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Crítica ContraCorrente, filme de Max Gaggino

ContraCorrente

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Filme tem direção do cineasta Max Gaggino, italiano radicado na Bahia; trama se passa nas cidades de Gênova, na Itália e Salvador

Por Luis Fernando Pereira

Se tivesse que descrever com uma palavra somente o trabalho do cineasta Max Gaggino, tendo como base os seus dois primeiros projetos no cinema, descreveria certamente com a palavra ousadia. Isso porque, mesmo sendo italiano de nascimento, os dois primeiros filmes do diretor adentra no âmago da sociedade e da cultura de Salvador de uma forma que poucos cineastas nascidos aqui conseguiram ao longo destes anos.

E se no primeiro projeto, o forte e relevante documentário O Menino Joel, ele causa choque ao recontar uma das histórias mais vergonhosas da segurança pública da Bahia, no segundo, o divertido e interessante longa-metragem ContraCorrente, ele busca flertar o puro entretenimento com algumas mensagens de auto-estima, sempre de forma leve e despretensiosa. O resultado é um filme limitado tecnicamente, mas com uma atmosfera das mais agradáveis.

História
Na trama de ContraCorrente, temos Marco, que mora com os pais e a irmã em um pequeno apartamento no centro histórico de Gênova. A tensão dentro de casa aumenta quando a avó passa a morar com a família, por não conseguir pagar o aluguel. Sufocado por todo esse momento e com as contínuas brigas em casa, Marco toma a atitude de sair do próprio país e viaja rumo à Salvador, no Brasil. É na capital baiana que conhece Neca (Leandro Rocha) e Mariana (Laíse leal).

É bem interessante percebermos que numa rápida leitura da sinopse já podemos analisar a estrutura do filme. Dividido em quatro partes bem definidas, a primeira tem uma fotografia mais clássica, já que ela é ambientada na cidade de Gênova, na Itália. É uma espécie de introdução ao filme propriamente dito, servindo para que o espectador entenda porque diabos um italiano escolheu a Bahia para fugir de seus problemas. A cena em que Marco fica sabendo da existência de Salvador soa um tanto forçada, mas ainda assim é crível e não incomoda nenhum pouco.

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Chegando a Salvador, a trama entra direto em sua segunda parte, com o protagonista conhecendo o seu futuro grande amigo nesta jornada de autoconhecimento, o baiano (bem típico mesmo) Neca, interpretado pelo talentoso ator Leandro Rocha. A cena que joga o italiano na cidade é passível de alguma discussão, já que em menos de cinco minutos ele acaba sendo assaltado por um taxista (negro), que cobra muito mais que o preço normal e também assaltado por um grupo de jovens, também negros.

Porém, é interessante observar esta mesma sequência não pelo lado sociológico, mas sim por uma perspectiva narrativa, cinematográfica. Marco, após sofrer dois assaltos, já vai entregando suas coisas quando vê a abordagem de Neca, que acontece logo após o segundo assalto. Entretanto, Neca surge para ajudá-lo, e é justamente essa quebra de expectativa que vai permitir o nascimento de uma amizade na trama. Pensando no roteiro, era o modo mais rápido de construir uma amizade e fazer a história andar.

É neste momento que se mistura a pizza com o acarajé, pois os elementos das duas culturas são a todo instante colocadas para dialogar. E se podemos classificar o filme como uma comédia (além de drama) é por conta desta segunda parte do filme, que apresenta uma química muito boa entre os dois atores. Leandro Rocha consegue facilmente encarnar um baiano alegre, criativo e que tem problemas como qualquer outra pessoa. Sua fala surge naturalmente e as interações que acontecem nesta parte são boas por conta desta naturalidade.

ContraCorrente

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Num terceiro momento, Neca (sem muita explicação) se retira da trama e o roteiro passa a privilegiar a relação de Marco com Mariana (Laíse leal). Aqui chegamos a perspectiva romântica, que traz algumas boas sequências e – principalmente – é aqui que a mensagem central do filme de Max Gaggino é passada.

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E que mensagem seria esta?

Bem, é aqui que o diretor mostra que uma cidade na famosa Itália pode ser tão problemática a ponto de fazer alguém querer fugir de lá. E também que, mesmo com seus problemas, uma cidade como Salvador pode ser tranquilamente um lindo lugar para se viver. Essa quebra de estereótipos é o grande legado do despretensioso ContraCorrente. A conversa que Marco tem com Mariana, num longo plano sequência, é das melhores coisa do filme. Didática, emotiva, joga no espectador toda esta discussão.

Saindo desta terceira parte, a narrativa parte para o desfecho, com a famosa reviravolta e a entrada novamente de Neca, para justamente finalizar a história. Neste ponto, o roteiro soou bastante corrido, chegando até mesmo a criar um anticlímax na trama, sobretudo na parte que envolve o casal Marco x Mariana. A resolução que proporciona o desfecho, com Marco tendo que voltar ao seu país de origem, é passível de críticas por não apresentar todas as possibilidades que a história trazia (envolve Marco ter que deixar o Brasil por não ter visto de trabalho).

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Ainda assim, mesmo sem um desfecho totalmente satisfatório, o filme de Max Gaggino termina e deixa uma agradável sensação de leveza. Ainda que limitado tecnicamente, o custo do filme explica um pouco esta limitação, toda a atmosfera de ContraCorrente é positiva, destacando-se a trilha sonora, formada por canções de músicos e bandas independentes da Bahia, como Dão e Scambo.

Max Gaggino pode até aqui se orgulhar da filmografia que vem construindo. Ainda em fase inicial, e sem um mote, um estilo bem definido, o cineasta levou às telonas um poderoso documentário que serve de denúncia social, e uma leve e criativa (além de autobiográfica, é claro) história sobre o cruzamento de culturas tão distintas como as da Bahia e a de Gênova.

ContraCorrente no fim das contas apresenta uma jornada de autoconhecimento, uma jornada de alguém que teve que se deparar com o desconhecido, com o novo, restando a ele duas opções: rejeitar essa experiência e viver numa bolha, ou se abrir, se permitir conhecer, e ganhar assim uma aventura indescritível numa nova cidade e com novas pessoas. Essa segunda opção foi a escolhida por Marco. Felizmente.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site


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