Entrevista com o escritor Kleber Gutierrez | Cabine Cultural
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Entrevista com o escritor Kleber Gutierrez

Kleber Gutierrez

Kleber Gutierrez

“Meus posicionamentos tendem a abalar as estruturas confortáveis dos senhores das senzalas literárias.” (K.G.)

Por Elenilson Nascimento

Cada país, cada povo, tem os representantes que merece. Uma das coisas mais comuns de ouvirmos do senso comum em relação ao universo político brasileiro é a máxima de que em Brasília só há corruptos. A frase é ilustrativa do quanto o brasileiro exime-se quando se trata de assumir as responsabilidades pelas mazelas nacionais. Falamos como se Brasília, o Distrito Federal, fosse uma terra maligna e fértil de onde brotam espontaneamente políticos nada dignos e sempre dispostos a corromperem e serem corrompidos. Ora, o que há de bom e de ruim na capital federal é nada menos que o produto da exportação de todos os estados do país, de todos os eleitores brasileiros. Brasília tem o que nós, como cidadãos e eleitores, enviamos das urnas para lá.

E nessa entrevista inédita com o jornalista e escritor Kleber Gutierrez, editor de economia do Diário do Comércio, além de videomaker e ator, onde já foi até dono de restaurante e ainda tem um lado B manifestado no seu canal “Porrada Filosófica”: “Ao meu lado não tem só um B. Amante das artimanhas da língua, nasci Poeta!”. E um pouco mais desse lado B podemos encontrar no seu excelente livro “Letra” (1997) e agora também nessa entrevista, onde discutimos um pouco sobre política, educação e, claro, literatura. Contudo, sabe-se que a maior dificuldade do jornalismo on-line hoje é despertar o interesse do leitor e fazê-lo ler um texto integralmente, principalmente quando os textos são grandes. Mas, por outro lado, o que ainda chama muito atenção é a falta de criatividade da imprensa para inovar, entrevistar e atrair leitores. E estamos aqui para provar o contrário… Pois, com disse Gutierrez em um dos seus poemas: “Tecer nós amarrando laços entre os muitos que somos/tecer-nos”.

Elenilson – Como surgiu o gosto pela poesia?

Kleber Gutierrez – Meu primeiro poema surgiu quando tinha 13 anos. Não sei exatamente o que disparou o processo. Os hormônios da adolescência e a insatisfação com o mundo ao redor – típica dessa fase da vida – aliados a um universo interior muito complexo e precoce talvez tenham colaborado para esse afloramento. Poeta nasce poeta. Não é algo que você se torna ou estuda. É como ser gay, hétero ou hemofílico (risos). Um dia isso vem à tona, ou não. Mas sempre esteve ou está em algum lugar de você.

Elenilson – Para você, o olhar do crítico e do artista em relação a uma obra é muito diferente?

Kleber Gutierrez – Diametralmente opostos. Os críticos dissecam uma obra de arte como os estudantes de biologia analisam o sistema nervoso de um anfíbio. A maioria deles acredita ser possível encontrar exatidão na jornada artística. Já os criadores têm certeza da força do onírico em nossas vidas. Artistas recriam ou expressam a inexatidão de suas existências. E isso é a nossa maneira de dizer: “Meu mundo é caótico, muitas vezes incompreensível, mas pleno de beleza.”

Elenilson – A sua atuação como crítico nas redes sociais interfere muito no seu dia a dia e no trabalho como ficcionista e poeta?

Kleber Gutierrez – Quando me posiciono sobre variados temas nas redes, sou o bicho político que não consegue deixar de dar uma resposta aos absurdos que vejo, leio e ouço na internet. O ambiente virtual mostra lados inimagináveis dos seres, que creem piamente não se comprometer por não enxergar os olhos do interlocutor. Essa atuação interfere no meu olhar sobre o outro. Há surpresas positivas e muitas decepções. E, claro, é um ambiente rico para a detecção de caráteres, o que amplia meu arsenal de criaturas fictícias. Já minha poesia passa distante disso. Faço poemas que se voltam ao cerne dos seres humanos. Questiono na poesia aquelas coisas sentidas, irresolutas e ancestrais. Por isso, atemporais. Meus poemas encontrariam eco em seres de épocas distintas, pois os sentimentos primordiais estão em nós desde que o primeiro ser descobriu que pensava. Minha poesia é arquetípica, a internet não.

Elenilson – Na sua opinião, a literatura é uma arte difícil e solitária como colocam alguns escritores?

