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Crítica Acima das Nuvens: bela história sobre o inexorável passar do tempo

Acima das Nuvens

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Juliette Binoche, Kristen Stewart e Chloë Moretz representam no filme o mesmo que as três representam na vida: o passar das gerações

Por Luis Fernando Pereira

É bastante provável que a morte seja, na história do cinema, o assunto mais densamente tratado por grandes cineastas. De fato, o tema é filosoficamente atraente e possui um potencial enorme na construção de uma história. Porém há algo ainda mais emblemático que ela, e é sobre isso que Acima das Nuvens, mais novo filme do cineasta Olivier Assayas, trata.

Refiro-me ao caminho que leva um ser humano do ponto de partida, o seu nascimento, até o seu destino inevitável, a sua morte. É sobre este passar do tempo, sobre o inevitável acúmulo de experiências que transforma alguém inocente no oposto que o filme trabalha desde o seu início.

Na história temos Maria Enders (a eternamente linda Juliette Binoche), que é requisitada a atuar numa remontagem da peça que a tornou famosa vinte anos atrás. No entanto, naquela peça ela interpretou a jovem e sedutora Sigrid, que acaba fazendo com que sua chefe Helena cometa suicídio. Agora querem que ela faça outro papel, o da mulher mais velha, Helena. Ela parte com sua assistente (Kristen Stewart) para ensaiar em Sils Maria, uma região remota dos Alpes. Uma jovem estrela de Hollywood (Chloë Grace Moretz) fará o papel de Sigrid e Maria se vê do outro lado do espelho.

Acima das Nuvens

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Um dos maiores acertos do roteiro foi justamente trabalhar essa inquietude vivida pela Maria. Quando ela percebe que não é mais tratada como uma Sigrid, jovem e sedutora, mas sim como uma Helena, madura, ela passa a refletir sobre sua vida, e muitas destas reflexões ela faz com a ajuda de sua assistente. Neste ponto, podemos afirmar que a dinâmica estabelecida entre Juliette e Kristen foi uma das grandes responsáveis pela beleza apresentada pelo filme.

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É bem gratificante ver Kristen Stewart crescendo na profissão, sobretudo depois de passar por um período presa à Saga Crepúsculo, que lhe deu fama e dinheiro, mas a estagnou enquanto artista. Sua postura, seu tom de voz, em Acima das Nuvens, já mostra um desenvolvimento maior na arte de interpretar e ela tem tudo para se tornar uma grande e respeitada atriz em Hollywood.

Outro ponto interessante do roteiro foi o de estabelecer em muitos momentos um dialogo com elementos reais, como, por exemplo, fazer de Maria uma atriz que atuou em X-Men. Ou fazer a personagem de Chloë Moretz estrelar um filme de super heróis, tal como Chloë, que ficou famosa por interpretar a Hit Girl, em Kick-Ass. Ou quando Val (Kristen) lista as propostas feitas para Maria, e uma delas é protagonizar um filme com lobisomens. Esta série de detalhes pode não ser crucial para o resultado final do filme, mas conta bastante quando formos listar as suas qualidades.

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A estrutura da narrativa, dividida em partes, e com epílogo, acaba traçando uma visão mais ampla e densa da proposta do filme. Quando somos apresentados à Maria, vemos uma atriz que encara a sua vida normalmente, sem lidar com conceitos ou sentimentos nostálgicos. A partir do momento em que ela recebe o convite para interpretar a personagem Helena, partimos para uma segunda parte e então começa as reflexões sobre a sua existência, sobre o seu passado, presente e futuro.

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Então, no epílogo, quando Maria encontra-se com Jo Ann (Chloë Moretz) e o diretor da peça em um restaurante, ela consegue enxergar algo com clareza: a cruel dinâmica do tempo no meio artístico, que a transformou em algo coadjuvante perante o foco quase que exclusivo naquela jovem, instigante e polêmica Jo Ann, que um dia também será deixada de lado, para dar lugar à outra… e assim sucessivamente.

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Outro ponto simbólico, e que diz muito sobre o filme, é o desfecho da relação entre Maria e sua assistente. Helena, a personagem da peça que Maria de certa forma repudia, tem um fim ambíguo na história, sumindo de uma hora para outra, sem dar nenhuma notícia e sem ninguém saber de seu paradeiro. Ela morreu? Reconstruiu sua vida em outro lugar? Ninguém sabe. Pois bem, quando vemos a reprodução desta ideia na cena que antecede o epílogo, percebemos que Val, a sua assistente, acaba sendo uma representação bem interessante do destino de Helena.

Olivier Assayas, o diretor, conseguiu contar uma história recheada de simbolismos de um modo eficiente, e principalmente, sutil. Com algumas cenas que beiram a poesia (a fotografia se destaca nos planos abertos), Acima das Nuvens pode ser considerado um belo tratado da passagem do tempo em nossas vidas. Com um roteiro eficiente, atuações inspiradas (e inspiradoras), o filme é um projeto maduro que merece ser visto com atenção, pois há nele um material bem rico para reflexão.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site


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