Entrevista com o artista plástico Eduardo Lima
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Entrevista com o artista plástico Eduardo Lima

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Eduardo Lima

“É preciso também matar o bicho papão criado pelos gestores culturais que impõe uma elitização dos projetos culturais…” (E. L.)

Por Elenilson Nascimento

Dois meninos, oriundos de uma das inúmeras periferias esquecidas pelos poderes públicos, conversam e um pergunta ao outro: “O que faz seu pai?” O coleguinha responde: “Ele desenha, escreve, pinta…” E o interlocutor questiona: “Mas ele não trabalha?”. Isso pode até parecer engraçado, porém, é mais normal do que se possa imaginar, fruto da ausência de informação, de educação, de perspectivas e de cultura (algo cultivado dentro das nossas casas).

No entanto, a arte está presente no nosso cotidiano, embora o cidadão comum não perceba e não disponha de meios para conhecê-la e apreciá-la. E para o talentoso artista plástico baiano Eduardo Lima, a introdução dos primórdios das artes plásticas na escola deveria ser fundamental para que toda criança cresça já acostumada com o meio artístico, seja ele qual for.

Lima, nascido no ano de 1977 na Cidade de Capim Grosso (BA), é casado e radicado em Barreiras, cidade do Oeste baiano, lugar escolhido, segundo ele, por sua história e suas belezas naturais. Autodidata desde os dez anos de idade, se destaca principalmente pelos traços firmes para retratar o povo nordestino. Paralelamente à litografia, desenvolveu a técnica de pintura com outra proposta de estilo e tema no qual, hoje, retrata através de pinceladas firmes e cores fortes, a simplicidade, o cotidiano, a ingenuidade e a cultura nordestina.

No ano de 1996, propôs uma mudança em seu processo técnico desenvolvendo a pintura clássica de velaturas a partir do desenho de observação; ampliando recursos para a expressão da sua pintura. Atualmente o trabalho em pintura sobre tela tem sido sua principal atividade, mas já participou de diversas exposições no Brasil e também no exterior, além de suas telas fazerem muito sucesso nas redes sociais – coisa não muito comum.

Elenilson – Em sua opinião, como anda o mercado de artes plásticas no Brasil? Há alguma tendência a melhorar?

Eduardo Lima – Independente de crise ou não o Brasil sempre terá um mercado de arte inseguro e instável, pois a arte no país é encarada como um produto supérfluo.

Elenilson – Embora o cidadão comum não perceba, a arte está presente em seu cotidiano. De que forma você acha que a “arte elitizada”, que fica restrita a uma determinada fatia da sociedade, pode ser disseminada a um público maior?

Eduardo Lima – Há um orgulho que ata e mordaça cada artista, e esse orgulho precisa ser quebrado. Não digo no sentido do criar, mas sim no sentido do abordar e mostrar a sua arte. Penso que a arte precisa ser mais popularizada.

Elenilson – De alguma forma, virtual ou não, você faz arte, arte popular, arte de rua. Qual foi o fator principal que o levou à arte?

Eduardo Lima – Sou autodidata e nasci com um grande amor por tudo que denote arte, e o fator predominante foi a necessidade de preencher uma lacuna que estava vazio em mim.

Elenilson – Você já trabalhou ou tentou trabalhar com outras técnicas, assim como outros materiais e tendências como escultura e outros?

Eduardo Lima – Sim, no início eu era um artista eclético, fazia de tudo um pouco, desde escultura em madeira, argila e gesso. A pintura em tela veio depois e, mesmo assim, era uma mistura de vários estilos. Confesso que às vezes me sentia confuso, mas quando criei a primeira tela representando um nordestino nunca mais sair do estilo, isso já faz cerca de 15 anos.

Elenilson – Já pensou em ilustrar um livro?

Eduardo Lima – Já sim, mas um livro escrito por mim e voltado para crianças. Às vezes aparecem convites de alguns escritores, mas como não gosto dessa coisa de encomenda, costumo rejeitar.

Elenilson – Em geral, você utiliza bastante cor nas suas obras, qual ou quais os artistas que exerceram maior influência na sua arte e porque a preferência por natureza, especialmente animais e/ou a questão do negros nordestinos?

Eduardo Lima – Tarcila, Portinari e Ademir Martins, esses são os pintores que influenciaram minha carreira, além do mais, o meu trabalho é pautado no Tropicalismo brasileiro por isso tenho uma paleta bastante quente.

Elenilson – De que forma a pintura e a fotografia exercem influências no seu trabalho cotidiano?

Eduardo Lima – O artista vê o mundo de uma forma diferente. Depois que passei a pintar, também passei a interpretar as questões da vida de um modo bastante singular. Isso é interessante pois passei a ser antropólogo também, pelo fato de estudar constantemente o cotidiano e a história do nordestino.

Eduardo Lima

Elenilson – No seu perfil no Facebook, há muitas pessoas fazendo menções à sua obra. Como se deu esse contato? Você tem preocupação especial em apresentar seus trabalhos às crianças? Como é isso?

Eduardo Lima – Algumas pessoas aparecem na minha página naturalmente, outras eu as convido de forma aleatória. Tento incentivar as crianças desde cedo o apreço pela arte, por isso faço um trabalho ingênuo e de fácil compreensão.

Elenilson – As suas pinturas retratam a vida sofrida dos nordestinos, seus heróis, anônimos e paisagens. Como funciona e de que forma esse vínculo contribui para o seu processo de criação?

Eduardo Lima – A maioria das obras são inspiradas na minha vida de nordestino. O sertanejo é um “cabra” forte, apesar de tantas dificuldades ele resiste firmemente e isso faz dele um herói para mim.

Elenilson – Existe algum tipo de patrocínio no seu trabalho?

