Eleonor Hertzog – Paixão, esperança, otimismo. Se eu puder fazer UMA pessoa passar a gostar de ler com meus livros, já valeu a pena.

Elenilson – No processo de criação, o que considera mais difícil: determinar os rumos da história, escrever o texto de forma clara ou apresentar os personagens com concisão e profundidade?

Eleonor Hertzog – Meu problema é com concisão, em todos os sentidos e aspectos!

Elenilson – Em “Cisne”, você se baseou em uma experiência real? Como foi vivenciar esse universo? Alguma coisa em especial chamou a sua atenção no processo de criação do livro?

Eleonor Hertzog – “Cisne” é ficção e fantasia, e seu universo criou a si mesmo. Muitas vezes, me sinto quase uma expectadora de meus personagens, o que é uma experiência fantástica. Isso é o que mais me chama atenção em tudo que escrevo: há personagens tão vivos que contam as histórias sozinhos. Sou só a narradora.

Elenilson – Está envolvida em algum novo projeto literário?

Eleonor Hertzog – Sempre. A segunda edição de Cisne sai ainda este mês, o terceiro livro da série, intitulado Talismãs, está em processo de finalização, assim como um spin-off chamado “O Olho do Feiticeiro”.

Elenilson – Qual escritor considera de leitura obrigatória?

Eleonor Hertzog – Todos que escreverem fantasia, principalmente juvenil. Um escritor sempre deve ler o que está sendo lançado para seu público.

Elenilson – Como você vê o investimento na literatura nacional?

Eleonor Hertzog – Dos escritores, vejo um investimento tremendo e um esforço maior ainda.

Elenilson – Eleonor, favor deixar uma mensagem aos jovens escritores.

Eleonor Hertzog – Leia, leia, leia, e, por favor, conte a sua história, não a mutação da história do vizinho que você leu e gostou. Acima de tudo, alfabetize-se na nossa língua pátria, que é difícil, mas é nossa. Já vi muitas histórias excelentes assassinadas por erros terríveis de português. Estes erros foram escritos por alguém que se diz escritor, revisados por alguém que não revisou coisa nenhuma e ratificados por um editor que nem olhou o que estava publicando! Dói na alma…

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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