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Crítica O Vendedor de Passados: tinha tudo para ser o que não foi

O Vendedor de Passados

O Vendedor de Passados

Premissa da história adaptada para o cinema faz o espectador sonhar com um filme que em nenhum momento se apresenta

Por Luis Fernando Pereira

Uma das características mais mágicas que o cinema possui recai sobre aquela sensação de podermos sempre nos transportar para histórias que de alguma forma dialogam com nossas vidas. A música, a literatura e outras artes também conseguem tal proeza, mas o poder imagético da sétima arte é algo que nos toca de uma forma tão mais poderosa que não há como não deixá-la em destaque. Sendo assim, acompanhar uma história que traz em sua premissa a ideia de que podemos mudar o nosso passado, de riscar os nossos erros, nossas frustrações e escrever novas experiências – e tudo isso sem que precisemos de uma máquina do tempo – soa algo tão instigante que um filme assim imediatamente chamaria a nossa atenção.

E é com esta excitação inicial que vamos assistir ao filme O Vendedor de Passados, dirigido por Lula Buarque de Hollanda e estrelado pelos competentes Lázaro Ramos e Alinne Moraes. Na trama, Lázaro interpreta Vicente, uma figura que vende passados às pessoas, criando documentos, fotos e outros indícios necessários para reescrever a história.

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Perceba logo de imediato que aqui trata-se de uma mudança psicológica, no campo do simbolismo, e não em mudanças reais, tal como em filmes de ficção-científica, onde um personagem tem a chance de voltar no tempo e reconstruir partes de sua vida. Algo assim imaginaríamos tranquilamente num conto de Saramago, e por Deus, seria tão fascinante.

Aos poucos vamos conhecendo Vicente, uma figura emblemática, que desde o início dava sinais de que sua profissão atual era resultado de algum trauma de seu passado; o roteiro dava indícios e, de fato, ao chegar aos momentos finais, somos apresentados à sua ‘verdadeira’ história. Verdadeira entre aspas, porque se há um conceito subvertido no filme, esse conceito é o de verdade. Uma pena que esta ideia é trabalhada de forma frágil e sem rumo no filme.

A vida de Vicente então muda ao conhecer a personagem interpretada pela bela atriz Alinne Moraes. Seu pedido é ambicioso: recontar a sua história do zero, sem nenhum elemento que o ajude a modificar sua biografia. Pensar isso sem a ideia de ficção-científica é um trabalho árduo, que o filme de Lula Buarque busca conseguir, e até consegue algo engrandecedor, na cena em que Vicente mostra para Clara (o nome escolhido por ele para identificá-la) o vídeo de sua nova vida. Ali é uma representação perfeita do cinema fazendo cinema.

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Assim Vicente e Clara começam uma estranha relação, que coloca a história dentro de uma perspectiva dramática e política ao mesmo tempo. O romance vem depois, como uma fuga do roteiro para o que realmente importava, que era mostrar como o trabalho de Vicente de fato afetava as pessoas envolvidas. Já havíamos visto um dos casos, de um virgem que, ao ter o seu passado recontado, atrai os olhares de mulheres e aparece rapidamente com uma noiva.

O Vendedor de Passados

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O potencial do filme até este instante era enorme e havia inúmeras possibilidades de continuar com a trama: que trabalho é esse afinal? Existem outros vendedores de passados? Que consequência jurídica e moral algo assim acarreta… O saldo ainda era positivo, mas eis que o roteiro corre para buscar um ponto de virada, que então chega e o filme faz a transformação jesuítica inversa: deixa de ser vinho e passa a ser água, num copo meio cheio, sem gás e quente.

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O roteiro, numa tentativa de surpreender, tira toda a carga dramática da história e a deixa com ares de um pseudo-suspense, porque o principal prejudicado da farsa provocada por Clara é um personagem que mal aparece na trama, e que por isso não estamos nem ai para ele. Com isso, um filme que trabalha a ideia de construção de novas identidades se perde justamente no fato de não possuir identidade alguma, de ser uma colcha de retalhos dos vários gêneros cinematográficos.

Quando chega o desfecho, as reflexões cessam, e entra em cena uma sensação de indiferença, como se todas as ideias abertas durante o passar do tempo fossem evaporadas e se transformassem em algo sem muito valor.

O Vendedor de Passados podia ter sido um belíssimo filme. Podia ter sido inúmeras coisas. Mas não foi. Quem sabe um dia Vicente muda o passado do filme e o transforma em algo mais relevante.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site

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