Crítica Scream: ícone da cultura pop, Pânico volta como série da MTV
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Crítica Scream: ícone da cultura pop, Pânico volta como série da MTV

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Scream

Episódio piloto da série foi exibido esta semana na MTV americana; piloto mostrou principais características da franquia e no geral agradou

Por Luis Fernando Pereira

Duas das principais características da franquia Pânico, criada lá em meados dos anos 1990 pelos talentosos Kevin Williamson (roteiro) e Wes Craven (direção), foram tão marcantes que até hoje seus filmes são lembrados por isso. Os diálogos sobre cultura pop [1] e a estrutura que flertava a todo o momento com a metalinguagem [2] criaram a marca Scream pelo mundo e, por sorte, ela continua sendo fator de destaque na série televisiva lançada pela MTV americana esta semana.

E em uma cena somente, tais características se apresentam, e de modo bem satisfatório: na sala de aula, numa conversa sobre gêneros literários, sai esta frase do professor: “o gênero gótico está em toda a TV atualmente. Tem American Horror Story, Bates Motel, Hannibal…”. Na mesma conversa, Noah Foster (Jonh Carna) o garoto que será o elo entre o público e a trama, fala da impossibilidade de fazer uma série baseada em filmes de psicopatas. Filmes de psicopata passam muito rápidos, diz ele. Genial.

A série, que tem premissa similar ao filme, já começa de maneira icônica, refazendo e homenageando a cena que transformou Pânico em febre mundial, só que ao invés de Drew Barrymore, tínhamos aqui Bella Thorne, novata e desconhecida, mas que fez um trabalho bem eficiente sendo deliciosamente assassinada e jogada na piscina.

Mesma atmosfera
A atmosfera é basicamente a mesma, mas o contexto é bem diferente, e Scream soube se utilizar bem das ferramentas desta geração: Facebook, Twitter, Smartphones… O mundo mudou bastante de 1996 para cá e é impossível pensar numa história que não possua esses elementos, sobretudo uma história bancada pela MTV.

E o fato da série ser um produto da MTV americana transforma-a automaticamente em um produto feito para o público adolescente. Scream pode agradar sim adultos saudosos e ávidos pelo retorno da trama de Wes Craven, mas o seu foco será a audiência adolescente, e por isso o roteiro – e toda a ambientação – tem um clima juvenil. Os estereótipos todos estão lá: a menina bonita, a popular, a deslocada com problemas com a sexualidade, o nerd viciado em serial killer… Teremos também relação de alunas com professor, dezenas de festas típicas da juventude americana, música pop (de ótima qualidade, deve-se mencionar) e muitos outros elementos que vemos em outras séries do canal. Scream na verdade sempre foi assim, a diferença é que os adolescentes e jovens que se deleitaram com a trama nos anos 1990 hoje tem os seus trinta e poucos anos e não mais se identificam (espera-se) com a vibe juvenil imposta pelo roteiro da série.

Scream

Já o núcleo adulto também vem com elementos bem óbvios: Margaret (Daisy), a mãe de Emma, será peça fundamental na mitologia da série, que vai trabalhar com um provável assassino em série sumido há mais de 20 anos, e que foi apaixonado por ela. O piloto já começou a criar esse vínculo entre a mãe, Emma (sua filha e também a protagonista da série) e o serial killer. Outra parte interessante será, já para o lado do romance, o fato do futuro casal adolescente ter como pais um futuro casal adulto. Só assistindo para entender direito.

A ideia do roteiro é ligar ao máximo os personagens para que rapidamente o público passe a se importar com eles.

E sabe por quê?

A resposta é dada já perto do fim, pelo personagem Noah:

você não pode esquecer que é uma história de terror, que alguém pode morrer a cada reviravolta. Veja. Precisa se importar se o professor parece interessado demais nas alunas mulheres. Precisa se importar se o time venceu o grande. Precisa se importar se a garota inteligente perdoou o atleta idiota… Você torce por eles, você os ama… para que quando forem brutalmente assassinados… isso doa

É isso. Scream sabe mais que ninguém que para a série fazer sucesso será preciso que os personagens caiam no gosto do público, que eles se importem, que torçam, e que no fim das contas deseje que alguém morra, ou que alguém sobreviva. É uma aula de roteiro dada pelos escritores da série.

Porém, neste sentido a trama ainda precisa crescer bastante. Willa Fitzgerald, a protagonista, é uma bela atriz, jovem, desconhecida e talentosa. Sua personagem aparentemente chegará ao final da temporada, e por isso a sua atuação precisa crescer e eliminar algumas características ruins, como a falta de personalidade que a sua personagem (Emma) aparente possui. O resto do elenco segue o mesmo caminho, exceto pelos dois mais estranhos: o nerd aficionado em histórias de serial killer e a garota deslocada, que adora filmar e que é aberta quanto a sua sexualidade. São dois personagens que prometem se destacar na história, caso não morram cedo.

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Já o Ghostface (que agora não é mais Ghostface) não apareceu tanto no piloto, mas promete dar as caras muitas vezes durante a temporada. É preciso entender que não veremos dezenas de mortes por episódio, pois tal escolha banalizaria demais o gênero da série (suspense/terror). Os próximos capítulos serão, provavelmente, focados nos principais personagens, seus segredos, seus dramas, seus passados, seus romances… e como pano de fundo, algumas mortes bizarras com requintes de crueldade, bem típicas do modo Kevin Williamson de fazer cenas de terror.

Scream estreou. A série promete fazer adolescentes felizes, pois é bem diferente do que estão acostumados a assistir. Os adultos – se tiverem mente aberta – também irão se divertir bastante, mas já sabendo que a história não foi atualizada para eles.

Pânico retornou bem, dando suas aulas de metalinguagem e produzindo diálogos muito bacanas sobre cultura pop. Vale à pena assistir. Ao filme e a série.

Luis Fernando Pereira é crítico cultural e editor/administrador do site


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