Entrevista Com o Poeta Ni Brisant
Literatura

Literatura: entrevista com o Poeta Ni Brisant

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Ni Brisant

“Na vida secreta da madrugada a solidão é o problema. Chegue mais, mas não diga nada, romance não é poema.” (N.B.)

Por Elenilson Nascimento

É quase impossível “mapear” a poética contemporânea na rede. Primeiro, devido ao grande número de poetas brasileiros, que, sobretudo após a massificação da comunicação através da internet, torna, a cada dia, essa tarefa ainda mais difícil; no entanto, alguns poetas ganham destaque nos meios de comunicação, na crítica ou no próprio ambiente virtual. Segundo, porque é extremamente difícil fazer uma análise de qualquer estrato do tempo em que estamos inseridos.

Contudo, um poeta, em especial, vem se destacando com as suas letras inconformadas. Ele é, ao lado de alguns nomes contemporâneos, um dos letristas de alma triste predileto nesses tempos virtuais. Ni Brisant é autor dos livros “Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas” e “Para Brisa”, fundador e articulista do movimento Sobrenome Liberdade, alpinista intelectual, retirante e inquieto. “A palavra é minha pátria, arte e coração. E eu me invento na fuga diária do óbvio, do tédio e deste vil destino volúvel. Porque arte é libertação. Coragem!”

E qual será mesmo o papel da poesia num mundo unipolar, regido pelo império da tecnologia, do mercado e da mídia, que exilou o sentido utópico, presente nas vanguardas do início do século passado? Para Brisant cada livro é escrito com um propósito: “A gente pode não concordar com o objetivo de muitas dessas obras, mas o fato é que elas continuarão sendo publicadas”. Contudo, ser poeta nos dias de hoje é sim uma atitude das mais arriscadas, numa época em que a revolução comportamental iniciada nos anos 60 foi consolidada e transformada em objeto de consumo, os projetos alternativos para a mudança social foram arquivados, pelo consenso e estagnação relativa em torno da democracia liberal e da economia de mercado. Mas a própria ideia de vanguarda está sendo colocada em xeque por gente inquieta como Brisant, Elisa Lucinda, Jair Martins e outros. Essa aparente apatia é questionada, no entanto, pela própria realidade, não só na América Latina, e questiona os resultados nocivos da globalização econômica, como a redução dos direitos sociais para favorecer a acumulação de capital. Ainda é cedo para sabermos se os novos movimentos culturais aglutinados apontarão uma saída viável, mas algumas pessoas estão sim mudando as suas realidades com poesia e arte.

Um fato concreto é que poetas como Ni Brisant – “A arte não me levou aonde eu queria, mas fez do meu coração um lugar habitável” – surgem como gafanhotos dissonantes nas periferias, nas bienais, nas feiras de livros e nas elitizadas estantes das livrarias, denunciando as agressões no dia a dia, a exclusão, a solidão – “Para quem vive em círculos, palavra de ordem é espetáculo, passado é labirinto e pés, obstáculos” – a deformação, os preconceitos, a limitação da liberdade individual e de imprensa, a pretexto de combater a exclusão social. Nessa pequena entrevista, o poeta assume uma posição de consciência crítica: assumir sua cidadania, seu inconformismo intelectual, sua participação num processo, ainda incipiente, de mudança de valores, aceitando pagar o preço pela dissidência.

Elenilson – Quando você soube que queria ser poeta? Quais foram as suas maiores fontes de inspiração?

Ni Brisant – Poeta é um ser distante demais do que faço. Sou só um peão de obras. O que me inspira é o espanto diante da vida e suas 49 facetas. Não sei precisar, mas o inconformismo continua sendo um dos meus maiores combustíveis.

Ni Brisant

Elenilson – De que maneira você descreveria o processo de escrita dos seus livros? Você faz algum tipo de pesquisa ou preparação?

Ni Brisant – Escrevo com a urgência e obrigação de náufrago. Minha escrita baseia-se na leitura contínua de livros, pessoas, paisagens, nuvens e situações cotidianas.

Elenilson – O que você esperava despertar nos leitores de “Para Brisa” e “Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas”?

Ni Brisant – Movimento. Essa é sempre a meta.

Elenilson – O que você considera necessário para escrever um livro?

Ni Brisant – Palavras (risos).

Elenilson – Você acredita que qualquer um pode se tornar escritor?

Ni Brisant – Ainda não é proibido pensar livremente. Então, por que não?

Elenilson – Existe uma infinidade de livros ruins nas livrarias, mesmo assim a crítica continua alardeando com se eles fossem fundamentalmente importantes. Como você encara essa falta de crítica e de leitores atentos, visto que você foi capaz de escrever que a “ânsia é o anúncio do vômito e do abraço e a ansiedade é o desespero do anúncio”?

Ni Brisant – Cada livro (assim como tudo na vida) é escrito com um propósito. A gente pode não concordar com o objetivo de muitas dessas obras, mas o fato é que elas continuarão sendo publicadas. Não basta reclamar da crítica ou de “leitores superficiais”, é imprescindível criar alternativas interessantes para que as pessoas possam se informar e questionar cada vez mais o mercado editorial, o governo e as instituições no geral.

Elenilson – O que você acha mais difícil na hora de escrever uma obra?

Ni Brisant – Escrever é simples. A luta é na hora de passar a limpo, desapegar e definir a forma final de um livro.

Elenilson – Você está trabalhando em algum livro atualmente? Tem algum projeto para o futuro?