Kleber Gutierrez – É preciso sempre ter em mente que qualquer ação humana, lamentavelmente, é permeada de ego. Principalmente entre nós, ocidentais, há uma supervalorização do ‘eu’. E muitos escritores adoram ver seus ‘eus’ sobre pedestais, preferencialmente inatingíveis aos considerados comuns mortais. Há muito mito, muita glamorização do ato. Considero a literatura uma arte prazerosa e colaborativa. Feita a partir das experiências dos vários que compartilham deste mundo comigo.

É claro que há o momento em que tudo deve ser materializado, transcrito, e isso é algo pessoal, intransferível. Mas nunca solitário. No máximo, com aquela solitude gostosa compartilhada por mim e meus papéis ou com a tela branca e um cursor pulsante.

Elenilson – O que você acha dessas panelinhas de escritores e demais articulistas da opinião alheia em bienais e feiras literárias?

Kleber Gutierrez – Elas são a prova material do egoísmo que permeia as ações humanas, e as artes – tristemente – não estão livres disso. O formato dessas ‘panelinhas’, como você chama, foi definido na Idade Média com a ascensão do mecenato. Poucos artistas eram escolhidos como ‘vassalos geniais’ de determinados nobres. E, claro, havia muita competição entre eles com o intuito de serem os ‘eleitos’. A nobreza e os mecenas foram substituídos pelas empresas e, do lado do Estado, pelos fomentos ou leis de incentivo que, geralmente, beneficiam as corporações, as obras pasteurizadas e as celebridades de cunho duvidoso. Os atuais ‘vassalos geniais’ continuam se engalfinhando para manterem-se ‘eleitos’. Poucos escolhidos entre aqueles que lambem as botas do pessoal do marketing ou das empresas desesperadas por publicidade fácil com cultura de digestão rápida. Nada de novo ou questionador será aceito enquanto este sistema prevalecer. A genialidade dos que chegam abala o status quo. Só são inseridos nos grupelhos aqueles que não podem impor perda de salamaleques aos que lá já estão. Com isso, perdem os artistas, que não conseguem apresentar suas produções; perde o coletivo, que não recebe novos impulsos no pensamento social. E perde a humanidade, mantida medíocre pelo que se chama mercado. Talvez seja por isso que nunca fui convidado a feiras, exposições, baladas literárias, bienais (risos). Meus posicionamentos tendem a abalar as estruturas confortáveis dos senhores das senzalas literárias.

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Elenilson – Muitos autores ambicionam ter um romance publicado e, de preferência, na lista de mais vendidos. Para você, todo escritor é um romancista em potencial ou existe uma forma literária mais adequada a cada voz?

Kleber Gutierrez – Quando era mais jovem (tenho 47 anos agora), tinha sonhos de ser um autor reconhecido, de fazer parte do ‘tal’ sistema. Esses pensamentos me deixaram há muito. Hoje, me basta saber que produzo, que minha mente evolui, que me melhoro como ser. Não tenho mais a ânsia do produto final, encadernado e exposto numa vitrina. Se acontecer, claro, desfrutarei. Contudo, não é mais o que me conduz. Talvez venha a ser apreciado daqui a 200 anos (risos). Estarei feliz com isso em algum lugar do cósmico (mais risos). Quanto ao estilo, ao formato, penso que devemos sempre manter viva a liberdade do experimento. Faço poesia, geralmente curta, sintética, mas já escrevi poemas enormes. Faço contos e um texto meu em prosa (de 1993) acabou de virar um filme, um curta-metragem chamado “Ataque de Consciência”, que começa a ser enviado para festivais ao redor do mundo. Aliás, neste ano, fizemos quatro curtas-metragens. Todos destinados a festivais nacionais e internacionais. Também produzo um programa chamado “Porrada Filosófica”, com canal no Youtube e no Facebook, que trata de reprogramação neurolinguística e filosofia aplicada. Artistas devem experimentar, experimentar e experimentar…

Elenilson – Eu sempre achei o sistema educacional brasileiro medíocre. Desde a minha época de estudante de colégio público até os bancos universitários da vida com pós pra lugar algum, eu me questiono o que fui fazer por lá. Nunca me senti a vontade em salas de aula, sempre considerei os piores lugares para se aprender qualquer coisa – tanto como aluno e um pouco mais tarde (infelizmente) como professor. Acho “tudo” que me foi “jogado” guela abaixo de uma inutilidade enfadonha. Esse quadro parece um pouco anedótico, mas é muito mais comum do que os “especialistas” acreditam. Hoje, a única coisa boa que poderia me acontecer era poder ir trabalhar com “qualquer coisa” em algum país bem longe dessa mesmice de lugar nenhum. O que você pensa sobre o ensino no Brasil ser péssimo, além de estar formando uma geração de despreparados, com professores alienados e incompetentes?

