Espetáculo Amigas, Pero no Mucho
Teatro

Espetáculo Amigas, Pero no Mucho em Salvador

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Amigas Pero no Mucho – Fotos Genilson Coutinho

André Gonçalves vive uma mulher em espetáculo confuso, mas divertido; a temporada oficial em Salvador vai até o dia 29 de março

Por Elenilson Nascimento

A introdução nessa matéria ficou um pouco fora do convencional – e mesmo um pouco fora da linha, segue mesmo assim para o desespero das bichas venenosas e deslumbradas que fazem parte da decadente imprensa soteropolitana. No teatro é muito comum imprimir dramaticamente às próprias palavras e/ou atitudes, para suscitar comoção ou interesse. Como também é muito comum homens travestidos de mulheres. Nos anos 40, uma conselheira amorosa fez muito sucesso e também provocou as mais diversas reações negativas, onde resgatava reflexões sobre o amor das mulheres, solidão e suas dúvidas dilacerantes. Assim ela escreveu por anos crônicas num jornal carioca, o Correio da Manhã. Essa era Myrna, um heterônimo criado pelo inesquecível Nelson Rodrigues, onde ele assinava como uma mulher para tentar falar direto aos corações femininos.

Nos EUA, atualmente, a peça “Casa Valentina”, de Harvey Fierstein, tem feito muito sucesso, onde homens aprendem a arte de se travestir. Mas é no cinema que podemos encontrar mais exemplos, como nos filmes “O Celuloide Secreto” (1995), “Morrer como um Homem” (2009), “Domingo Maldito” (1971), “Vida Nua” (1965), “Senhoritas de Uniforme” (2013), “Tatuagem” (2013), “Senhoritas de Uniforme” (2001), “Minha Vida em Cor-de-Rosa” (1997); além de clássicos como “Um Dia de Cão” (1975), “Priscilla, a Rainha do Deserto” (1994) e muito mais. Sem falar na obra de Pedro Almodóvar.

No teatro da Bahia várias peças também já usaram atores em papéis femininos, como “Siricotico – Uma comédia do balacobaco” e “A Bofetada”, com Lelo Filho (que voltou em cartaz com o seu excelente “Fora da Ordem”) – entrevista aqui ; “A Capivara Selvagem”, com Frank Menezes; “Ciderela”, na versão anual do Festival do Ballet Teresa Cintra, com J. Marcelo Danthas. Sem falar em “As Muquiranas”, tradicional bloco de travestidos no carnaval de Salvador. Por tanto, nada se cria e tudo se copia, como diria o Chacrinha. Dito isso, queria lembrar aos “jornaleiros” de Salvador que, ao contrário do que vocês estão divulgando como a novidade do verão, a peça “Amigas Pero no Mucho”, com o André Gonçalves interpretando o papel uma mulher no palco, que estreou no dia 13/01, numa sessão disputadíssima para a imprensa provinciana, no belíssimo Teatro Sesc Casa do Comércio, não é tão novidade assim.

Com direção de José Possi Neto, a peça relata o encontro de quatro amigas em uma tarde qualquer, onde externam suas dissimulações, falsidades, devaneios, frustrações, medos e dores, mantendo uma relação de amor e ódio, num texto escrito por Célia Regina Forte, que traz no elenco, além do já citado André Gonçalves, os atores baianos Agnaldo Lopes, Lúcio Tranchessi e Widoto Áquila. A peça inicia-se com a entrada de um pianista careca que fica o tempo todo escondido do público (o que achei uma pena!), em seguida os quatro atores, um a um, recebem suas perucas e passam a incorporar as suas personas cheias de dissimulações, devaneios, mentiras e roupas extravagante, tudo com pitadas de humor, ironia e irreverência. O início tem cenas muito longas e diálogos cansativos e a luz do cenário não ajuda em nada, mas os atores são tão bons que o texto risível se torna atraente.

Cria-se, dessa forma, na imaginação do espectador, mais uma interrogação: será mais uma comédia onde despautérios serão vomitados no público? Exatamente, pelo menos no princípio, onde o verbo ainda não tinha se feito risos. Mas acende-se o plano da alucinação, onde todas as quatro amigas – ou quase todas – bem-sucedidas – ou não – comuns e sofisticadas – que numa única tarde fazem revelações que as surpreendem e surpreendem o público, lavando suas roupas sujas com ironia e muita loucura, além de deixar o público inquieto.

