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Crítica Sniper Americano: patriótico, competente, mas exagerado

Sniper Americano

Sniper Americano

Adaptado do livro American Sniper: The Autobiography of the Most Lethal Sniper in U.S. Militar History, filme conta a história real de Chris Kyle

Por Luis Fernando Pereira

Sniper Americano chega aos cinemas do Brasil inserido numa linhagem de filmes (que tem ainda Guerra ao terror e A Hora mais Escura) bem peculiar para as mais recentes gerações: a que dialoga com a história contemporânea, vivida por nós, provavelmente através da televisão. Acredito que todos com mais de 25 anos lembram-se do dia 11 de setembro de 2001, quando os Estados Unidos sofreram seu maior ataque terrorista da história. Ou então da contra-ofensiva americana, liderada pelo Presidente George Bush filho, e que resultou em mais uma guerra no Iraque. E para finalizar, a captura de Osama Bin Laden, grande nome por trás de tudo isso, que ocorreu já na gestão de Barak Obama.

Sniper Americano nasce daí, nasce da obrigação americana de responder aos ataques de 11 de setembro. A vida de Chris Kyle, o atirador mais letal da história da Marinha americana, passa a ter sentido a partir deste momento. Na trama, dirigida pelo icônico Clint Eastwood, esta passagem é simbólica, e destacada, pois marca a mudança de vida de Chris, que até então era um típico Cowboy americano, daqueles bem tradicionais mesmo.

Sabemos que Clint Eastwood é um patriota dos grandes e certamente essa atmosfera acabou adentrando na história. O filme, resultado de uma autobiografia do atirador, segue à risca os caminhos do livro e em momento algum questiona, reflete ou impõe algum problema no percurso de Chris dentro de sua história na Marinha. À medida que sua fama se alastra, e ele passa a ser considerado uma lenda, um exemplo a ser seguido, o filme se fecha pra ele e somente apresenta os fatos, com didatismo e certo ufanismo.

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A direção de Clint é segura e competente como sempre, disto não há muita dúvida. A narrativa se desenvolve linearmente, exceto na introdução, quando Kyle está prestes a matar seu primeiro alvo (uma mulher) e quando se ouve o som do tiro, voltamos, através de flashback, à sua infância, e a momentos da relação de Kyle e seu pai. Tentar entendê-lo a partir desta ótica seria interessante, mas o filme para por ai, e passa a tão somente apresentar seu trabalho como atirador de elite da Marinha americana, intercalando com a sua vida amorosa, com o início de namoro que rapidamente se transforma em casamento.

A questão aqui é que Sniper Americano é – comparado com Guerra ao Terror – bem menos denso, e – comparado com A Hora Mais Escura – bem menos relevante. Não existe nenhum subtexto por trás do filme de Clint Eastwood; é tudo muito didático, é a apresentação padrão de uma história biográfica, como se fosse retirado de um diário, mas sem confissões nem camadas para se refletir. O filme, tal como a mira de Kyle, é bastante preciso, pontual e racional.

As motivações que levaram Kyle a ser considerado o atirador mais letal da história da Marinha americana são simples, tal como a sua personalidade. Ele diz algo do tipo: eu mato para salvar meus companheiros. E pronto, não há muito que contestar, questionar, refletir. Não há outro sentimento velado em sua fala, em suas ações. Clint deixa isso bem visível no filme, o que não é problema algum, mas definitivamente tirou o poder que a história poderia possuir enquanto experiência cinematográfica.

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Bradley Cooper é bem competente como Kyle, tal como foi em sua última visita ao Oscar, com o filme Trapaça. Mas o fato é que sua única interpretação até aqui digna de aplausos foi a que lhe deu respeito no mercado hollywoodiano: O Lado Bom da Vida. Sim, em Sniper Americano ele consegue construir todos os trejeitos de um típico sulista americano (Kyle nasceu no Texas), conservador e com a mente não muito aberta. Essa constatação, entretanto, não é suficiente para colocá-lo como favorito ao Oscar, talvez não seja nem para colocá-lo como indicado.

Sniper Americano estreia como mais uma história provinda do pós 11 de setembro. A história que muitos de nós, com mais de 25 anos de idade, acompanhou pela televisão. É bem interessante percebermos que muitos dos acontecimentos vividos por esta geração já se transformaram em filmes e foram jogados para a posteridade. O contexto que o filme se insere é extremamente relevante, a história merece atenção. Porém ela é muito mais importante para um norte-americano; para o resto do mundo, o que fica é um bom filme de guerra e nada mais.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site




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