Entrevista com o escritor Wellington Oliveira
Literatura

Entrevista com o escritor Wellington Oliveira

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Wellington Oliveira

“Se você não tem controle total do seu mundo, do universo que você instituiu, que bagunça sem governo é essa que você espera que chegue até ao seu leitor?” (W.O.)

Por Elenilson Nascimento

O jovem escritor Wellington Oliveira ampliou sua bibliografia recentemente com o lançamento do livro “Eu Quero Que Ela Morra”. Mas diz que começou a escrever suas histórias muito cedo, a partir dos seis anos de idade. Durante toda a infância e adolescência se manteve em contato com tudo o que dizia respeito ao mundo literário, criando novelas, poesias, crônicas e peças teatrais.

Essa movimentada infância, no entanto, parece ter servido muito bem como inspiração literária, pois há quem tenha histórias pessoais extraordinárias para contar. E se esse autor, talvez, tentasse narrar a sua vida, com suas horas absorvidas com o trabalho, a internet, a família e a própria escrita, os leitores jamais morreriam de tédio.

E tendo como inspiração os grandes roteiristas americanos Billy Wilder e Joseph L. Mankiewicz, começou a escrever roteiros de cinema igualmente. Trabalhando como instrutor de inglês, Wellington segue tentando equilibrar harmoniosamente suas três paixões: a língua inglesa, a literatura e o cinema. Ele também é autor de “Ghattu” , “Uma Comédia Romântica”, “Contos Sobre a Clássica Hollywoode” e “Sobre Mães, Filhos, Esposas e Maridos”.

Elenilson – Quando você soube que queria ser escritor?

Wellington Oliveira – Em momento algum eu disse alto o bastante “Quero ser escritor” como alguém diz “Quero ser médico” ou “Quero ser advogado”. Mas o fato é que com seis anos de idade eu já criei a minha primeira história que era sobre uma fada que tinha como única função ficar numa estrada alertando as pessoas que havia uma pedra no caminho para que elas não caíssem e se machucassem. O título era “A Fada Que Ajudava As Pessoas” (risos). Então, isso sempre foi bem natural pra mim. Comecei a criar histórias desde que comecei a aprender as letras.

Elenilson – Quais foram suas maiores fontes de inspiração?

Wellington Oliveira – São as minhas fontes de inspiração até hoje: filmes clássicos e a vida de estranhos e conhecidos a minha volta (em primeiríssimo lugar), depois séries de TV e empatado em um terceiro lugar estão livros e músicas.

Elenilson – De que maneira você descreveria o processo de escrita desse seu livro “Eu Quero Que Ela Morra”? Você fez algum tipo de pesquisa ou preparação?

Wellington Oliveira – Só faço pesquisa para temas que estão totalmente fora da minha realidade e daí eu não posso escrever besteiras que não condizem com o real. Por exemplo, a minha obra “Eu, Cavalo-Marinho” que é essa distopia de um mundo de prostitutas de luxo que são vistas como verdadeiras deusas, daí eu tive que pesquisar sobre prostituição, sobre tipos de joias, tecidos, marcas. Mas o meu processo de criação do “Eu Quero Que Ela Morra” foi bem orgânico. Eu tinha o propósito de falar sobre os vários pontos de vista do que é “ser mau” e me joguei seguindo os meus instintos, porque não importa o quão nós somos bons cidadãos… Todos nós temos um pouquinho do mal lá no fundo. Precisamos ter para a nossa sobrevivência!

Elenilson – Você escreveu que “gosta mesmo de vilãs”: “É isso. Bateu a vontade de escrever um livro onde vou criar a vilã mais cruel que já existiu! E essa foi a fase UM desse livro que passou por três fases até estar concluído”. Como é esse processo rumo à vilania? Porque eu também adoro vilãs!

Wellington Oliveira – A vilã em questão do livro se chama Linda Riviera e o leitor a acompanha dos seus quatro anos de idade até aos 21. Eu diria que o processo de vilania (na ficção! Na vida real não. Por favor) é muito prazeroso porque liberta. Alguém que é todo certinho e bonzinho com os vizinhos e idosos como eu sou sente uma espécie de prazer em descarregar essa dose de maldade que fica trancada diariamente no interior. É um exercício interessante criar esse ser humano que não tem limite algum.

Elenilson – Como é que você conseguiu fazer a pulsação do coração no seu livro ser igual à pulsação do coração do autor?

Wellington Oliveira – Se esses dois corações não tivessem batido em perfeita sintonia desde o início, o livro nem sequer teria sido concluído. Eu vejo esses autores postando em desespero nas redes sociais que… “Socorro! Minha personagem não quer me ouvir! Está brigando comigo! Tomou outro rumo” e do fundo do meu coração… Eu não entendo! Se você não tem controle total do seu mundo, do universo que você instituiu, que bagunça sem governo é essa que você espera que chegue até ao seu leitor? Eu sempre me mantenho firme no controle dos mundos que eu crio e tenho certeza que é por isso que a narrativa e eu nos damos muito bem do início ao fim e nunca brigamos. Não dou espaço para que isso aconteça.

