Crítica Loucas pra Casar: uma bela surpresa | Cabine Cultural
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Crítica Loucas pra Casar: uma bela surpresa do cinema nacional

Loucas pra casar

Loucas pra casar


Filme conta com bom roteiro e ótimas situações cômicas; final surpreendente acaba sendo a cereja do bolo da comédia nacional

Por Luis Fernando Pereira

Existe um tipo específico de cinema feito no Brasil, as chamadas comédias da escola Globo Filmes, que tem apresentado ao longo das últimas décadas o que de mais preguiçoso a sétima arte tem a oferecer aos cinéfilos: roteiros frágeis, atuações ruins e histórias bobas, sem fundamento algum. É por isso que, quando surge um exemplar do mesmo grupo, mas que se sobressai perante aos demais, devemos destacá-los o máximo possível. É exatamente desta forma que podemos começar a falar de Loucas pra Casar, novo filme do cineasta Roberto Santucci.

Na trama temos Malu (Ingrid Guimarães), ela, com seus 40 anos, trabalha como secretária de Samuel (Márcio Garcia), o homem de sua vida. Apesar de estarem namorando há três anos, não há lá muitos indícios de que um pedido de casamento esteja por vir. Num determinado dia Malu percebe que faltam algumas camisinhas no estoque pessoal do namorado e logo conclui que ele tem uma amante. Após contratar um detetive particular, ela descobre outras duas mulheres na vida de Samuel: a dançarina de boate Lúcia (Suzana Pires) e a fanática religiosa Maria (Tatá Werneck). A partir daí a história toma rumos surpreendentes.

Há uma série de referências quando lemos a premissa do filme. Mulheres ao Ataque, com Cameron Diaz, é uma delas. No decorrer da história, outras referências vêm à tona, como o ótimo O Amor é Cego, com a bela Gwyneth Paltrow. Entretanto, por mais que a história de Roberto Santucci tenha tais influências, não devemos diminuí-la por isso, pois o grande mérito de Loucas pra Casar é que eles conseguem fazer tudo funcionar direito, desde o roteiro, bem redondo, sem grandes furos ou discrepâncias, até as atuações, de Ingrid Guimarães, Márcio Garcia e até mesmo Tatá Werneck.

O roteiro tem o grande mérito de reunir, durante praticamente o filme todo, ótimas situações cômicas aliados às reflexões interessantes sobre a vida de Malu, e por que não dizer de qualquer ser humano. Qual o momento certo de casar, ter filhos, são esses os fatores determinantes da felicidade… são questionamentos como estes que elevam o filme e o faz sair deste grupo de comédias superficiais que o cinema volta e meia produz.

Loucas pra casar

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Ingrid Guimarães está muito bem no papel de uma confusa mulher na faixa dos 40 anos que passa a questionar sua vida a partir de uma suposta traição do namorado. Bonita, com um timming cômico bem aguçado no filme, Ingrid fica ainda melhor quando se junta às outras personagens femininas, seja as duas concorrentes (Lucia e Maria), seja a sua grande amiga Dolores (a ótima Fabiana Carla). Toda esta primeira parte do filme, com as três ora disputando o amor de Samuel, ora entrando em guerra, lembra um pouco o filme Mulheres ao Ataque, do ano passado, mas quem dera que a trama protagonizada pela Cameron Diaz fosse tão interessante quanto a brasileira.

Se a parte humorística já estava bem estruturada, as questões reflexivas impostas pelo roteiro são um destaque à parte. Loucas pra Casar trabalha algumas ideias bem interessantes, como a supervalorização de alguém (o que Malu faz com relação a Samuel). Essa idealização do outro acaba fazendo com que nós vejamos uma pessoa diferente da que ela realmente é. Neste aspecto, o filme acaba pegando carona no ótimo O Amor é Cego, mas só quem assistir ao filme irá descobrir a razão.

Outra ideia bacana refere-se ao processo de autoconhecimento de uma pessoa, no caso do filme, Malu. Antes de entrar para valer em qualquer relação, é necessário que a própria pessoa se conheça, e se reconheça, para que ela acabe não se forçando a apresentar espectros de uma personalidade que não se encaixa no seu perfil. Vemos durante todo o filme Malu se sentindo confusa com quem ela realmente é. Esta confusão (psicológica, mas que também pode ser patológica) é o fio condutor do filme.

Para continuar falando do filme, seria necessário entrar nos elementos finais da história, no seu desfecho propriamente, e como ele é bastante surpreendente, acredito que a experiência de ver não deve ser prejudicada aqui. Mas pode-se dizer que os últimos 15 minutos do filme o eleva no cenário atual do cinema nacional, tornando-o um exemplo bem interessante de filme agradável com roteiro criativo e atuações convincentes.

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Loucas pra Casar
é uma bela surpresa do cinema nacional, verdadeiro merecedor de sua grandiosa bilheteria. Com uma trilha sonora pegajosa (há praticamente uma canção, Happy, do Pharrel Williams), um roteiro criativo, sem furos, com questões existenciais e elementos reflexivos bem interessantes, o filme une o bom humor com pitadas dramáticas. Um bom filme.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site







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