Dança: Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão
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Dança: Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão

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Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão – Foto de Maurício Serra

“Um espetáculo raso, cansativo e demasiadamente pernóstico, misturando músicas de Caymmi e Gerônimo em cenas desprovidas de ousadia e cheias de cacos.”

Por Elenilson Nascimento

Um clássico que escreve sua tragédia observando certas regras que conhece é sempre mais livre do que um poeta de antologias de boçais, preocupado com richas literárias, que escreve o que lhe passa pela cabeça e é escravo de muitas outras regras que ignora. Assim são os produtores culturais de Salvador, que carecem de bom senso e criatividade, e que menosprezam a inteligência do público. Esse argumento – que caberia bem em qualquer tentativa de descrever o ethos poético que separa clássicos e românticos, artistas de pilantras – é na verdade uma espécie de profissão de fé para quem vive de arte num país de ignorantes.

Para começo de conversa, o Carnaval de Salvador, por exemplo, já não é mais de Salvador faz tempo. De acordo com as estatísticas, apenas 20% dos soteropolitanos participam dele. Mas de modo bem desigual, é preciso que se diga, pois muitos participam dessa grande festa sem festejar, ou seja, trabalhando em condições precárias: uns, na condição servil de “cordeiros”; outros a espremerem-se pelas ruas, vendendo cerveja e petiscos miúdos, enfeites etc.; ou ainda catando latinhas de cervejas dia e noite (*e esse é um dos argumentos que venho trabalhando para o meu novo romance “Tarja Preta”, sobre uma Bahia que segrega pessoas pela cor da pele). Mesmo porque a miséria dos “cordeiros” é explorada de forma obscena e torna-se mais uma tristeza nessa instituição de bloco de cordas que ainda se mantém ano após ano, com o beneplácito das nossas autoridades, decerto empenhadas em honrar as tradições escravistas da Bahia.

E o que dizer dos nossos artistas soteropolitanos? Produzem para quem e por quem? Se na música que enfeita as festas universitárias de camisas coloridas a coisa beira ao ridículo, no teatro a coisa é ainda pior. E no cinema quase que inexistente. Uma espécie de profissão de fé, como já foi dito acima, mas que, no rigor da palavra, por parte dos produtores de cultura, um fracasso de interpretações.

Todos alegam que vivemos tempos de crise, e isso é óbvio, mas desrespeitar o público com uma oportunidade de conferir Arte de verdade é um tanto estranho vindo da terra que já produziu o que temos de melhor na nossa cultura brasileira. Nesse sentido, esses grupos que ainda hoje promovem reuniões de comadres entre os seus seguidores para arrancar esmolas de editais da Secretaria da Cultura do Estado é essencialmente pós-moderno (com tudo de podre que a pós-modernidade trouxe) e, portanto, contemporâneo em todas as nossas tragédias sem regras.

E é verdade que a espantosa pobreza de Salvador, fruto desse desgoverno do PT (na figura do Jaques Wagner) que prometeu mudar a Bahia, mas que tudo ficou no papel higiênico e nos comentários amavéis de certos formadores de opinião de boteco de rádios, fracassou (como o atual substituto anda fracassando na pasta Educação) e não formou plateia urgente tanto na cultura quanto em qualquer outro lugar. Cultura é tratada como subproduto de pastas de secretarias governamentais. Só que as coisas ainda podem piorar. A insensibilidade social recruta facilmente homens e mulheres para o subemprego, mas nunca os levam ao teatro. É esse desalento também que leva famílias inteiras a dormir nas ruas durante a festa de Momo, sacrificando-se para obter um pequeno aumento de suas rendas com um inseguro comércio. E para isto fazem vigília, no tumulto carnavalesco; dormem na promiscuidade e na sujeira, nas calçadas ou nos escassos gramados, entre bêbados, putas, ladrões e lixo. Ou em barraquinhas improvisadas, que tomam calçadas e bloqueiam a entrada de inúmeros prédios na Barra, por exemplo, pois, hoje, para o prefeito da cidade, Salvador se resume ao bairro da Barra.

Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão – Foto de Maurício Serra

Mas o teatro poderia retratar mais isso, contudo os produtores culturais preferem viver de passado, exaltando seus ídolos mortos ou os figurantes da mídia. E, ao contrário de certos movimentos bajuladores de cultura em Salvador, o ator e diretor Lelo Filho, é um dos poucos que ainda se indigna com a atual situação em que nos encontramos, como tão bem escreveu em sua coluna semanal: “Na contramão de nossas expectativas o Estado prevê corte de 50 a 70% das verbas da Secretaria de Cultura e a Lei do Fundo de Cultura foi retirada da pauta por deputados estaduais, no mesmo momento em que eles SE davam aumento na verba de gabinete de R$78 mil para R$92 mil. O reajuste de 18%, em tempos de tantos cortes em áreas importantes para a população, teve voto favorável de 54 deputados e apenas um contra”, escreveu o pai de Fanta Maria.

E parece que a cultura, hoje, depende exclusivamente do desempenho comercial. E eu sou um bom exemplo disso, de todos os meus livros, apenas um vende todos os meses e, talvez por causa disso, seja considerado um livro de verdade, mesmo que os outros sejam mais atraentes. E essa contradição é uma das coisas que mais me deixa revoltado: o fato do povo de Salvador viver de copiar coisas dos outros, além de se viciar no espetáculo dantesco da bajulação fedorenta do acarajé com camarão, da mesma forma que o resto do país se viciou em BBB que tem uma audiência dos infernos através da televisão.

Alguns artistas na Bahia dizem que não existe crise alguma. Mas existe sim! Existe uma crise renal. Uma crise que estigmatiza novas produções em detrimento do mais do mesmo de sempre. E foi exatamente isso o que o Teatro Castro Alves ofereceu ao público no último domingo, 12/04, com o espetáculo de dança “Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão”, com direção coreográfica de Tuca Pinheiro, em parceria com a dramaturga Carmen Paternostro. E como nos jornais de Salvador não existem mais Cadernos de Cultura, como os críticos de cinema, música e teatro viraram produtos em extinção, segue essa crítica clandestina de alguém que ama o teatro, tentando tirar leite de pedra, não com a intenção de problematizar, mas de abrir uma discussão pertinente.

Com um público bem reduzido, o espetáculo começou com uma bailarina no fundo do palco fazendo papel de jarro (pensei que fosse alguém de apoio limpando o palco), antes mesmo dos avisos do telão terem sido divulgados. Cerca de dez longos minutos depois, um outro bailarino chega e começam a dançar colados. Sem música, sem contexto, sem nexo. Daí pra frente é uma colagem de devaneios que parecem terem sido jogados no palco para só ocupar espaço.

Gritos, sacolejos e afetações são misturados ao ritmo de algumas músicas dos baianos Dorival Caymmi e Gerônimo, para retratar uma cidade do Salvador que não existe mais. O cenário com um projeto que se inspirou livremente na visão do artista plástico Miguel Rio Branco parece que ficou muito acima das coreografias desafinadas no palco, apesar dos esforços dos bailarinos.

O sincretismo religioso, os terreiros, as feiras, as praias, as ruas e a importância da vanguarda cultural dos anos 50 estavam entre os elementos incorporados no processo criativo do espetáculo, mas tudo sem o mínimo de roteiro para que o público mergulhasse de cabeça na história. A trilha sonora de Gerônimo e Caymmi poderiam ter ajudado muito, mas o som péssimo (ao ponto de verberar uma microfonia insuportável) tirou a graça da coisa. Se os produtores quiseram mostrar a distante dimensão folclórica e dos regionalismos panfletários, a coreografia deixou muito a desejar.

Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão – Foto de Maurício Serra

No meio do enredo, alguns bailarinos encenam apresentações dos antigos programas de auditórios de rádios, mas tudo ficou tão desfocado que pareciam cópias toscas de Os Trapalhões. Um dramalhão! Não foram criados outros olhares com o objetivo de perceber, entender e traduzir Salvador em diferentes perspectivas, mas o espetáculo se resumiu a uma apresentação de gincana. Se existiu alguma ousadia, a mínima que fosse, ela ficou no jogo de luzes que fizeram parte do elenco. E só.