Kleber Gutierrez – O maior problema do Brasil (neste quesito, claro, pois os desafios são enormes e em todas as áreas) é que não somos educados para pensar! Nosso sistema não cria senso crítico: o brasileiro pensa que pensa! E este despreparo cognitivo é o responsável pelas péssimas decisões que tomamos todos os dias. Nossas crianças são torturadas em sala de aula para decorar se uma oração é coordenada sindética ou assindética. Isso traz um pavor diante da língua, repulsa. Que diferença faz a qualificação da frase se são incapazes de entender o que as palavras significam? Como diz o Ziraldo, é preciso recuperar o amor pela leitura. O prazer que existe em descobrir esses universos encantados que nós escritores somos capazes de produzir. É a leitura que constrói um pensamento articulado, lúcido, rico. Enquanto as aulas de Português assustarem os alunos, viveremos em uma nação de medíocres.

Elenilson – O que você achou de uma recente matéria de capa da Veja que alardeou (como se ninguém soubesse) que “estudantes brasileiros são os piores nos rankings internacionais” e que mesmo assim “mais de 90% dos professores e pais aprovam as escolas”?

Kleber Gutierrez – Sou jornalista e abandonei o jornalismo após 30 anos para montar o “Delícias do Poeta”, um bistrô dentro de um teatro (o da Cia da Revista, em São Paulo) para trabalhar com gastronomia e arte. Não vi, pois não leio a Veja. Assim como não leio confiantemente a maioria dos chamados grandes veículos de Comunicação. São todos falsamente imparciais e vendidos aos interesses mais escusos desta republiqueta. A grande mídia não tem qualquer compromisso com o desenvolvimento do País, menos ainda com o bem-estar dos brasileiros. Seus proprietários, diretores e editores querem apenas manter seus gordos dividendos, sem qualquer idealismo.

Quanto ao dado em si, somos uma nação que adora recordes. E parece que não importa aos educadores, aos governos e, principalmente, à população se a maioria deles é negativo como o que você citou. Somos um País que lutou e morreu pela democracia, mas que sente falta do cabresto da ditadura. Somos um povo que ignora as próprias origens e que insiste em contar sua História a partir do tal ‘descobrimento’, ignorando a gente ancestral que aqui já vivia há dezenas de milhares de anos. É muito paradoxo para destrinchar em apenas uma resposta, de uma entrevista…

Elenilson – Uma coisa muito interessante com relação a professores é que eles “adoram” dizer que “amam” Marx, Paulo Freire e por aí vai. Muitas vezes não se deram nem ao trabalho de ler uma única página, mas amam assim mesmo. Como também foi colocado na Veja (*e olha que eu não gosto dessa revista): “…é embaraçoso que o marxismo sobreviva apenas em Cuba, na Coréia do Norte e nas salas de aulas brasileiras”. Repetir “frases de para-choque de caminhão” aprendidas nas universidades é muito mais fácil do que “estudar de verdade” e “ler de verdade” grandes autores. Por isso, conversar com muitos professores é uma das experiências mais ridículas para mim, pois é numa reunião de coordenação onde se manifesta a ignorância e o pedantismo. Então, qual seria o verdadeiro exercício “intelectual” entre esses “intelectuais” de quadro e giz?

Kleber Gutierrez – Discordo da citação: o Marxismo não existe nem em Cuba, nem na China e menos ainda nas salas de aula brasileiras. Nenhuma nação foi capaz de praticar o verdadeiro socialismo. Todas as tentativas foram corruptelas e deturpações filosóficas. Conheço professores que não suportam sequer ouvir falar de Paulo Freire. E acho que essa birra surge quando o método desse grande educador é usado à exaustão durante reuniões pedagógicas. Sem, contudo, ser devidamente aplicado. Essa hipocrisia desestimula os mestres. E, claro, há bons e maus profissionais em todas as áreas do conhecimento. Discute-se muito sobre a metodologia de alfabetização. Uns querem a volta do sistema Fônico, outros defendem o Construtivismo. Mas a realidade é que a progressão continuada premia os ignorantes e perpetua o desconhecimento. Some-se a isso o fato de que as famílias transferem às escolas a responsabilidade pela educação de seus filhos. E temos como resultado esse País de beócios.

