Entrevista exclusiva: Verônica Ferriani
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Entrevista exclusiva: Verônica Ferriani e a boa música feita no Brasil

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Verônica Ferriani – Divulgação

Cantora se apresenta em fevereiro no Sesc Pinheiros (SP) fazendo uma releitura do álbum Muitos Carnavais, de Caetano Veloso

É muito gratificante para um admirador de boa música constatar que a quantidade de artistas talentosos que são lançados no país todos os anos é bem significativa. De ótimas cantoras, nem se fala. Verônica Ferriani, cantora nascida em Ribeirão Preto, é uma destas.

Verônica vivencia este universo musical desde 2004, ano em que estreou como cantora, a convite do compositor e violonista Chico Saraiva, um de seus grandes parceiros. De lá para cá a artista acumula grandes apresentações, dividindo o palco com nomes como Beth Carvalho, Ivan Lins, Mart’nália, Jair Rodrigues, Francis Hime, Martinho da Vila, Tom Zé, Moska. Se o escrito diga com quem andas que eu te direi quem és for realmente levado em consideração, então Verônica pode ser considerada mais uma joia de nossa música.

Ela, que está em processo de divulgação de seu mais recente trabalho, Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio (que pode ser ouvido no site veronicaferriani.com), está prestes a se apresentar no Sesc Pinheiros (14 e 16 de fevereiro), fazendo uma releitura do icônico álbum de Caetano Veloso. O show, especial para este Carnaval, é um dos temas de nossa conversa, que também abordou o começo de sua carreira, suas influências musicais e também os seus projetos para 2015.

Um belo bate papo com uma bela cantora. Confiram!

Luis Fernando Pereira – Queria começar já falando de uma das suas próximas apresentações, que acontecerá em fevereiro no SESC Pinheiros. De onde surgiu a ideia de fazer uma releitura do álbum Muitos Carnavais, do Caetano Veloso?

Verônica Ferriani – Este convite surgiu na verdade da produtora Nancy Silva, da benzaDeus. Falávamos deste disco de vez em quando por essa minha ligação forte com o Carnaval – nasci numa terça de folia e tenho uma relação forte com o samba e essa festa toda desde os bailes de clube no interior – sou nascida em Ribeirão Preto – SP. Conhecia a maioria das músicas separadamente, só há cerca de 3 ou 4 anos entendi que elas juntas integravam um álbum genial de Caetano. Os shows terão como convidados também Juçara Marçal e Leo Cavalcanti, e como diretores Guilherme Held e Decio 7. O clima de Carnaval estará ali em forma de baile aberto (e gratuito!), mas vamos recriar os arranjos à nossa maneira, acho que isso vai ser bem divertido!

LF – Teu mais recente trabalho (Porque a boca fala aquilo do que o coração tá cheio), inclusive, tem momentos que me fizeram lembrar o Caetano, os Tropicalistas. Queria que falasse mais de suas influências, não só as musicais, como as da arte em geral.

VF – Esse meu disco autoral realmente tem uma influência forte tropicalista, em guitarras de clima bem brasileiro, nas levadas com pitadas rock e influência mpb, na ousadia e sinceridade das letras. Sinto isso especialmente na faixa “Não é não”. Minhas influências são isso tudo, da MPB da década de setenta e o samba tradicional ao rock inglês, às batidas africanas e latinas. Nesse disco especificamente tive 2 referências principais: o álbum “Ela”, de Elis Regina e “Refazenda”, de Gilberto Gil. Mas minha geração tem me influenciado muito também na forma de compor e de pensar no som de banda que desejo reproduzir.

LF – Você tem um trabalho muito bonito como intérprete, cantando músicas, consagradas ou não, de outros cantores, e também possui uma veia de compositora bem aguçada. Como você vê essas duas perspectivas de trabalho? São muito diferentes?

VF – São diferentes e até atraem públicos um pouco diferentes. Hoje em mim acho que se somam pra me fazer uma artista mais certa de seus desejos na arte. Continuo defendendo a importância do intérprete, um pouco subvalorizado hoje quando relacionamos àquele período de grandes cantores como Elis, Bethânia, Gal, Nana Caymmi e Baby do Brasil. Elas não compunham mas dão vida de forma emocionante às músicas que escolhem cantar, tomam as histórias pra si. A composição se tornou encantadora pra mim, mais recentemente, pois abrem também uma possibilidade de criação mais ampla. Começar uma música é sempre um papel em branco, todos os assuntos, formas de dizer e sentir são possíveis. E conseguir levar esse conteúdo de forma que as pessoas se identifiquem não tem preço. Sinto isso em algumas de minhas canções, algumas pessoas vindo dizer que eu consegui exprimir ou descrever algo que elas sentiam mas não sabiam identificar exatamente. Tem acontecido especialmente com minha música “Era preciso saber”.

LF – No último álbum, o amor – nas suas mais variadas vertentes – meio que predomina como temática. Como foi pra você ter que compartilhar seus pensamentos, seus sentimentos, assim de modo tão emocional?

VF – Meu trabalho como intérprete já contava sempre com essa sinceridade na escolha do repertório. Escolho músicas de outros compositores em que eu consiga saber do que estou falando, ainda que seja algo pelo qual eu não tenha passado. É preciso saber inventar aquele sentimento, se colocar de verdade no lugar de quem viveria aquilo pra trazer sentido ao que se canta. Poder agora contar e fantasiar sobre minhas próprias histórias pra mim foi um desafio mais sobre a qualidade como compositora que eu queria ter pra assumir como repertório minhas próprias canções, a sinceridade pouco me intimidou. O palco já mostra muito da gente, a gente acostuma a se expor desde o início.

Verônica Ferriani – Foto de Patricia C. Ribeiro

LF – Lembro que certa vez você disse que era filha da MPB, por causa de seus pais (que por sinal, não são músicos). Mas você também já flertou com o jazz, tem o samba no sangue… queria saber como esse processo aconteceu ao longo de sua vida. Além de seus pais, teve mais alguém fundamental na construção da sua personalidade musical?

VF – Meus pais foram minhas primeiras referências mesmo. Junto deles, minha professora de violão Adélia Diniz, que cantava forte e claro, muito atenta às histórias que a música contava.

LF – Queria que falasse um pouco de sua agenda para 2015, shows pelo país, fora do Brasil, projetos… Ainda é cedo para pensar em um novo trabalho autoral?

VF – Felizmente esse ano está se mostrando especial já. Seguiremos com a turnê do disco novo pelo Brasil através de editais do SESI, da Caixa e turnê do ProAC. Enquanto isso já começo sim a compor pra um disco novo, desta vez provavelmente mais ligada ao samba e compondo em parceria com o pessoal da minha geração – um desafio novo, já que compus todas as letras e músicas de “Porque a boca fala…” sozinha.

Para conferir a agenda de Verônica, só ir no site oficial


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