Uma imensa feira, com direito a sacos de laranjas na cabeça, imensas sacolas de compras no chão e bailarinos enchendo sacos com ar e estourando, foi esquematizadas para em seguida homens com vestidos aparecem dançando músicas de Candomblé. Uma imagem de Santa Bárbara é levada ao palco (muito bom!), mas se perde no meio do caminho com tantos gritos e coreográficas um tanto quanto escalafobéticas. Fiquei até com dor de coluna só de olhar.

As ruas de Salvador, com seus becos sujos e sua gente fedorenta, parecem gritar mais do que os bailarinos ligados na tomada. O espetáculo parece dizer que, ao invés de se revoltar contra tudo isso e também fazerem ruídos em suas poltronas até acordar os responsáveis que são muitos, a plateia deveria ir às ruas para gritar também. E os bailarinos continuavam zanzando e/ou brigando. As brigas seriam uma forma de se resgatar o lado lúdico, a “brincadeira” do Carnaval.

Engraçado, que a espetacularização é tão forte, que nessa parte do espetáculo, a plateia parece lembrar dos malhados e pobres das periferias que preferem brigar em frente às câmeras das TVs para aparecer de alguma forma, pois a cultura brasileira se resume a isso: machismo. Mas, não é uma violência, é uma coreografia podre do pagode de baixa categoria cheio de palavrões e versos machistas denegrindo a mulher (que não se dá valor) mais solta, de jogar os braços e se mexer muito e daí de vez em quando, o braço acaba pegando em alguém propositalmente e aí começa a pancadaria, que não vai para frente, pois chega a turma do deixa disso, e vem a polícia para reprimir. E nisso o espetáculo acertou em cheio: não é mais brigar de puxar os cabelos não, é de muro, de tapa e também de desnudar a parte de cima da outra, ou desnuda ou joga no chão, então é a humilhação da outra. Uma loucura. Aí, os programas sensacionalistas de hoje (*não preciso dizer o canal e nem o nome do apresentador que todo mundo sabe) caem matando a pau mostrando e repetindo as cenas de pancadaria para os telespectadores. E é essa Bahia tão contemporânea e tão ignorante que também é retratada no palco, mesmo que a bela trilha diga o contrário.

Antigamente, se dizia que o Carnaval da Bahia era o Carnaval da participação, onde todo mundo ia para as ruas, brincava-se sem dinheiro, mexia-se e beijava-se todo mundo. Mas isso é uma coisa da década de 70 do século passado, já era. Em “Agô Arerê! Por Favor, Não Aperte o Mamão”, por mais limitada que a apresentação tenha sido, a Bahia de Caymmi e de Gerônimo é mostrada, num tempo em que todo mundo brincava na Praça Castro Alves, quando todo mundo ia atrás do trio elétrico, mas hoje para ir atrás do trio elétrico é preciso pagar. Então aquele Carnaval democrático, participativo, que fazia um contraponto com o Carnaval do Rio de Janeiro que a gente perguntava: “Puxa, como deve ser chato para os cariocas ficarem sentados o tempo todo ao invés de pular?” Hoje, estamos iguais a eles.

Agora a Salvador de hoje, vive de fama. Fama e lama. E como parte da programação especial do Mês da Dança e também comemorando seus 34 anos de fundação, o Balé Teatro Castro Alves (BTCA) apresentou esse “Agô Arêrê! Por Favor, Não Aperte o Mamão” para um público sonolento e calado, sobre uma cidade do Salvador que não existe mais. Contudo, o espetáculo se mostrou raso, cansativo e demasiadamente pernóstico, misturando músicas de Caymmi e Gerônimo em cenas desprovidas de ousadia e cheias de cacos. Espetáculo fraco demais, apesar do cenário bacana, da luz e dos esforços dos bailarinos. Só não entendi o porquê da classificação indicativa ser de 18 anos, se na plateia tinha muitas crianças… Coisas da Bahia!

 Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.


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