Elenilson – Você viveu situações parecidas com suas histórias? Pode citar alguma?

Wellington Oliveira – Ah, em outros livros que escrevi, as minhas próprias experiências estão totalmente ali. Alguns episódios sexuais das minhas protagonistas? Meus episódios sexuais adaptados ali (pausa para o autor moreno ficar corado). Mas “Eu Quero Que Ela Morra” tem muito pouco do Wellington – quase nada. Só consigo pensar no personagem Kon que é real! E as maldades dela em geral, a sua postura firme para passar por cima de qualquer um, para obter o que quer que no fundo eu invejo e gostaria de ter a coragem para ser igual.

Elenilson – Você tem muitos projetos na cabeça? Quer falar sobre algum deles?

Wellington Oliveira – Sempre existem muitas ideias flutuando na minha cabeça todos os dias, 24 horas por dia. Eu não passo um dia sem fazer ao menos uma anotação para um futuro livro, seja uma frase interessante que ouvi de alguém no ônibus ou um ponto para uma trama mesmo. Atualmente eu já tenho os títulos dos meus dois próximos livros… Mas não posso dizer. Sorry.

Wellington Oliveira

Elenilson – Os leitores pedem histórias ou temas? Já aconteceu de um pedido virar uma história ou um livro?

Wellington Oliveira – Pessoas da minha família. Minha avó materna pediu para que eu transformasse a vida dela em livro e eu me sinto obrigado a fazer isso em algum momento da minha vida e também tenho uma prima que tem a vida amorosa tão complicada quanto a minha que já pediu para que eu escrevesse um livro sobre o tema “relacionamentos” para ajudar pessoas como ela… E eu. Mas eu estou sempre escrevendo sobre relacionamentos de qualquer maneira.

Elenilson – Você muda detalhes e textos depois que o livro está escrito? Pede palpites de outras pessoas antes de levar à editora?

Wellington Oliveira – Sou um autor orgulhoso, fechado e centrado. Nunca pedi opiniões durante o processo de escrita. Outra coisa que não entendo (mas respeito) são os autores que vão às redes sociais pedir opiniões para dar nomes aos seus personagens. Acho que é como sair por aí pedindo para alguém dar nomes aos seus filhos. Eu vejo o processo de criação como algo tão íntimo. É fato que com “Eu Quero Que Ela Morra” eu me abri só um tantinho de nada nesse quesito, porque bem no início divulguei o título (que sempre foi esse mesmo!) perguntando o que o pessoal achava e deixei que votassem na capa. Até faço uma dedicatória ao pessoal do Facebook no livro. Escrevi três finais diferentes (que envolvia a decisão de se um bebê deveria morrer ou não e isso teve muito a ver na verdade com a minha dúvida sobre o quanto de maldade o meu leitor poderia suportar). Mas 90% das vezes, se eu digitei… É aquilo que será impresso.

Elenilson – Você começa a escrever com um vislumbre do clima, atmosfera, ambiente, ou tudo acontece no “escrever” mesmo?

Wellington Oliveira – Depende totalmente de cada projeto. “Eu, Cavalo-Marinho”, o livro sobre as prostitutas de luxo endeusadas que já citei aqui foi um livro para o qual eu esbocei todo um organograma detalhado antes de escrever a primeira frase. Eu organizei antes os nomes das moças, os níveis de hierarquia e até desenhei roupas! Em contraste, o meu primeiro livro, “Sobre Mães, Filhos, Esposas & Maridos” foi escrito todo motivado por um lindo impulso. Mais de 400 páginas que escrevi sentando em frente ao notebook e apenas recebendo as vozes das minhas personagens e os acontecimentos no momento como uma espécie de Chico Xavier.

Elenilson – Em “Eu Quero Que Ela Morra” você escreveu que “não é apenas um exercício de acompanhar Linda Riviera e seu irmão, Will Riviera, dos seus quatro anos de idade até os 21 anos”. Como é então?

Wellington Oliveira – É quase um estudo, na verdade. Uma análise do comportamento da nossa sociedade. Eu quero fazer com que o leitor olhe para essas pequenas (pequenas?) maldades que vemos sendo cometidas dia-a-dia e que reflitam a respeito. Eu não queria que a experiência do livro para o leitor fosse só como apreciar uma boa novela com uma ótima vilã. A minha ambição é que o tema “o mal” seja discutido e pensado ao longo da leitura.

Elenilson – Você abre um livro, folheia, lê as orelhas, dá uma olhada no prefácio, começa e logo pula para o final, procura passagens eróticas? Gostaria mesmo de ser lido assim?

Wellington Oliveira – Eu confesso aqui que sou adepto da tal “leitura dinâmica”. Eu li o livro “Garota Exemplar” assim. Eu corria os olhos pelas passagens onde era muita descrição de ambientes e ações e focava mais nos diálogos. A justificativa desse comportamento para mim é que eu tenho essa alma de roteirista então sempre tenho um tesão maior por diálogos do que narração de detalhes. Quanto às outras pessoas que também lêem assim… Acho que todo processo de absorção de leitura é válido. Se alguém lesse “Eu Quero Que Ela Morra” só passando pelos trechos de sangue e sexo, mas entendesse a proposta de discussão sobre o conceito da maldade ao chegar ao final… Por mim tudo bem.

