Crônica: Amores Enlatados
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Crônica: Amores Enlatados

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Amores Enlatados

“O amor também está nas ausências e na sua capacidade de se reerguer para o outro.”

Por Anna Carvalho & Elenilson Nascimento

Um brinde a você que ainda quer que um amor louco e torto surja na conta do seu e-mail ou como um PUM na rede social. Um brinde aos tortos, aos impacientes, aos clandestinos. Um brinde àquele certo alguém que te magoou e que não vai automaticamente ter um karma ruim, pelo menos não em um futuro imediato. Sabemos que não parece nada justo mas, às vezes, as pessoas enganam e traem e continuam suas vidas alegremente, elegantemente e falsamente enquanto a pessoa que eles deixaram para trás está em frangalhos. Estamos, na verdade, com muita carência de passear de mãos dadas na parte Vip da cidade, dar e receber carinho sem necessariamente ter mostrar performances dignas de um atleta olímpico na cama, fazer um jantar a luz de velas para quem você gosta e depois saber que vão “apenas” dormir abraçados, sabe, essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega.

Tem uma música do Lobão, antes das verborragias de nacionalismo em tempos de intolerâncias virtuais, “Blá, Blá, Blá, Eu Te Amo”, que soa como pretensão racional ou essencialmente emocional entre Eros e Psiqué, capitalizando um amor tardio. Mas, hoje, se você não tem alguém para esquentar seus pés numa noite chuvosa, você está condenado a ficar no limbo em que o amor te jogou, onde as pessoas passam a te olhar como se você fosse um leproso que babasse a cada segundo na mesa da família feliz de propaganda de fim de ano da Globo, pois venceu o conceito da família de margarina, mítica, bancária, burocrática, de filmes clichês de fim de tarde, de novelas ruins com vilãs que rejuvenescem por total falta de imaginação dos seus autores. Parece que essa cidade do acarajé e fedendo a cocô socializou esse conceito exposto nas alianças e nos varais de picas que sejam possíveis. Por onde andam os rebentos de uma geração que se deitou com o amor livre? Se casaram nas igrejas pagas e estão com as barrigas imensas engordando a cada dia.

Teatros fecham. Livrarias fecham. Centros culturais fecham. Escolas fecham. Cinemas fecham. Museus fecham. Entidades beneficentes fecham. Motéis fecham. Sanatórios fecham. Cus fecham. E o povo acha isto tudo normal. Pois muito bem. Agora sugiro que no II Ato, os papéis se invertam. A partir de hoje todos os estádios também fecham! Acaba-se o futebol mercenário neste País de latrinas sujas! Querem saber o que aconteceria? Aqueles que se reportam às suas desgraças, a desnatureza do amor fálico desembocou no puro ódio. Um ódio narcisista. Camões já consolidava a sua tessitura quando dizia que “o amor é fogo que arde sem se ver, tão contrário a si é o mesmo amor” mas, hoje, capitalizaram o amor, o colocaram na berlinda, nos consensos e até na sua contracultura de conceitos religiosos, vegetativos, neologismos, burocracias, anacronismos e de manuais matinais.

Os adeptos a Poliandria, os noturnos, os de várias camas, deitariam tudo abaixo da linha da afeição. E, nisso, nesse meio tempo, enquanto a Ivete berra no Carnaval de Salvador, este País explode enquanto esta “cultura de massas” não volta ao seu pleno funcionamento. Mas que CU-l-tu-ra mesmo? Quem não ama ou não é amado precisa pedir desculpas em caminhar, respirar, se defender, defecar, sangrar, se recusar a olhar para as pessoas que se refestelam diante desse ritual de consensos, nem que você esteja vivendo com seu Barba Azul com cara de Didi Mocó e conta-bancária de Roberto Justus, aliás, deixado por nós, pecadores, o cárcere mais brutal pelo qual passamos, onde tinha as chaves dos cadeados mas não quis deixar o castelo da Branca de Neve com fobias até que exibisse esse troféu roto que anda por aí como se estivéssemos carregando um piano nas costas. Ao final, sobrou a nossa vergonha e constatação de que perdemos tempo, dinheiro e paciência, pois o óbvio tem que ser dito: Fernanda Feeling, personagem do livro “Clandestinos”, ainda nos coloca as bandagens mais uma vez.

Mas, como vivemos em democracia… (supostamente), não deveria haver terreno para cultura de arroz com feijão nesse amor nosso de todos os dias? Cultura de peixe? Cultura de cus? Cultura de carne? Cultura de vegetais? Cultura de fome! Estamos cansados de conviver nesse tempo tão “bunito” de prova de amor, pois perdoar alguém cujo dano se assomou sobre a semântica da família não nos parece um bom negócio. Não podemos ser diretos, não por respeito ao outro, mas por respeito a nós mesmos. Não somos iguais uns aos outros, mas queremos dizer que o amor nos assaltou de maneira íntima, em uma podre relação incestuosa, um delito que acontece na intimidade de todas as casas de família, a devassa de uma moral diante de alguém sem moral numa pessoa que não é má mas que se revela péssima ou o que é pior: dissimulada em seu mundo perverso, esquizofrênico, onde o amor nos deu a sua cota de desilusão social, onde o determinismo e o seu conceito se apresentando na vida de uma pessoa que ousou dar chance a quem foi criado num fosso moral. Em alguns meios o meio cristaliza atitudes e justificativas injustificáveis onde a consciência é legado para poucos, pois alianças são sítios de gorduras milenares.

