Crítica Bloodline Episódio 1x02: conhecendo as feridas abertas
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Crítica Bloodline Episódio 1×02: conhecendo as feridas abertas

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Bloodline

Segundo episódio da série da Netflix começa a explorar melhor os acontecimentos que fizeram da família Rayburn um grupo de pessoas em pedaços

Por Luis Fernando Pereira

Começando a entender melhor os acontecimentos. Esse é o entendimento final ao término do segundo episódio de Bloodline, nova série original da Netflix. Se no episódio piloto nós passamos a conhecer a família Rayburn justamente em uma ocasião especial (aniversário de 45 anos do hotel da família), agora começamos a compreender o porquê de algumas feridas estarem abertas na história.

A relação do patriarca com Danny (Ben Mendelsohn) se mostra a partir de agora como um dos principais motivos para a separação familiar. Sabíamos que Danny era revoltado e que esta revolta tinha algum motivo plausível, e não resultado de uma birra sem sentido. E logo de cara ficamos sabendo dos abusos físicos que ele sofreu do pai quando criança, e que causa duras sequelas em seu corpo até hoje. Se o seu ombro está quase destruído, isso se deve ao seu pai, pessoa que deveria protegê-lo de tudo na vida.

E pelo que vimos as sequelas foram deixadas também para o irmão mais novo, John (Kyle Chandler), que não conseguiu defender o irmão naquela época, e por conta disso, a cena em que ele separa a briga de Danny e Kevin tem essa simbologia bem definida, de fazer agora o que não pôde fazer tempos atrás.

Bloodline segue reafirmando o seu estilo de contar história, que se assemelha ora com Ray Donovan, ora com Damages e ora com nenhuma outra série, já que uma de suas grandes qualidades é possuir muitos elementos originais. Mas já deu para perceber que ela brincará bastante com os flashbacks, e as histórias serão contadas sem a necessidade da linearidade, o que acaba sendo uma boa aposta, pois quanto menos didática ela for, mais inteligente e criativa ela conseguirá ser.

A ferramenta do flashback aqui foi usada em duas situações: primeiro para entendermos um pouco da relação do pai com Danny e de como a infância do garoto deve ter sido dura. Neste sentido, é óbvio que esta relação acabou afetando o irmão mais novo, John, que se via de mãos atadas para defender o irmão. Já no segundo momento, o roteiro resolveu brincar com o derrame que o pai da família teve e que o levou para o hospital com traumatismo craniano.

Vimos a cena que introduziu a conversa entre os dois e logo depois de uma frase de efeito dita por Danny a cena é cortada e vamos direto ao hospital, onde o pai já está internado. A dúvida de que o filho havia feito isso não é somente da família, é dos espectadores também, que não possuíam nenhuma informação adicional sobre o caso.

Essa ferramenta do roteiro serve para sempre tornar ambíguos os personagens e os acontecimentos dos episódios. Ficamos o tempo todo construindo hipóteses sobre o que poderia ter acontecido, inclusive nos juntamos aos irmãos e a própria matriarca neste trabalho, e já no final a cena retorna e ficamos sabendo o que de fato aconteceu.

Bloodline

Esta passagem serve também para entendermos que os conceitos de verdade e mentira são bem flexíveis em Bloodline, já que Kevin, o irmão mais explosivo, havia minutos antes descoberto através de testemunhas que houvera uma briga e que por conta disso o pai estaria no hospital. Bloodline, assim como Twin Peaks, deixa bem claro que vai depender muito da situação para que a verdade seja verdade mesmo ou o contrário.

O segundo episódio continua dando pequenas partes do acontecimento principal da primeira temporada. A última cena, com John recebendo de Kevin uma arma não rastreável é mais uma peça para encaixarmos no que já sabemos (será?) que vai acontecer no futuro. Bom episódio.

* Bloodline acabou de ter sua renovação confirmada para a segunda temporada.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site


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