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Elenilson – Vivemos tempos tenebrosos e para você qual a importância das ideias de Paulo Freire nos dias de hoje, visto que ele foi um esquerdista disfarçado de professor?

Kleber Gutierrez – Paulo Freire era um humanista, não um esquerdista. Sua visão de ensino atrelado a um reconhecimento da realidade social em que os educandos estão inseridos permanece vital. Vivemos um retrocesso na conquista de direitos e liberdades individuais. O neoliberalismo que nos rege forma consumidores, não cidadãos. Nossas crianças e jovens estão sendo educados para ‘ter’ e não para ‘ser’. É o mito da ascensão da classe média…

Elenilson – Conheço muitos professores universitários com baixo preparo intelectual (*falo isso porque muitos “trabalhos de equipe” de alunos eram bem mais interessantes que as aulas desses professores) que não têm condições de oferecer ao alunado uma abordagem multifacetada daquilo que eles próprios se propuseram a ensinar. Você acha que as universidades estão formando pensadores de quê?

Kleber Gutierrez – Com exceção de algumas (e ainda boas) cadeiras em universidades públicas, a popularização do ensino universitário não passa de venda parcelada de diplomas. Faculdades caça-níqueis que não têm interesse, nem compromisso com a formação de uma massa crítica. Querem, apenas, que as mensalidades sejam pagas em dia. Quanto aos alunos – que deveriam reivindicar um ensino mais rigoroso e seletivo – o interesse é meter logo a mão no canudo e construir uma carreira, não um embasamento intelectual. A maioria quer apenas faturar alto, de preferência em algum cargo conquistado não por mérito, mas por indicação.

Elenilson – No Brasil, os livros se transformaram em moeda de rápida circulação. As editoras criam novidades a cada mês para alimentar sua própria sobrevivência. Raramente relançam seus livros essenciais que parecem não vender. Estaria neste fato a origem do surgimento de escritores como Chico Buarque, Paulo “imortal” Coelho, Dan Brown, Jô Soares (*os livros do cara são péssimos) e por aí vai a lista? Esses “caras” devem permanecer na história como excelentes autores ou como excelentes produtos? Realmente eles são moedas rápidas e seguras?

Kleber Gutierrez – Isso acontece não apenas com os livros, e não só no Brasil. É um fenômeno mundial! E o tal ‘mercado’ é hábil em oferecer aquilo que as pessoas no momento buscam. A humanidade entregou-se ao consumo rápido: comidas, músicas, livros, pessoas… Tudo deve ser veloz, fácil, prático… Atualmente, até as relações são descartadas como roupas velhas da última estação.

Elenilson – O que seria “A SUPERFICIALIDADE DO BRASIL PROFUNDO”, além dos projetos mais “ambiciosos” do jornalismo da Globo: a “Caravana do Jornal Nacional”, “BBBs”, aquela “coisa” que eles chamaram de série “Desejos do Brasil” e, recentemente, a cobertura da Copa do Mundo com o Galvão Bueno berrando?

Kleber Gutierrez – Cara, não entendi nada, risos… Ou você foi muito ‘profundo’ ou eu boiei, fiquei na superfície…

Elenilson – No divertidíssimo livro “Nova York é Aqui” o Nelson Motta escreveu um comentário sobre o livro “The Kiss” da romancista Kathryn Harrison que narrou sua trágica e dolorosa relação amorosa e sexual com o seu próprio pai, dos 20 aos 24 anos. Esse livro de Harrison provocou escândalo e polêmica e teve críticas arrasadoras e elogiosas. Segundo Motta, não foi só a polêmica sobre o conteúdo do livro que impulsionou as vendas, mas a sua autora que, hoje com 50 anos, mesmo com uma respeitável carreira acadêmica e literária é ainda uma belíssima mulher, loura, naturalmente.

O texto de Motta diz que foi por causa disso (*dela ser linda) que acabou desfrutando de espaço privilegiado nos jornais, revistas e nos talk-shows das TVs. Será que para se promover um livro o autor tem que ser “midiagênico”, isto é, que fotografe bem, fale bem, que entenda sobre tudo, que iluda – como Hollywood. Motta termina o texto com uma pergunta: “se essa autora fosse uma “mocreia afro-americana de óculos fundo de garrafa” toda essa promoção teria acontecido? Então, eu queria que você analisasse isso, pois parece que ele está absolutamente certo. Prova disso é o sucesso editorial da Bruna Surfistinha.