Todo final de ano parece que as coisas se colocam em seus lugares, os spots das vitrines cabem nas nossas vidas de fetiches, de voyeurismo, e olhamos as pessoas em seus nirvanas incapazes de enchergar de fato as suas verdadeiras faces. Pensamos em felicidade homeopática porque não conseguimos tomar o remédio amargo. Vivemos relações falidas sem reações e, muitos, em coma, em seus sequestros voluntários. Isso é amor? Não! Definitivamente. Felizes aqueles que beberam do remédio amargo e não seguraram a chave para não deixar que o vômito venha a boca. Esse texto é um texto anti-Natal.

Por onde anda o amor de Aquiles e a sua falta de força? Sansão, Hades, que amou a sua terrível e efêmera condição de ser o senhor dos mares. Tártaro, criatura do limbo… Um Pigmalião que se apaixona pelo seu mármore em Galateia; o amor entre o consenso e o efêmero; a sua quebra entre Adão e Eva; o amor de Sophie Calle que a fez ressurgir numa exposição conhecidíssima quando o seu amor se confessou incompetente em amar uma mulher só; o amor entre Van Gogh e o seu gênio narciso e misantropo; o amor entre Machado de Assis e o diabo da sua igreja mais mítica do que mirífica de fato; o amor entre Quasimodo e a sua deformidade que o excluía; e o amor por uma pessoa que matou aos poucos a parte feminina nessa coautoria de texto por sete anos? Esses desamores todos, são amores, e nesse Natal resolvemos falar e dar voz a quem não deu certo, como se nessa sociedade de espetacularização do business de amar o nosso encanto pelo o que é fracasso seja uma espécie de contracultura necessária porque vê um jovem se jogando de um prédio e na mesma hora esse vídeo ser importado na internet nos denuncia que estamos doentes e que não amamos de fato, então falar de gente que caiu dessa janela, que amou e deu errado, é dizer que o amor não cabe em latas, não se capitaliza, não vende como Panetone ou num cenário alquímico de um inverno de neve muito pouco solar.

Papai Noel não virá em nossas lareiras porque as lareiras estão queimando textos erráticos. E, embora, ao falar do que não deu certo, amamos porque o amor não é semântico, não é alado, não está na suntuosidade de um voo rasante e homicida de John Kennedy Jr. que o matou e matou a sua linda esposa. O amor está também na rudeza, no desplante, na ojeriza, na sua descapitania, no seu feudo alado entre o ódio e a capacidade de amar de novo quando você está em TV aberta onde as novelas se encarregam de lhe capitanear; ou nas TVs à cabo onde o amor se embota diante de boas vindas. E família é família, filmes como “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, agora mais encarnado do que em mediúnica, “P.S. Eu Te Amo”, esse se você estiver triste, prepara a cicuta, “À Primeira Vista”, “Orgulho e Preconceito”, “A Casa do Lago”, onde nunca entendemos, mesmo sendo professores de Literatura, “Vanila Sky”, “Flores Raras”, “O Pacto”, “Os Homens São de Marte”, “A Culpa é das Estrelas”, “Cartas Para Julieta”, “As Faces de Ellen”, “O Despertar de uma Paixão”, amor em tempos de cólera, literalmente, enfim, um monte de títulos para um monte de textos sem fim.

E, no intervalo, a propaganda do Itaú e do casal que sozinho vê o filme da sua vida e você bem que poderia ser uma ária de “Sexta-feira 13” e o amor entre Jason e o seu facão, onde a gente simula, capitaliza, se engaveta, defenestra, especula, oscula, fode e se recolhe a nossa existência de falta de amor. E olha, caros leitores, que um dos exs da parte feminina desse texto já tem namorada (era melhor pegar rotavírus, ebola, ter uma fratura exposta em bambu que mais dói em histórico médico), pois a excrescência seria mais útil, nos faz ver que, além de tudo, para quem é mulher, esse mundo faz ser a Anna de “Frozen” e fabricarmos gelo. Mas, uma vez, o Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar: “Digam o que disserem, o mal do século é a solidão”. Pretensiosamente dizemos aqui, nesse texto longo e maquiavélico, que assinamos embaixo sem dúvida alguma.

Você que está sozinho ou sozinha, espere, se está assim, algo não deu certo antes, se resguarde, pois é tempo de recolher os escombros (depois de um marido, como o da parte feminina desse texto, o 11 de Setembro foi um traque), não é justo se apresentar diante de outro com o ritual de salamanca prestes a repetir o desjejum da sua sanha por óbitos, viver dia-a-dia é uma espécie de grupo terapêutico, e talvez sejamos as pessoas mais profundas desse universo que respiramos em sua superfície porque debutamos com a solidão, mas lembre-se de que o amor vem para os distraídos. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias. Baladas recheadas de garotas lindas com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas. E saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos, pois hoje tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos “personal dance”, incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido fácil, alguém duvida? Mas não veja muito filme de amor, às vezes ver “O Massacre da Serra Elétrica” é mais digno diante do seu último caso, diante da sua felação de amor com Hades e, espere, porque a parte feminina desse texto por não esperar acabou sendo abduzida por um ET que usava preto. Enfim, amanheça, porque a noite de Natal se repete a cada ano e, no outro, estaremos entre brindes no meio de uma família feliz até a próxima estação.

Em suma, as bandagens mais restauradoras são feitas do tempo, da sua condição subjetiva em se restabelecer e ficar de cama. Claro que nessa entressafra pegar os errados pode, já pegamos alguns cujos beijos salvaram de belas macas. O amor também está nas ausências e na sua capacidade de se reerguer para o outro. Esse texto é para você que nos embala, mesmo que não saiba que nos, autores, cometemos gafes de ser quem somos. Obrigado por ter a coragem de taxear nas nossas pistas, mas lhes avisamos que, por vezes, os buracos nelas quebrarão o seu trem de pouso. Obrigado por não desistir…

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Culturale possui o excelente blog Literatura Clandestina

*Anna Carvalho é professora e escritora.


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