Ni Brisant – Estou trabalhando em quatro livros. Sendo que tenho um romance pronto na gaveta desde 2013. Mas esse ano deve sair algumas publicações bem diferentes do que tenho feito. Estou na melhor fase.

Elenilson – O que você diria para os que almejam escrever um livro? Que dicas você daria a futuros escritores?

Ni Brisant – Só posso dizer uma coisa: escrevam! É importante ter referências e exemplos a seguir, mas chega uma hora em que é preciso trair os mestres, emular os heróis e transformar o impossível em brincadeira. Renegue fórmulas. Busquem seus próprios caminhos.

Ni Brisant

Elenilson – Você tem alguma atividade paralela à de escrever?

Ni Brisant – Sim. Leciono, faço intervenções poéticas, reviso textos literários e acadêmicos, colaboro na organização do sarau Sobrenome Liberdade e do clube de leitura Ninguém Lê (ambos são realizados mensalmente).

Elenilson – Você sempre gostou de ler? Qual a sua vivência com a leitura? Tem algum livro favorito?

Ni Brisant – A leitura foi meu primeiro telescópio para o mundo. Aprendi a desvendar livros (mais ou menos) aos 10 anos e cheguei até aqui assim – curioso e apaixonado. Difícil resumir em um, mas 1984, do George Orwell, é um livro excepcional. Costumo relê-lo amiúde.

Elenilson – A que perfil de leitor você indicaria a leitura dos seus livros?

Ni Brisant – Meus leitores são desajustados. Percebo que meus livros fazem mais sentido para renegados, incompreendidos.

Elenilson – Há alguma frase ou trecho de que você mais gosta nos seus livros? Qual?

Ni Brisant – Que cilada! (risos). Uma vez perdida, toda força será encontrada. Esse é um trecho do livro “Tratado Sobre o Coração das Coisas Ditas” pelo qual tenho muito carinho.

Elenilson – Vejo com muita tristeza a segregação que os autores, editores e mídia cultural fazem com relação aos autores de outras regiões que não seja o saturado eixo Rio-SP. O que você pensa disso?

Ni Brisant – Nada pode deter os sonhos. A gente que luta e persevera sempre vai encontrar seu modo de fazer as coisas acontecerem. Se não nos abrirem as portas, arrombaremos ou inventaremos outro lugar para entrar. Essa última foi a opção que escolhi pra mim.

Elenilson – Adorei o Romário do único texto em prosa do seu livro “Para Brisa”. Há algum personagem nos seus livros de que você gostou mais? Há identificação com algum deles? E, se houver, por quê?

Ni Brisant – Valeu! Cada personagem é um parente meu. Daí acabo estabelecendo relações bem diferentes com cada um. Mas entendo que as narrativas ganham mais força quando a gente passa a compreender e respeitar a essência deles. Escrever é um duelo com o invisível.

Elenilson – Senti um cuidado muito grande com relação aos seus entes: “Tenho medo de me apegar ao chão, me acostumar a viver por baixo, tenho medo que o meu amor acabe, que minha filha guarde na memória a lembrança de um pai que não sou eu…” Esses medos todos são em consequência da literatura?

Ni Brisant – Não. Vou morrer logo. E quero fazer as coisas que sonho, desejo que as pessoas que eu amo tenham consciência do quanto são importantes pra mim. É isso.

Elenilson – Qual a sua opinião sobre a marginalização das artes? Você acredita que ainda trabalhamos assim no século XXI?

Ni Brisant – Isso é recalque dos puritanos fiscais da felicidade alheia. Inegável que há uma censura silenciosa às obras que não seguem os padrões ditados pelo mercado.

Elenilson – Alguns autores alegam que aqui, no Brasil, só livros estrangeiros fazem muito sucesso, enquanto autores nacionais, muitas vezes, são discriminados. Você sente isso?

Ni Brisant – O mercado editorial é um círculo de amigos. Dizer que existe discriminação é chover no molhado. A questão é: o que fazemos com isso?! Acho necessário trabalhar mais diretamente com as pessoas e menos com empresas.

Elenilson – Se como você mesmo escreveu: “A arte não me levou aonde eu queria, mas fez do meu coração um lugar habitável”. Então, parece que o meio é a mensagem, poderíamos deduzir disto que a “forma” é o “conteúdo” e se é assim o que você acha das novas formas de artes – mais descartáveis e menos digeridas, como a chamada Arte Transgênica do brasileiro Eduardo Kac, na qual, ele diz, que o meio envolve corpos orgânicos?

Ni Brisant – O tempo é o único crítico que devemos respeitar. Acho legítimas essas novas propostas. Estou preocupado em dialogar, tocar e fazer trocas com gente de verdade. Acho que boa parte desses artistas também pensam assim.

Elenilson – Qual é a sua avaliação dos novos autores brasileiros?

Ni Brisant – Tem muita gente escrevendo coisas lindas. Principalmente fora do circuito tradicional e do eixo Rio São Paulo. É preciso procurar saber.

Elenilson – E o mercado editorial? Melhorou para o novo autor?

Ni Brisant – Minha mochila é minha livraria. Sei dizer pouco sobre mercado editorial.

Confira o poema Armadura by Ni Brisant

Elenilson – O que você pensa sobre a arrogância de muitos autores com relação ao relacionamento com leitores e críticos-blogueiros?

Ni Brisant – Tem muito crítico para pouca produção. Enfim, cada um sabe de si. Eu que não perco meu tempo com essa ladainha.

Elenilson – O que você ainda espera da Literatura?

Ni Brisant – Espero nada. Não acredito na Literatura. Boto fé na palavra, que é pátria e, a partir daí, abraço.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colunista do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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