Entrevista com a escritora Tereza Reche
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Entrevista com a escritora Tereza Reche

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Teresa Reche

“Todos os meus personagens nascem de uma maneira mágica, quase transcendental em mim. É como se eu transformasse o abstrato de uma dor, uma emoção qualquer e a transformasse em um ser.” (T.R.)

Por Elenilson Nascimento

Oscar Wilde é um dos meus autores favoritos e, em 1889, publicou uma resenha anônima do livro de estreia do poeta W. B. Yeats. Nesse texto, Wilde, em comentário bem ácido, afirmava que os livros de poemas escritos por poetas jovens são em geral notas promissórias jamais resgatadas. Depois, deferiu seu bravo e igualmente fleumático julgamento: “Às vezes nos deparamos com um volume que está tão acima da média que é impossível resistir à tentação de predizer um belo futuro para o seu autor”.

Tereza Reche é um bom exemplo desses autores acima da média citados pelo pai do “O Retrato de Dorian Gray”. E acho que o Wilde iria gostar, assim como eu gostei. Uma escritora adorável, dessas que você bate o olho e quer conhecer, pesquisar e levar para a sua estante. Ela acaba de lançar “O Silêncio de Euller”, que já lhe rendeu o Prêmio Cecília Meireles 2015, mas iniciou a sua vida literária aos 8 anos, já escreveu desde histórias em quadrinhos até finalmente aos 12 anos concluir seu primeiro romance histórico. Ingressou na Faculdade de Biomedicina em 2001 e a partir de então, após formação nessa área profissional, trabalhou em vários laboratórios clínicos e hospitais até finalmente, em 2008, ingressar na docência de Ensino Superior.

Na Faculdade Anhanguera de Santa Bárbara d´Oeste – SP atuou como coordenadora do curso de Biomedicina entre 2009 a 2011, onde implantou projetos sociais e biomédicos. Como muitos na área de Educação, deixou a docência para se dedicar à Literatura, até que em 2012 ingressou no navio de cruzeiros Grand Holiday com o intuito de vivenciar a realidade dos tripulantes e dar início ao seu romance “Crew Life – Only The Strong”. Nesse mesmo ano, publicou finalmente a trilogia histórica intitulada “Armadilhas de um Tempo” e ainda escreveu o ensaio poético “Inúmeras Palavras I”.

Nessa entrevista, Reche fala um pouco sobre literatura, da sua concepção de romance, de suas reservas quanto aos modismos literários, além da falta de oportunidades, a atual situação de falência de várias livrarias e editoras, mercado editorial segmentado e um futuro bem estranho para quem quer viver de livros. Sou aquela que mesmo sabendo das dificuldades da Literatura como profissão, escolheria quantas vezes fosse necessário por ela”, disse.

Elenilson – Se você deixasse de escrever, qual a outra profissão que você abraçaria?

Tereza Reche – Sou formada em Biomedicina e atuo paralelamente em Análises Clínicas, então, decerto, voltaria a focar apenas no meu campo de atuação profissional que é na área da Saúde.

Elenilson – Lendo algum romance, vendo um filme, uma novela, gostaria de mudar o final? Citar exemplos…

Teresa Reche

Tereza Reche – Talvez o final da lenda de “Tristão e Isolda”… Nunca me conformei com o final, então imaginei inúmeros finais diferentes para a história.

Elenilson – Você disse numa entrevista que “é uma sobrevivente dentre 8 irmãos, numa época em que viviam tempos difíceis e sequer possuíam o que comer, então cresceu vendo o mundo com mais emoção, cores, dores, odores e, sobretudo, com certa introspecção”. Isso foi fundamental para a sua decisão de ser escritora?

Tereza Reche – Sem dúvida que sim. Quando ainda criança, devido a certos traumas do destino, isso me levou a amadurecer de uma forma, ao menos no campo da criatividade, de uma maneira inexplicável. Naquela mesma época, me vi diante de sentimentos que precisavam ser canalizados de alguma forma, então escolhi naquele insight quase desumano, a escrita.

Elenilson – Você iniciou na arte da escrita aos 8 anos de idade e aos 12, concluiu seu primeiro romance. Muito precoce. O que uma criança de 8, 12 anos tem de tão importante para escrever?

Tereza Reche – Antes dos sete anos, enquanto não sabia escrever ainda, sofria uma impaciência tão significativa por isso que sequer me interessava por brinquedos ou objetos infantis. Minha principal preocupação era escrever e ler. Meus pais tentavam me recolocar no eixo da cronologia, mas não tiveram sucesso. Aos 8 anos, já sabendo escrever livremente, finalmente criei minhas histórias em quadrinhos. Porém, lembro-me que havia uma angústia dentro de mim que queria de alguma forma compreender a religião e o porquê de haverem várias e não apenas uma. Foi então que, ao questionar meu pai, ele afirmou que apenas a Católica era a correta. Mas isso me inquietou ainda mais, aos 12 anos estudei muitos livros de História que minha mãe tinha em sua biblioteca particular e dali iniciou através de fatos históricos sobre a Inquisição, os escritos e rascunhos do romance que hoje é intitulado “Armadilhas de um Tempo”.