Elenilson – Há escritores que reescrevem sempre o mesmo livro. Temendo isto, você muda de gênero como troca de camisa?

Wellington Oliveira – Eu mudo de gênero, mas não é por temer ser repetitivo. Mudo simplesmente porque eu tenho essa ambição pessoal de poder olhar para trás um dia e ser capaz de dizer “Uau. Eu escrevi sobre tudo!” Então eu tenho livros de comédia romântica, terror, suspense, romance. Tenho fé que um dia chegarei ao “tudo”.

Elenilson – O que é mais difícil no tratar com editores?

Wellington Oliveira – Com “Eu Quero Que Ela Morra” eu fui o meu próprio editor, o que foi divino. Wellington se entende perfeitamente bem com Wellington (risos), mas quando tratei com editores anteriormente, nunca tive grandes problemas. O que pode ser difícil é essa tentativa de fazer o outro enxergar o que você criou da mesma maneira que você enxerga. Isso beira o impossível, na verdade.

Elenilson – Falemos de cama: adormecendo lhe vem uma ideia, deixa para pensar no dia seguinte ou levanta-se de um salto, alucinado?

Wellington Oliveira – Já levantei bastante, hoje em dia não faço mais (e realmente não sei o porquê). Mas quando a ideia é mesmo boa, quando tem mesmo que ser (se você é do tipo que acredita em destino e coisas do tipo), eu desperto na manhã seguinte e recordo tudo claramente. Isso eu também já aprendi.

Elenilson – Seus julgamentos de valor das suas vilanias são influenciados pelo calor da hora ou você mantém um distanciamento crítico?

Wellington Oliveira – Acho que consigo manter um equilíbrio legal, porque assim como eu fico excitado quando estou lá narrando aquela cena onde minha personagem grita que é gostosa, que é a melhor, que não veio para esse mundo para ficar de brincadeira eu também sei parar para me afastar um pouco e observar de longe momentos onde preciso ter a sensibilidade para fazer escolhas que irão guiar o texto para o caminho crível e de bom gosto.

Elenilson – Já tentou um romance polifônico, poema épico, novela de TV, biografia, romance histórico, tese de doutorado?

Wellington Oliveira – Admiro muito quem escreve poesias exatamente porque é algo que eu não consigo escrever. Diferenciando dos livros, eu já escrevi três roteiros para cinema e dois roteiros para teatro.

Wellington Oliveira

Elenilson – Quando escreve sobre o que não conhece, você usa o microscópio para detalhes e o telescópio para a visão panorâmica?

Wellington Oliveira – Quando eu cismo em desbravar territórios desconhecidos eu fico aberto mesmo. Pesquiso, ouço, corro atrás. Gosto de passar a energia da verdade nas páginas.

Elenilson – Pensando bem, você escreve para provocar? Gosta de cutucar a onça com vara curta? O sucesso do escândalo é mais atraente?

Wellington Oliveira – Sem dúvida. Até hoje eu não escrevi um livro sequer que não tivesse ao menos a sombra, um toque de tema considerado “polêmico” por essa nossa sociedade com valores meio questionáveis. Adoro escrever sobre esses temas. Tenho minhas protagonistas que lidam com aborto, tenho meus casais gays que amo, minhas assassinas, meus solteiros inveterados, ciumentos doentios. Que existam autores e autoras que escrevem livros e mais livros sobre a mocinha que se apaixona pelo cara bonito e tudo é cor de rosa e simples. Respeito esses autores… Mas esse nunca serei eu.

Elenilson – Esta é decisiva: já surrupiou alguma fórmula de outro escritor? E quais resultados obteve?

Wellington Oliveira – Plágio seria o tipo de coisa que a minha vilã Linda Riviera faria sem nenhum problema, mas não eu (risos). Já me inspirei bastante por certos autores e suas obras, mas nunca me apoiei plenamente em um estilo de outro ou tentei copiar uma tendência que explodiu em sucesso na atualidade. Não corri para escrever meu próprio livro sobre vampiros brilhantes ou sadomasoquismo e nem pretendo bem agora produzir um livro para colorir (mais risos).

Elenilson – Desculpe a insistência, mas… As grandes ideias caem do céu? E como sobrevive, sendo masoquista, com a insofismável certeza de que foram as últimas?

Wellington Oliveira – As grandes ideias estão sempre ao redor e ao autor só resta ter sensibilidade e atenção para absorvê-las. É uma fonte inesgotável.

Elenilson – Eu vou ganhar um livro autografado ou terei que me ajoelhar?

Wellington Oliveira – Ajoelhar não é necessário (hahaha). Se me prometer que irá devorar o meu livro e em seguida publicar uma resenha que escrever sobre ele, eu te envio uma cópia pelo Correio com autografo, perfume, amor e beijos.

* Para adquirir o livro de W.O. aqui: http://eu0014.wix.com/queroqueelamorra

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  

Deixe uma resposta