Eduardo Lima – Não, por outro lado não levanto bandeira de ninguém.

Elenilson – Nós sabemos que a arte tem, por uma de suas metas, refletir o contexto social de sua época. Como ela se caracteriza nos tempos atuais e o que estaria refletindo sobre o mundo em que vivemos?

Eduardo Lima – A arte tem por finalidade transformar a vida das pessoas e ela se posiciona de forma a conscientizar os valores que as vezes deixamos passar, despercebido no corre corre do dia a dia. E nos dias de hoje a arte também é vista como uma ferramenta de denuncia sócio econômico.

Elenilson – A arte pode funcionar como uma válvula de escape para manter um maior equilíbrio emocional tanto daqueles que a “consomem” quanto dos que a produzem? Como?

Eduardo Lima – Sim, o criar é muito prazeroso, e quando o espectador consegue senti aquilo que você quis transmitir isso é muito gratificante, prazeroso e relevante tanto para quem consome quanto para quem cria.

Elenilson – A cultura de massa e o constante apelo midiático pelo consumo se vêem refletidos nas expressões artísticas contemporâneas? Como?

Eduardo Lima – Sim, a arte sempre refletirá as mudanças da sociedade, pois vivemos no mundo em que o ter é maior que o ser, e isso reflete nas criações contemporânea, pois desenhamos um futuro de pessoas cada vez mais individualistas.

Elenilson – Como você vê o momento cultural no dia de hoje? A arte, em termos gerais, está empobrecendo ou mais uma vez cumpre com seu papel de refletir a sociedade?

Eduardo Lima – A arte não morre ou empobrece, ela se renova e se adapta ao seu ambiente e época. E ela tem cumprido seu papel nos dias de hoje.

Elenilson – Muitos consideram o seu trabalho como vandalismo, transgressão, crime ambiental, dano à propriedade e ao patrimônio, alvo de ações policiais, objeto de indagações sobre como salvar uma juventude transviada que automaticamente flerta com o mundo das gangues, do crime e das drogas. Dentre todos os espaços de discussão nos quais circula a pichação, cada vez mais um outro, que antes o ignorava, abre-se às suas possibilidades: o da arte. Comenta.

Eduardo Lima – De certa forma a pichação é uma manifestação artística na ótica contemporânea, mas a grande questão é “onde esse jovem pode expressar essa manifestação”, pois é complicado e muitas questões de natureza pública, desde o educar o olhar até o educar o cidadão.

Elenilson – A pixação é o que tem de mais conceitual na arte contemporânea hoje?

Eduardo Lima – A pixação esta abaixo do conceito contemporâneo, pois há outras expressões mais conceituais. Pena que é chocante e um tanto quanto duvidosa.

Elenilson – Acho íntegro o cara que tem um trabalho na rua ter também um trabalho no mercado da arte. Mas o grande erro dos grafiteiros não foi quando o grafite entrou para o circuito das galerias, foi quando eles fizeram o contrário, transformaram a rua em galeria. Li a entrevista de um famoso grafiteiro que disse que o grande erro da arte de rua foi quando eles começaram a ganhar para pintar na rua. Você concorda?

Eduardo Lima – Não, o grande medo dos galeristas é que exista arte de melhor qualidade, popular e acessível nas ruas do que nas galerias. As cifras serão sempre um ponto determinante para tais questões.

Elenilson – Mas você não acha que, nesse caso, você tá abrindo mão do que legitima seu trabalho, que é produzir de forma ilegal, transgressora. É por isso que o que tem de mais conceitual na arte contemporânea hoje é o pixo?

Eduardo Lima – Penso que não.

Ceia com Nordestinos

Elenilson – Como sobreviver de arte num país como o Brasil?

Eduardo Lima – Só tem um jeito: transformar a arte em um produto consumível, uma necessidade.

Elenilson – O que falta atualmente para incentivar mais o gosto dos jovens pelas artes?

Eduardo Lima – Levar mais arte às salas de aula, não só no livro, mas de forma mais concreta. Uma interação disciplinar talvez fosse uma boa forma de incentivo.

Elenilson – Em linhas gerais, quais as principais diferenças que a arte moderna guarda com relação tanto à clássica quanto à contemporânea?

Eduardo Lima – São formas distintas de transfigurar sentimentos: o clássico é uma linguagem que já vem pronta, e o contemporâneo é aquela que você precisa montar uma ideia para definir o que você sente.

Elenilson – Ausência de público não é problema somente nas artes plásticas. A maioria das galerias, lançamento de livros, cinema nacional alternativo e teatro também sofrem do mesmo problema. As pessoas têm medo de entrar numa galeria e consumir cultura, esta é a verdade. A que você atribui esse desinteresse pelas artes no Brasil?

Eduardo Lima – Temos uma cultura rica, mas somos pobres no quesito valorização da nossa própria identidade cultural. E para que o interesse, amor e valorização a arte seja uma realidade é preciso plantar no coração de cada um desde cedo. É preciso também matar o bicho papão criado pelas gestores culturais que impõe uma elitização dos projetos culturais fechando todo e qualquer acesso aos pequenos consumidores e apreciadores da boa arte.

Elenilson – Que conselho você daria a um jovem aspirante a artista plástico?

Eduardo Lima – Estudem e tenham foco, dediquem-se, façam arte por amor e as outras coisas virão naturalmente.

Elenilson Nascimento – dentre outras coisas – é escritor, colaborador do Cabine Cultural e possui o excelente blog Literatura Clandestina

Contato Eduardo Lima: (77) 8114-1235 e 8135-3474
Email: atelieeduardolima@bol.com.br
eduardolima_bahia@hotmail.com

Veja galeria com alguns dos seus trabalhos


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