Elenilson – O que a mulher linda Tereza diria para a criança pobre Tereza no momento em que começou a questionar coisas?

Tereza Reche – Diria para que jamais cessasse e que buscasse cada vez mais até não mais pertencer a esta existência. Pois não existe fim de questões, tampouco resposta definitiva para questão alguma. Entretanto, a engrenagem do saber só existe devido aos que por ele buscam.

Elenilson – Qual dos seus livros mais gostou de ter publicado?

Tereza Reche – “O Silêncio de Euller” foi o que me rendeu e me rendará até o fim deste ano de 2015, troféus e prêmios. Porém, de alma, o romance que mais me envolveu e que hoje digo, faz parte daquele contexto, foi sem dúvida “Armadilhas de um Tempo”.

Elenilson – O seu livro “Armadilhas de um Tempo” parece roteiro para novela das 18 horas da Globo. O que mais te atraí nesses temas cheios de figuras medievais, carregado de espiritualidade?

Tereza Reche – Dizer o que me atrai para esse perfil de escrita, se faz complexo para mim. Como disse, dei início a este romance com exatamente 12 anos, ele me acompanhou durante praticamente toda minha vida, mas o embasamento teórico que adquiri com o passar do tempo para inserir neste livro foi sem dúvida árduo e minucioso. O que me faz escolher esse tema talvez seja o peso que a Era das Trevas tem imposto sobre a humanidade, e pelo fato de que muito se ensinou e ensina de maneira equivocada sobre o tema. Busquei escrever de uma maneira que o leitor saberá de forma racional e, sobretudo, realística acerca a verdade da Inquisição do século XVI.

Elenilson – Ao entrar numa livraria você já teve vontade de matar alguém porque seu livro não estava na vitrine, nas prateleiras, nenhum vendedor o conhecia etc.?

Tereza Reche – Bom, confesso que não poderia fazê-lo, afinal jamais publiquei de maneira física – ainda – minhas obras. Elas foram e permanecem até então, disponibilizadas de maneira virtual no site da Editora PerSe. Porém, meu sonho é ter meus romances expostos sem dúvida. Um sonho que espero realizar, então, por isso, e somente por isso… Não imagino qual seria minha reação diante de tal cenário.

Elenilson – Nessa ocasião havia em você a maquiavélica disposição de subornar livreiros?

Tereza Reche – Jamais! Não faria isso. Creio que a magia do reconhecimento é exatamente este vir surgindo como um amanhecer compreende? Calmamente, forte e vitorioso. E que haverá de iluminar o artista por todo um dia. Acredito que o dia é a vida útil do sucesso e o Sol os olhos dos nossos leitores.

Elenilson – Quando lê outros autores pensa que, se quiser, pode escrever muito melhor?

Tereza Reche – Não sou de criticar obras alheias, acredito que há sim muitas obras de produção. Aquelas que são escritas exatamente com o intuito de lucro. Isso sim me passa uma imagem passiva de crítica. Mas não imagino que poderia escrever melhor, confesso que faço meu melhor. Mas não desmereço a outra obra, pois possuímos leitores para todos os perfis literários. Entretanto busco um perfil seleto de leitores, prefiro 100 leitores de qualidade a 1.000.000 sem cultura.

Elenilson – O que faz quando sente que uma personagem lhe escapa por estar anos-luz de distância de suas possibilidades de escritora?

Tereza Reche – Não escrevo sobre ela. Veja: todos os meus personagens nascem de uma maneira mágica, quase transcendental em mim. É como se eu transformasse o abstrato de uma dor, uma emoção qualquer e a transformasse em um ser. E esse ser, quando expõe suas angústias e desejos, me faz sentir coparticipante desse cenário. Torna-se difícil a escrita de um personagem que eu desconheça, ou que se encontre distante de mim como “alma” compreende? Mas sim, houve casos como em meu último romance histórico, “Ditadura de Corações”, que tive de inserir personagens como Getúlio Vargas, por exemplo. Então, o que fiz foi citá-lo e descrever os cenários que o envolviam à distância, e creio que foi o ideal a se fazer.

