Literatura: Vingança Mortal não motiva e nem provoca
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Literatura: Vingança Mortal não motiva e nem provoca

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Vinganca Mortal

“Vingança Mortal não é um livro ruim, mas poderia ter sido muito melhor.”

Por Elenilson Nascimento

Hoje em dia tornar-se autor renomado no panteão efêmero da literatura brasileira virou lugar comum para alguns deslumbrados de plantão ou para muitos aposentados que nunca abriram um único livro na vida e que mesmo assim se acham as reencarnações Dostoievsky ou de um Machado de Assim. Contudo a realidade é bem diferentes, bem distantes das curtidas em fotos divulgadas no Facebook.

Ter presença em redes sociais não é suficiente para ser um autor consumido pelas massas manipuladas pelas jogadas de marketing das grandes editoras. Às vezes a pessoa é uma celebridade na internet, dessas que postam uma foto em eventos literários a cada dez minutos, mas não tem nenhuma inspiração para escrever um livro bacana, nenhuma pegada para criar uma história realmente instigantes – e autores instigantes fazem falta.

Sou muito criterioso com relação às minhas leituras e modismos, livros cheirando a sexo mal feito e vendido como a última sensação, além de histórias rasas para adolescentes não me atraem. Alguns autores dessa seara que fazem um corpo-a-corpo interessante, como a Thalita Rebouças (de “Fala Sério Mãe!” e outros títulos publicados pela Rocco, mais de um milhão de exemplares vendidos), a Bruna Vieira (“Depois dos Quinze” e outros dois títulos publicados pela Gutemberg, mais de quatrocentos mil exemplares vendidos), Paula Pimenta (de “Fazendo Meu Filme” e mais oito títulos, também passou de meio milhão de exemplares vendidos), e/ou Tammy Luciano (de “Claro Que Te Amo!”, “Garota Replay” e mais outros quatro que vendem que nem água) falam muito com seus leitores, mas que ainda me deixam meio angustiado com as suas histórias sonolentas de amores juvenis.

Outro exemplo bem atípico é o livro “Vingança Mortal”, de Raquel Machado, que pelo título pensei que fosse uma obra toda recheada de suspense e fugindo do mais do mesmo que a editoras continuam lançando. Pelo contrário. A história é sobre o assassinato de Nicole que teve o corpo encontrado misteriosamente(?) dentro de um carro – carro esse que ficou pendurado em cima de umas árvores.

Vinganca Mortal

São seis personagens que se revezam nas 117 páginas, mas que não conseguem dialogar entre si ou com os leitores. Algumas frases demonstram o amadorismo da autora e a sua falta de estratégia argumentativa: “Quando olhei para o rapaz misterioso, percebi que ele parecia com alguém que conhecia”; “Fui até o caixão e vi Nicole deitada”; além de outras.

No enredo, Brenda tem uma leve desconfiança de que a amiga Nicole não sofreu nenhum acidente e, sim, foi assassinada e passa a investigar a morte da amiga. E ao receber uma ligação sobre a morte de Nicole, Brenda retorna a sua cidade de origem, Lageado Grande. Lá ela vai ao velório, onde percebe o rosto da defunta marcado por facas. Uma dúvida surge: será que realmente foi um acidente como todos falam? Ao voltar para casa algumas pistas aparecem, e Brenda resolve investigar por conta própria. O mais engraçado é que desde o início o leitor mais atento percebe no que a história vai se encaminhar: tédio total.

A tal rede de intrigas que o enredo vende envolvendo dinheiro, drogas e traição, demonstra ser, na verdade, mais uma rede de suposições e desconfianças. Os personagens em momento algum cativa os leitores por algum tipo de inteligência, pelo contrário, a história segue em um ritmo enfadonho – em alguns momentos parece post de algum blog de aluna de ensino fundamental – e o quebra-cabeça, onde cada peça parece se encaixar com extrema exatidão, não encaixa, ou melhor, quando encaixa tudo parece previsível demais.

A tal amizade entre os seis amigos, alardeada desde as primeiras páginas (*aquela “Carta ao leitor” foi uma coisa dispensável) parece mais uma futrica de comadres. No decorrer da trama nada se revela de importante, as faces sem máscaras já eram esperadas e não existe envolvimento nenhum do leitor na trama. O livro não consegue prender a atenção, não existe suspense algum, nem reviravoltas, e as pessoas que aparentam ser uma coisa são exatamente aquilo desde o início onde a ganância, a inveja e o desejo não correspondido são as palavras chaves.

E, dessa forma, o mercado editorial brasileiro vai jogando nas livrarias livros de autores amadores que deveriam ter mais referências, leituras e argumentos antes mesmo de se aventurarem em criar histórias clichês. Cadê a dedicação? Cadê o compromisso? A gente vê isso nas propostas de certos livros que chegam e são apresentados como “a nova revelação”, “surpreendentes” e tal. Se nos EUA e na Europa, principalmente em Portugal, existem os agentes que fazem parte do trabalho, os manuais para apresentar uma proposta, então as pessoas já têm uma ideia de mercado. Aqui, nessa província, vejo autores se apresentando como reencarnações dotadas de verves, mas que na verdade não passam de letras mudas.

A impressão que ficou com relação a “Vingança Mortal”, depois de doze anos na gaveta, segundo a própria autora, é que ele deveria ter permanecido na gaveta. Um livro que tinha potencial para ser bem mais cuidado, mas que peca nos exageros e nos modismos – isso de ficar citando nomes de estrelinhas pop é muito chato. Ninguém apresenta sua obra localizando o segmento ao qual ela pertence, com que obras ele compete, o que tem de originalidade: “mistério que revelará mais do que você imagina”. Ficou tudo na teoria mesmo!

Alguns autores, por falta de experiência ou pela ganância de certos editores/gráficas de publicar e faturar, em geral não têm noção do que é publicar um livro, como funciona o mercado editorial. Acham que é como uma doceria onde você entra e encomenda um bolo. Elas perguntam: – Vocês fazem livros aí? Ou então querem falar com um autor, acham que ele mora aqui…

Vinganca Mortal

Falta conhecimento sobre o que significa ser publicado por uma editora de verdade e responsável, muito diferente de uma editora/gráfica prestadora de serviço.

Eu mesmo adoro e também publico os meus livros e como escrevo resenhas sobre alguns deles para jornais, revistas e sites, tenho uma fila de obras para analisar, tem tantas que eu não consigo dar conta. Mas faço questão de analisar tudo o que me chega às mãos, mesmo que o suposto autor não goste da resenha.

“Vingança Mortal” não é um livro ruim, mas poderia ter sido muito melhor. E não culpo a autora, afinal para se publicar hoje num País que acha que livros são produtos de segunda qualidade tem que ter coragem. Mas vivemos muitas crises e, agora, estamos na pior delas: no período das vacas anoréxicas da ignorância com esse tripé falso de economia estável, projeto educacional falido e distribuição de renda fraca. E, no meio disso tudo, um mercado editorial que diminui a cada dia – prova disso é a demência dos livros de pintar para adultos.

O livro de Raquel Machado é pequeno, com uma história bem rasa, nada intrigante, com um final medonho de novela mexicana e se nenhuma revelação, mas poderia atrair outros olhares se ao menos tivesse mais argumentos. Não adianta simplesmente escrever um livro, mesmo que tenha qualidade, é preciso ter um argumento interessante para colocá-lo na livraria. E, talvez, se a autora for mais cuidadosa terá um futuro mais longo nas estantes de comedores de livros. (“VINGANÇA MORTAL”, de Raquel Machado, romance, 117 págs, Clube de Autores – 2014)

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina.

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