Kleber Gutierrez – Essa é complicada, risos. Vamos por partes… Não conheço a história citada e menos ainda o livro do Motta, um brasileiro cujo deslumbre por Nova York me interessa bem pouco… Valorizo o trabalho dele na produção musical brasileira, só. O cerne da questão parece ser o tabu que envolve o sexo: o falso moralismo impera! Quanto à imagem pasteurizada, midiática, considero que isso vem sendo uma imposição sim. E não só para escritores. Criou-se um ideal de beleza que é inatingível para a maioria de nós. Todo mundo, hoje, tem de ser lindo, inteligente, bem sucedido (o que, para as pessoas, significa ter muitos bens valiosos e desejáveis), frequentar restaurantes e lojas incríveis, postar as melhores fotos de viagens em lugares paradisíacos… São tantas as exigências para ser aceito socialmente, que só podem resultar em depressão, anorexia e elevação nas taxas de suicídio. Ou despertamos desse pesadelo, dessa escravidão, e nos aceitamos e amamos como somos, ou seremos eternamente insatisfeitos e infelizes. Se o sistema não me quiser porque sou feio, lamentarei pelo fato de que minhas ideias não se sobrepõem à minha imagem, mas viverei feliz à parte de tudo isso!

Elenilson – Eu acredito que os “artistas” brasileiros – formadores de opinião – se dobraram à ditadura do “politicamente correto”. Eles se omitem diante das crises desse governo do PT que ajudaram a eleger, além de que, a senhora presidenta só não sofreu um impeachment até agora por incompetência da oposição. Você acha que os “formadores de opinião” costumam agir em bando? Será que eles só querem sempre ser “bonzinhos”, “de esquerda”, “do bem” – e, muitas vezes, nem refletem sobre o que estão dizendo?

Kleber Gutierrez – Quem elegeu, legitimamente, o governo do PT e a presidente foi a maioria da população brasileira. É o jogo democrático e a oposição tem de aceitar este fato. Não é no ‘tapetão’ que serão resolvidas nossas questões fundamentais. Mas na consolidação das instituições, na ampliação do conhecimento, na propagação da verdade. Não se esqueça que artistas são seres humanos. Há representantes da esquerda, da direita, da monarquia e até do fascismo entre nós. A onda do politicamente correto está na mente de nosso povo, não é responsabilidade de nenhum partido, nem dos artistas. E, repito, é um fenômeno mundial. Cabe àqueles que discordam manifestarem-se, ajudando a construir uma mente coletiva mais plural. Mas sem violência, com respeito e amor ao próximo.

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Elenilson – Na Bahia, um coordenador do curso de Medicina da UFBA, Antônio Natalino, justificou o baixo rendimento dos alunos no Enade como consequência do ‘baixo Q.I. dos baianos’, mas isso gerou polêmica e poucos enxergaram a ironia e um alerta na sua declaração (pedante talvez, mas inteligente), pois vivemos numa sociedade onde as pessoas são incapazes de ler e escrever, que se perdem em falsos valores, idolatram “mulheres-frutas” e só confiam cegamente em suas calculadoras digitais para calcular 2 + 2 pela incapacidade de formulação de um pensamento lógico. Aí pegam o Natalino e o jogam como o pior inimigo da Bahia. Mesmo você não tendo nascido na Bahia, o que você acha dessa hipocrisia do “sou baiano até morrer”?  

Kleber Gutierrez – Desculpe-me mas, assim, isolada, a declaração me parece infeliz. Não considero que tenhamos “baixo QI” e nunca diria isso, ainda que ironicamente. Apenas, repito, não fomos educados para pensar. Somos um povo criativo, inovador, ‘raçudo’. Sabia que os executivos brasileiros são considerados os melhores do mundo pelas corporações transnacionais? Nossas habilidades para superar adversidades são muito valorizadas pelas companhias. Também não acho que haja qualquer problema em ter orgulho pelas próprias origens: “baiano até morrer…”. Amo nosso País e nossa gente. Quero trabalhar incansavelmente para contribuir com a implantação de um novo modelo de pensamento social. E sonho, sempre, com uma nação equânime, justa e, verdadeiramente, rica para todos nós.