Elenilson – Hoje em dia, muitos autores não se arriscam. Porque determinado tema deu certo para um, outros montam e fazem exatamente a mesma coisa. Como você encara esses modismos literários? Lembrando que a moda agora é pintar figurinhas…

Teresa Reche

Tereza Reche – Sou 100% contra modismos, se não possuo criatividade, reflito, medito, me isolo. Mas em hipótese alguma escreveria algo já escrito! Não critico como eu disse; mas eu, Tereza Reche, não o faria. Houve um período, entre 2000 e 2005, onde permaneci com bloqueio criativo, foi terrível, sofri de depressão profunda recordo-me. Precisava escrever, e não tinha ideia alguma. Mas sofri meu silêncio interno, entretanto, não me baseei em nenhuma obra paralela. Quando criança, aos sete anos, houve um evento marcante que me levou a me comportar de maneira tão rígida comigo mesma. Escrevi uma redação para a professora, mas quando ela disse que estava bom demais para ter sido escrito por mim, zerou a nota, e chamou a atenção dos meus pais na reunião de pais e mestres. Isso foi muito triste por que fora eu quem escreveu! Mesmo assim, levei zero. E jurei jamais havia copiado, e jamais o faria na vida!

Elenilson – Quando percebe, porém, que uma determinada personagem está muito fraca, que as ideias estão murchas, você recomeça ou adota a ironia em relação a elas?

Tereza Reche – Quando isso ocorre isso não recomeço, nunca me lembro de ter recomeçado minhas obras, mas, contorno os planos, crio situações, eventos e meios para que daquele momento em diante, este personagem venha se destacar de maneira significativa.

Elenilson – Relê sempre as mesmas obras? Procurando o quê?

Tereza Reche – Referindo-me as minhas, releio inúmeras vezes, tentando sentir novamente o mesmo prazer que ocorrera durante a escrita… Me pego demais na história, nos personagens, há momentos em que parecem realmente existir. É algo místico, eu diria; se não fosse devaneio de um escritor incondicionalmente apaixonado pelo que faz…

Elenilson – Cercado de falta de oportunidades, livrarias e editoras falindo, mercado editorial segmentado, editores cada vez mais arrogantes, gente medíocre escrevendo, país ignorante e antas acadêmicas por todos os lados, não seria mais fácil botar uma bala na cabeça? Então, insiste em escrever por quê?

Tereza Reche – Eu nasci para isso, não que seja boa nisso, mas nasci para escrever. Se isso me levará para algum lugar paradisíaco no final do último capítulo da vida, ótimo. Basta-me chorar as alegrias alcançadas… Mas se isso não me levar a lugar algum, morrerei ciente e em paz, por que vivi e viverei o restante de minha existência escrevendo.

Elenilson – Se sua obra não teve repercussão, o culpado é o editor, o aspecto gráfico ou o distribuidor?

Tereza Reche – Creio que o formato empobrecido de divulgação. Hoje vivemos num mundo onde a tecnologia de informação e o compartilhamento dela são imediatos e fortalecidos pelos que a sabem usar. Creio que se o escritor souber se ajustar ao meio de comunicação que possuímos hoje, isso se torna um ponto positivo para o reconhecimento de suas obras e consequentemente sua repercussão.

Elenilson – E em caso de nenhuma das alternativas na questão anterior, é óbvio que ela está um século adiante de seu tempo?

Tereza Reche – Bom, caso após todos os instrumentos de repercussão serem usados, mesmo assim obtiver resultados negativos, poderia de uma forma otimista, tender para esse raciocínio… Por que não?

Elenilson – Qual foi a emoção de ter recebido um título graças aos ótimos resultados quanto ao seu trabalho literário? Títulos também alimentam a conta-corrente ou são só importantes para aumentar o ego?

Teresa Reche

Tereza Reche – Receber esses títulos foi tão gratificante, que ainda hoje eu confiro de vez em quando o troféu Cecília Meireles, para validar se realmente o recebi! Mas, sem dúvida nada, valor em dinheiro algum é o bastante frente ao reconhecimento em si. O fato de ver que seu trabalho de anos, de pesquisa e amor incondicional, estão recebendo o devido reconhecimento, é imensurável.

Elenilson – Qual a pior coisa de ser uma escritora num país que não valoriza a Literatura como o Brasil?

Tereza Reche – É a solidão… É como gritar e não ser ouvida, ou talvez levar anos para erguer um edifício e simplesmente ninguém notá-lo. Sinto-me muitas vezes assim, mas o interessante é que, essa solidão alimenta a inspiração… Então, como disse, quem ler será de fato de alguma forma, levado a conhecer minhas obras por algum culminar que talvez nem ele como leitor, nem eu como autora o saberemos, mas que algo ocorreu neste meio de percurso. Isso me basta.

Elenilson – Eu vou ganhar um livro autografado?

Tereza Reche – Decerto que sim!

Elenilson – Deixe um recado para seus leitores e para escritores que ainda estão confusos…

Tereza Reche – Para meus leitores digo que os sirvo, que sou instrumento de algo além do que posso explicar e, sendo assim, apenas me coloco como geradora do melhor e mais significativo dos cenários, que tem por intuito levá-los a sentir, imaginar e refletir a existência. Aos escritores, digo que a confusão nada mais é que a metamorfose de algo novo, disforme, mas que em breve haverá de se revelar a eles. Basta o tempo se cumprir para que isso venha ocorrer, assim são as inspirações do artista…

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina


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