O homem imoral - Novo filme de Woody Allen, Homem irracional, traz suspense e mais uma crise existencial
Críticas

O homem imoral – Novo filme de Woody Allen, Homem irracional, traz suspense e mais uma crise existencial

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Emma Stone e Joaquin Phoenix

Emma Stone e Joaquin Phoenix

“Homem irracional traz à tona a justificabilidade do imperativo categórico, das decisões tomadas como atos morais”

Por Karina Balan Julio

Abe Lucas (Joaquim Phoenix) é um cético professor de filosofia que perdeu o gosto pela vida, e vai lecionar em uma universidade no interior dos Estados Unidos. Lá, ele conhece a professora Rita (Parker Pousey), presa em um casamento decadente, e a estudante Jill (Emma Stone), com quem desenvolve um flerte. Homem irracional é repleto de referências filosóficas que vão desde Kant, Heidegger e Kierkegaard, perpassando até mesmo Hannah Arendt e Simone de Beauvoir. Allen faz de seus diálogos um pretexto para a divagação filosófica e existencialista, e a primeira parte do filme se arrasta em verborragia sem fim. Abe é um homem em crise e assume a figura do gênio triste e boêmio, tão presente no imaginário mundial através de personalidades como Charles Bukowski, Ernest Hamingway e reconhecível em tantas outras personagens de Woody.

A fórmula do homem de meia idade envolvido com uma mulher mais jovem também se repete, o que faz do filme até certo ponto apenas mais do mesmo. Embora Emma Stone seja uma presença em si mesma, não conseguiu fazer de Jill uma personagem menos rasa e ingênua, mas completamente insossa e vulnerável aos encantos do quarentão. Os diálogos aparentemente difíceis e profundos parecem ser uma provocação sobre a vida esvaziada de sentido que Abe leva. Mergulhado em sua própria apatia, ele questiona a própria filosofia e a utilidade de teorias, livros e ideias seculares reproduzidas passivamente. Uma curiosa guinada em sua rotina acontece quando ele e Jill escutam uma conversa em um restaurante.

De súbito ele tem uma ideia sombria e recupera a ânsia de viver, passando de cético a romântico. Allen alega que o filme é sério do início ao fim, mas é somente a partir daí que o filme vai ganhando doses de tensão e adquire uma dimensão mais delicada. Por hora, as teorias filosóficas são deixadas de lado e somos convidados a testemunhar um suspense latente. Uma nova esfera de Abe nos é apresentada, e ao tentar executar sua ideia ele se mostra aventureiro e inconsequente, novamente um poeta radical que acredita poder fazer justiça com suas próprias mãos.

Ao acompanhar Abe na execução de seu crime perfeito, nos deparamos com reflexões acerca da moralidade e o questionamento da legitimidade das ações do ser humano. Homem irracional traz à tona a justificabilidade do imperativo categórico, das decisões tomadas como atos morais. Quem assistir ao filme, contudo, verá que a elaboração deste crime perfeito se desenvolve de forma muito simples, e o toque especial está na habilidade do diretor em dosar a tensão crescente, que surge no próprio cotidiano e a partir dos conflitos dos personagens. Em geral, o filme é ameno, a variação no ritmo só acontece mesmo no desfecho, com a descoberta da faceta mais perigosa de Abe. Vale a pena também pelas cenas finais, quando o próprio acaso prega uma peça no professor, um ultimato do diretor para nos fazer refletir sobre ética e moralidade, além do valor da experiência individual.

Karina Balan Julio é estudante de Comunicação da UNICAMP e correspondente do site em São Paulo


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