Elenilson – No ensino superior há um círculo vicioso e arrogante. Os livros, por exemplo, têm tiragens limitadas, são caros e enormes. As bibliotecas são precárias. Por tais razões, esses livros sendo caros, poucos compram. Você acha que essas coisas são as principais causas da mediocridade dos acervos nas universidades e consequentemente no ensino universitário?

Kleber Gutierrez – A mediocridade das universidades é reflexo de nossa baixa demanda por conhecimento. Como todas as ‘coisas’ que saem das engrenagens capitalistas, quanto maior a procura, maior a produção e menor o preço. Por outro lado, nossa concepção política é a do paternalismo. Esperamos que os eleitos resolvam, por milagre, todos os nossos problemas. E, além disso, não fiscalizamos seu desempenho. Brasileiros tratam políticos e pessoas em cargos eletivos como se fossem sumidades, excelências, e não funcionários públicos a serviço da população. Enquanto essas duas situações se mantiverem, frequentaremos os piores lugares nos rankings internacionais.

Elenilson – Hoje se compra na internet, baratinho, músicas e filmes. Porque não se podem comprar, também baratinho, capítulos de livros bons?

Kleber Gutierrez – Apenas porque é um modelo de negócio que não se consolidou. As indústrias cinematográfica e da música são muito mais estabelecidas que a editorial.

Elenilson – Muitas vezes acho que eu seria muito mais feliz se não conseguisse enxergar certas coisas, se gostasse de descer na “boca da garrafa” e amasse pular atrás de um trio elétrico em micaretas nos cafundós. Você já se sentiu assim também?

Kleber Gutierrez – Já senti algo parecido. Meu desafio atual é ver toda a realidade, compreendê-la e, ainda assim, manter-me em equilíbrio e feliz.

Elenilson – A idolatria da mediocridade, tão comum nestes tempos petistas, merece e deve ser respeitada, pois, por exemplo, um sistema de cotas sem um prévio programa de reforço nas escolas públicas serviram para elevar o fosso intelectual que separa esses estudantes dos privilegiados (*as universidades federais ainda são universidades para ricos e os poucos pobres que estão lá, estão por serem ousados). Precisamos ter cuidado com essas bravatas politicamente corretas para não sermos enganados novamente. Vou ficar atento quanto essa “nova” política de avaliação nos vestibulares, mas não tenho mais nenhuma esperança com mudanças. Comenta isso.

Kleber Gutierrez – Não penso que esta ‘mediocridade’ que você cita seja uma criação petista. Acho que você não está fazendo uma boa avaliação histórica. Esta ‘mediocridade’ nos foi imposta pelo modelo adotado de exploração de nossas riquezas desde o Brasil-Colônia, e ainda não nos libertamos dela. Sou favorável ao sistema de cotas na Educação, bem como de todas as formas de compensação social, pelas mazelas que a ganância das gerações passadas impôs a uma parcela gigantesca da população. Fomos a maior e mais tardia nação escravagista do mundo! É inadmissível que exista um único ser no planeta que passe fome, que não tenha abrigo, saúde e educação de qualidade com toda a riqueza disponível hoje no mundo. Quando as pessoas entenderem que não é possível viver em uma ilha de prosperidade cercada por miséria, teremos atingido o que eu considero Ser Humano!

Elenilson – Kleber, sugere uns livros bons da sua biblioteca.

Kleber Gutierrez – Vou sugerir autores: Gabriel García Márquez; Fernando Pessoa (*a poesia. Prosa nunca, acho péssima); Jorge Luis Borges; Paulo Leminski; Adélia Prado; Hilda Hilst; Augusto dos Anjos; Machado de Assis; Hermann Hesse; Ovídio; Catulo; Jean Jacques Rousseau; Voltaire; James Joyce; Dante Alighieri… Sou muito eclético, risos…

Elenilson – Falando em livros, quando é que sai outro livro seu?

Kleber Gutierrez – Quero reeditar meu primeiro livro de poesias, “Letra”, lançado em 1997 pelo Massao Ohno. Ele teve uma tiragem pequena, ainda é pouco conhecido e merece ser melhor trabalhado. Tenho também pronto um livro de contos. Iniciei conversa com uma editora, mas não tive contrato fechado nem a confirmação de que terei. Sigo sendo ‘maldito’ e aberto a propostas, risos… Enquanto isso, faço cinema.

Elenilson – Gastronomia ou literatura?

Kleber Gutierrez – Os dois. Ambos alimentam componentes importantes de minha vida: corpo e alma.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina




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