Amigas Pero no Mucho – Fotos Genilson Coutinho

Em algumas cenas, os diálogos parecem improvisados, duas amigas ficam trocando farpas na sala, enquanto as outras duas ficam em ambientes diferentes (o que achei estranho e mal dirigido). “Mulheres” que se amam e se odeiam ao mesmo tempo, mas que são amigas, acima de tudo, respeitando os defeitos (ou não) uma das outras. Amigas, pero no mucho, enfim. Célia Regina Forte pode até ser uma autora muito prestigiada do teatro paulistano, mas senti falta de mais argumentos no espetáculos, mesmo com o saudoso Paulo Autran, o primeiro a ler os originais, escritos em 2004, ter comparecido a estreia, em 2007, pouco antes de morrer, e ter avaliado positivamente o texto que descreve a história da engraçadíssima Fram, a mais gostosa de todas as amigas – “Eu sempre erro na escolha das minhas amigas… Elas sempre têm os mesmos defeitos. Uma é metida… Outra é coitada… E a outra é a dona da verdade… Mas, eu sou poderosa…” -, e das demais (quase) ricas Débora, Olívia e Sara, com cara de sacoleiras que foram para Miami, ali no Paraguai, com direção musical e efeitos sonoros de Miguel Briamonte.

E Débora solta o verbo em cima de Sara sobre adultérios, traições e futilidades. Misturando vários assuntos desejáveis (ou não). Olívia em Fran e Fran em qualquer uma. E eu quase desesperado na poltrona. Cada uma exibe suas neuroses. Mas a peça não se aprofunda em nenhum tema específico, mas tem a sacada de ser despojada na bem-humorada caricatura do universo feminino. E acende-se o plano da realidade no palco, com aquelas figuras loucas falando ao mesmo tempo no palco. Parecem fantasmas de nós mesmos que noticiam os nossos atropelamentos diários.

No plano da alucinação, Fran parece saída de um bordel a receber o seu homem puritano que tem o rosto e jeito de um marido certinho de alguma novela chata da Globo. Suas atitudes não são nada extremadas: acaricia o homem e o esbofeteia. A persona do André Gonçalves (me confundi todo com os nomes) repara que todos os homens que aparecem na plateia têm o rosto de algum namorado ou namorido e flerta descaradamente com alguns, que a ajuda a lembrar-se da infância.

“Amigas Pero no Mucho” é, sim, a expressão da realidade. Parece um instrumento de divergência, advertência, ensinamento(?), documentação e instrução da atual e perdida família brasileira – lembrei de Nelson Rodrigues e o seu “Álbum de Família”, onde as formas pelas quais opai de Engraçadinha desempenhou essa missão não foram tão diferentes. Por tanto, a peça cumpriu o seu papel de arte em que um ator, ou conjunto de atores, interpretou uma história louca e com o objetivo apresentar uma situação incomum (ou nem tanto) e despertar sentimentos no público.

Amigas Pero no Mucho – Fotos Genilson Coutinho

Em “Amigas Pero no Mucho”, uma história engraçada e seu contexto louco se fazem reais e verídicos pela montagem do cenário e a representação de atores no palco, englobando todas as outras artes e podendo utilizar a crítica dos valores da nossa sociedade como cenário. Em suma, apesar de ter achado que a peça poderia ter outro final, que não aquele apresentado, achei que “Amigas Pero no Mucho” propiciou aos espectadores o desconforto de se olhar no espelho e enchergar a submissão, é o que fazemos com nossos olhares e atitudes, quando nos colocamos em uma situação de silêncio conformado do poder social invisível e medíocre – quando usamos nosso inconsciente e ativamos os arquétipos de um passado, onde o senhor controlava a senzala consciente – com açoites deliberados em suas atitudes.

Ponto negativo, como sempre: o público e o atendimento nessa cidade dos infernos. Cheguei meia horas antes do começo do espetáculo e não me deixaram entrar e esperar lá dentro. Queria saber se eu tivesse chegado meia hora atrasado se me deixariam entrar? E o público? Ah, esse público da terra do cocô com acarajé! Mal educado, colocando os pés em cima das poltronas, dando risadas alto na hora errada ou por qualquer motivo, falando nos seus celulares, filmando e, agora, com pau de selfies. Um saco! E os coleguinhas jornaleiros cumprindo o seu de “lambedores de botas” de artistas globais. Não que o André Gonçalves seja mais um deslumbradinho global, mas muitos jornaleiros deslumbrados estavam ali somente jogando confetes, se bem que eu achei o Garrincha branco (como pode isso, produção?) uma simpatia.

Para quem quiser conferir, os ingressos estão à venda através do site www.compreingresso.com e na bilheteria do teatro. A temporada oficial de Amigas Pero no Mucho vai até o dia 29 de março, aos sábados e domingos, sempre às 20h. Os ingressos custam R$ 60/R$ 30 (meia), no Teatro Sesc – Casa do Comércio, com venda antecipada.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colunista do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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